EDITORIAL

Déficit habitacional

Relançado como Programa Casa Verde e Amarela, o sucessor do Minha Casa, Minha Vida aponta o foco das atenções para o deficit habitacional, um assunto que perdeu fôlego na agenda nacional nos últimos anos, mas é duramente sentido pelos municípios.

Esse projeto federal foi lançado em 2009, mesmo ano do último levantamento feito em Mogi das Cruzes sobre o total de famílias que não têm moradia própria. Em 11 anos, a se considerar o crescimento populacional e a entrega de conjuntos populares em Braz Cubas e Jundiapeba, essa demanda, com certeza, é outra.

Naquele ano, 15 mil famílias estavam na fila da casa própria. E hoje? Qual será o vazio habitacional para atender as milhares de pessoas que vivem história parecida com a do autônomo Fernando Correa Godinho, entrevistado por este jornal? Difícil apostar.

Godinho residia em uma área ocupada em Jundiapeba que foi alvo de um processo judicial de reintegração de posse, com resultado favorável à proprietária do terreno, a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP).

Com a guarda dos filhos, sem ter para onde ir, ele fez o que uma parte dos desassistidos pelos governos fazem: construiu um barraco em outro espaço irregular e assim espera o acesso à casa própria.

Lançado na semana passada, o Casa Verde Amarela recebeu críticas porque tende a excluir as faixas mais pobres da população, que gastam cerca de 30% da renda mensal com o aluguel, ou vivem em casas densamente ocupadas ou, ainda, em moradias extremamente precárias. O atendimento a essa faixa de famílias está paralisado desde o início do governo Jair Bolsonaro.

Em Mogi, durante a pandemia, este jornal mostrou o avanço das tentativas de ocupação de terras. Há, nessa prática ilegal, famílias de renda média, que já possuem outros bens e se valem de negócios sabidamente espúrios, mal intencionados. Porém, o problema maior atinge quem não tem mesmo para onde ir.

Principalmente agora, diante da ‘‘reinvenção’’ do Minha Casa, Minha vida, dar visibilidade a esse grave cenário contribuição deste jornal para colocar o assunto novamente no centro do debate público. Estamos em um período eleitoral e esse assunto permanecerá na mesa do futuro prefeito e vereadores. Por detrás de uma ocupação irregular há um sério desequilíbrio e a confirmação do abandono do estado diante de uma causa que leva milhares de pessoas para as bordas da cidade, onde a ausência do saneamento básico, em especial, amplia a desigualdade social.


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