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'FEELING'

Stand-up em Mogi: Marcio Pial provoca o riso, mas também a reflexão

No espetáculo stand-up comedy ‘Feeling’, o humorista mogiano Marcio Pial transforma em piada histórias que o machucaram no passado, como abuso infantil e problemas paternos

Heitor Herruso
26/02/2022 às 07:55.
Atualizado em 26/02/2022 às 12:21

Escritores norte-americanos, os irmãos Gordon e John Javna publicaram no início deste ano um livro com o seguinte título: “A Vida é uma Piada”. Com esta mesma vibe, o humorista mogiano Marcio Pial escreveu seu novo show de stand-up comedy: ‘Feeling’. No palco, em pé e com um microfone na mão, ele transforma em algo positivo histórias que o machucaram no passado, como a vivência nas ruas, abuso infantil e problemas paternos.

(Divulgação - Vitor Gonçalves)

A apresentação já é um sucesso. Rodou grandes casas de comédia, como o Clube Barbixas e também o Hillarius, em São Paulo, o Litoral Comedy Club, na Praia Grande, e também o Centro Cultural da Penha. Agora o endereço é a terra Natal de Pial: Mogi das Cruzes. Por aqui, a estreia será na próxima quinta-feira (03), às 20h30, no Mais Brasil Bar, que fica na rua Engenheiro Gualberto, 199, Centro.

Pial fala de risos e reflexões (Foto: divulgação / Rogerio Assunção)

Quem o acompanha há algum tempo poderá ver certas influências de espetáculos anteriores, como ‘Rebobinando’, em que ele aparecia acompanhado de vários itens característicos dos anos 1980, e também um especial que fez há três anos, para comemorar os 40 anos de vida. Mas ‘Feeling’ é fresco, e assim como muitos produtos culturais, nasceu durante a pandemia de Covid-19.

“Comecei a precisar de apoio psicológico, por conta da depressão diagnosticada. São coisas que estavam dentro de mim há muito tempo, como a vivência nas ruas, a criação sem pai, apenas por minha mãe solo e com cinco irmãos”, explica Pial, que durante a terapia mergulhou nas próprias questões, como antes nunca havia feito.

Após atingir equilíbrio emocional, e com o aval da profissional que o atendia, passou a experimentar “desabafar” no palco. Para um comediante, isso significa, é claro, fazer piadas. “É como um rapper, que quando canta, fala do bairro e das dificuldades”.

Por isso, entre uma sessão e outra, Pial passou a testar novos textos, como se estivesse conversando com uma plateia de psicólogos. “Falo da falta de pai e também de paternidade, pois sou um avô descolado de três netos”, começa a listar o comediante. Mas há temas ainda mais profundos, como a pobreza extrema e o abuso infantil. “Eu sofri e falo pouco sobre isso, mas brinco com algumas piadas”.

Outro tabu em cena é a homofobia. A partir de um relato pessoal, a ideia do humorista é “quebrar o preconceito”. “Me apaixonei por um menino uma vez. Ele jogava futebol, e eu queria ser igual a ele. Isso é paixão. E trago isso para a cena. Sou hétero, mas já gostei de um menino, e acho que todo homem na infância se apaixonou por um amigo”.
Tudo isso é mesclado, como não poderia deixar de ser em um projeto de Pial, por elementos do hip hop, da palhaçaria e do circo, três áreas em que ele atua. Em ‘Feeling’, ele se joga, faz tudo o que sabe e o que gostaria de ter feito há tempos. É fruto de muita reflexão e também de maturidade. 

“Conto coisas que nunca tinha contado, em um desapego legal da vaidade”, afirma ele. Assim sendo, ‘Feeling’ não é aquele espetáculo para rir o tempo todo. A “punchline”, palavra em inglês para o momento do riso, a parte final e mais engraçada, o clímax da piada, é mais cadenciada aqui. 

“Dou o clima tenso primeiro, faço storytelling. Por exemplo, conto essa história que me apaixonei por um menino, que fui nadar no rio pelado com ele, que não podia chegar com roupa molhada em casa. Levo por um caminho até dar um final”, explica.

Por ter temas tão pessoais e espinhosos, já trabalhados em horas e horas de terapia, é de se esperar que o enredo de ‘Feeling’ seja doloroso para Pial. Mas não é, garante o artista. “Quando eu faço piada não dói. É uma forma de me expressar. É igual música, quando se fala sobre o amor ou uma partida. Como a minha arte é dança, hip hop e humor, palhaçaria, preciso trazer isso em forma de risos. E tem aquele ditado sobre rir da desgraça dos outros. Então eu conto um pouco da minha”.

O primeiro espectador de todo este conteúdo, na verdade, era inanimado. Em um caderno, Pial escrevia, rascunhava. Durante a pandemia, com saudade da família, sentia necessidade de falar, e encontrou conforto escrevendo.  Quando, incentivado pela esposa, que é bailarina, começou o tratamento psicológico, decidiu transformar aquelas palavras em ações.

Dessa forma, assim como aconteceu quando Marcio Pial tinha 12 anos, a arte o salvou outra vez. Naquela época, ele participou de grupos de dança de rua e de vários festivais. A cultura hip hop o levou para a escola de balé, que o levou para o circo, onde conheceu a palhaçaria e o humor. “Não tinha projeto social, era a rua mesmo. E viver a rua é não é matar um leão por dia. É ser o leão. É sobrevivência. Se eu não virei bandido, não desandei, é por causa da cultura, da arte”, agradece.

Portanto, assim como em um livro em que os escritores Gordon e John Javna apresentam 100 histórias divertidas, que funcionam como lições de vida, Pial produz o mesmo efeito, também a partir de piadas. A diferença é o palco e o formato stand-up comedy.

 Para além da comédia

Além do sucesso do novo espetáculo de stand-up comedy, o momento atual da carreira de Marcio Pial é composto por outras conquistas. Atuante na Secretaria Municipal de Cultura de Mogi, ele é o gestor da Casa do Hip Hop, por exemplo.

“Eu tomo conta dos oficineiros, dos alunos, e desse projeto novo, que é o Circo Corredor. A primeira caravana foi um sucesso, levando mais de mil pessoas ao Parque Centenário, e agora teremos a segunda, sempre com artistas de Mogi. E eu faço a direção, ajudo a criar os números”, diz ele.

Em relação ao circo, Pial quer fazer como no passado foi feito com o hip hop. “Há 20 anos fomentamos para que pudesse ter uma casa. Agora queremos também um lar para a arte circense, com várias trupes”.

Além deste trabalho no setor público, o artista tem outros projetos na manga. Um deles é um filme sobre o ‘Super-Nóis’, personagem autoral. Em um futuro não tão distante, o “super-herói da periferia” pode ganhar as telonas, a partir de um formato que está sendo estudado no momento.

Também deve ser revisitado o “Feito Em Casa”, que ele criou com a famíia durante a quarentena, no início da pandemia de Covid-19. Antes visto em lives, talvez o formato possa ser repensado para ganhar palcos como o do Sesc, cuja unidade local tem incluído nomes mogianos na programação cultural.

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