Após polêmica envolvendo a continuidade do projeto ‘Pequenos Músicos... Primeiros Acordes na Escola’, uma reunião realizada na última sexta-feira (19) entre o prefeito Caio Cunha (PODE) e Lelis Gerson, maestro e diretor artístico da Associação Orquestra Sinfônica de Mogi das Cruzes, parece ter resolvido a situação. As atividades de ensino musical, que atendem a quase 11 mil crianças, vão permanecer no calendário oficial. Para tanto, a sinfônica apresentará nesta semana a “readequação do plano de trabalho para a situação pandêmica”.

Lelis defende a manutenção da Sinfônica, por ser a entidade responsável pelo projeto que coordena desde 2017, atuando em 21 escolas municipais. Ele esclarece que o pedido de renovação do contrato foi solicitado no último mês de dezembro. O acordo estabelece um repasse anual de R$ 4,5 milhões, dos quais cerca de 90% são utilizados para pagamentos relacionados a Recursos Humanos, e o restante fica reservado para manutenções, como a dos instrumentos.

O maestro admite que houve “falhas de comunicação” durante o processo de renovação, o que fez com que a Sinfônica Mogi emitisse um comunicado, na última terça-feira (16), com agradecimentos e uma despedida da gestão do projeto.

Publicado nas redes sociais, o texto fez surgir um abaixo-assinado virtual que já conta com 4,9 mil assinaturas pela continuidade das atividades. O documento foi criado pela mãe de um aluno do Centro Municipal de Programas Educacionais (Cempre) Professor José Limongi Sobrinho, escola que se consagrou, via ‘Pequenos Músicos’, bi-campeã estadual e nacional de bandas e fanfarras.

Aliada à pressão popular e midiática, a revolta na internet levou a uma conclusão positiva. “O prefeito Caio Cunha me chamou e fui muito bem recebido por ele e sua comissão. Todos os mal-entendidos foram esclarecidos”.

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O contrato, porém, ainda não foi assinado. A readequação imposta pelo chefe do Executivo deve ser protocolada na próxima terça-feira (23), e estará sujeita a análise. Mas já há um “acordo de cavalheiros” para que as atividades sigam, inclusive com o pagamento dos salários referentes a janeiro e fevereiro de 2021, que estão atrasados.

Para entender o que de fato foi esclarecido e o que ficou acordado, a reportagem de O Diário conversou com o maestro Lelis Gerson e apresenta detalhes sobre situação a seguir, em tópicos.

 

Readequação

Lelis Gerson esclarece que a Prefeitura de Mogi pediu a atualização do plano de trabalho para o projeto, considerando duas situações. “A primeira é a proposta de situação pandêmica, com aulas 100% online, e outra é uma proposta de trabalho com as aulas retornando nas escolas”, diz ele, que pretende protocolar o novo documento “no máximo na terça-feira (23)”.

Em 2020, embora o projeto tenha sido realizado durante todo o ano, com atividades à distância, as possibilidades online não constavam no plano de trabalho, que foi elaborado no ano anterior, e portanto, quando não se cogitava a possibilidade de uma pandemia. “Mesmo não estando preparados, nos reinventamos e conseguimos trabalhar, gravando vídeos, fazendo aulas online, elaborando material didático, como apostila de música, para nossos alunos”.

 

Salários

Em entrevista para a TV Diário na última quarta-feira (17), o prefeito Caio Cunha (PODE) deu a entender que os salários referentes a janeiro e fevereiro não seriam pagos aos 70 profissionais da Sinfônica Mogi envolvidos no projeto ‘Pequenos Músicos’, já que o contrato ainda não foi renovado. Mas, durante a reunião, ele voltou atrás. A O Diário, Lelis afirmou que após os esclarecimentos, o acordo é que “os salários serão pagos, com certeza’.

Ele explica que estes 70 técnicos são contratados exclusivamente para realizar as ações descritas no contrato, que apesar de na teoria ter se encerrado em dezembro último, na prática segue ativo.

Todos os envolvidos continuaram trabalhando ininterruptamente, fazendo reuniões e planejamentos para o retorno das atividades online. A única exceção foi um período de 10 dias em janeiro, quando houve 10 dias de férias coletivas.

 

Dois contratos

Na última quarta-feira (17), Lelis participou de uma reunião com a secretária de Cultura, Kelen Chacon. Para cessar a confusão nas redes sociais, ele esclarece que este encontro não foi relacionado ao projeto ‘Pequenos Músicos’, já que as atividades de ensino musical são vinculadas à Secretaria de Educação, e não à de Cultura.

Com a Cultura, a Sinfônica Mogi, da qual o maestro é membro desde 2002, tem um outro contrato, no valor de R$ 550 mil/ano, que já foi renovado e está válido para o exercício 2021. Esta negociação inclui a manutenção das atividades da Orquestra Sinfônica Jovem; do coral Canarinhos do Itapety; do projeto ‘Novos Olhares’, para estudantes com deficiência visual; da Camerata de Cordas, formada por alunos iniciantes; do Quarteto de Cordas; e do Quinteto de Metais.

Entre outros assuntos, durante o encontro com Kelen Chacon, Lelis conversou sobre descentralização. “Ela nos pediu para levar estes trabalhos para os bairros da cidade, atendendo as comunidades sem perder os grandes concertos realizados no Teatro Municipal, Centro Municipal de Formação Pedagógica (Cemforpe) e fora de Mogi”.

 

Apresentações e outros projetos

Como já havia adiantado a O Diário o coordenador musical da Sinfônica Mogi e maestro Allan Caetano de Paula, há uma apresentação marcada para o próximo sábado, dia 27, na Sala São Paulo, um dos mais nobres espaços de concertos do país. Agora, Lelis explica que será um show gratuito, a partir das 9 horas, com uma banda formada por “professores e alunos mais avançados” do ‘Pequenos Músicos’.

O projeto, que atende a mais de 10 mil alunos de 21 escolas municipais, tem foco em educação musical. Porém, os estudantes mais talentosos são convidados a integrar bandas. Ao todo, são 15 delas, já incluindo a bicampeã Cempre Professor José Limongi Sobrinho. E há também um grupo especial, que se apresentará na Sala São Paulo, com a participação de professores.

Exemplo da força das atividades é a já garantida vaga no próximo Festival de Inverno Campos do Jordão. Contudo, para além do calendário para concertos com estas bandas, que já renderam inúmeros prêmios à cidade, a Sinfônica Mogi atua de outras formas.

“Vamos iniciar, no bairro do Taboão, por um projeto financiado pela Associação Gestora do Distrito Industrial do Taboão (Agestab) e JSL, via Lei de Incentivo a Cultura (LIC), uma orquestra de cordas; também tivemos auxílio da Lei Aldir Blanc estadual, para desenvolver uma ação; formatamos uma parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e temos outros projetos com lei de incentivo, além de uma parceria com a Funarte”, lista Lelis, sobre ações com foco social que não envolvem contratos com a prefeitura.