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MOGI FAZ PARTE DA HISTÓRIA

São de Mogi das Cruzes as mais antigas partituras da música erudita nacional

Lançamento de livro e concerto apresentam a história das partituras do século XVIII preservadas em Mogi das Cruzes e consideradas as mais antigas do Brasil

Eliane José
09/07/2022 às 12:07.
Atualizado em 12/07/2022 às 10:00

PESQUISA Deo Miranda, Odair de Paula, Rubens Russomano, integrantes do projeto, e Ubirajara Nunes, que deu a ideia para a pesquisa (Divulgação)

Há 40 anos, historiadores e músicos bem que tentaram, mas não conseguiram tirar de Mogi das Cruzes um feito próximo de ser mais conhecido com o lançamento do livro 'As Solfas de Mogi das Cruzes - Edição Musical e Apontamentos Históricos', marcado para o dia 8 de setembro. Nessa mesma data, um concerto com a execução de músicas antigas, da primeira metade do século XVIII, na belíssima Igreja da Ordem Primeira do Carmo, tornará público um achado histórico que encanta pelo ineditismo e as curiosidades surgidas quando se escava as origens da música colonial brasileira e mundial. São de Mogi das Cruzes as mais antigos registros manuscritos da música erudita nacional que se tem registro oficial desde a década de 1980. 

O Arquivo Histórico mogiano preservou, na capa do Foral de Mogi das Cruzes - considerada a certidão de nascimento da cidade que caminha para os 462 anos de fundação e ocupa a 13ª colocação entre as mais antigas do Brasil, à frente de municípios como Rio de Janeiro -, os primeiros manuscritos da música colonial, que trazem a assinatura do padre mogiano Faustino Xavier, nascido em 1708, em Mogi das Cruzes, e que daqui partiu, jovem ainda, para cumprir uma prestigiosa carreira religiosa com passagens pela Sé de São Paulo e Rio de Janeiro. 

HISTÓRIA Partituras do século XVIII estão preservadas (Foto: divulgação)

Os registros preservados, cujos autores eram o padre Faustino Xavier e integrantes do chamado Grupo de Mogi das Cruzes, formado por outros músicos (como Ângelo Xavier, irmão de Faustino, Tomé Pimenta de Abreu e Timóteo Leme do Prado), sempre seduziram os guardiões do Arquivo Histórico da cidade e fisgaram a atenção do músico e produtor cultural Wendel da Silva (Deo) Miranda, quando o arquiteto Ubirajara (Bira) Nunes, que trabalhava nessa repartição, comentou certo dia: “Tem algo aqui que mereceria ser melhor contado”. 

Surgiram desse bate-papo as primeiras ideias para o projeto abraçado tempos mais tarde pelo Rumos Itaú Cultural 2019/2020 (e, mais recentemente, o Sesc de Mogi das Cruzes, parceiro da iniciativa na realização do concerto no lançamento do livro).

O Itaú Cultural deu apoio à pesquisa e ao livro de autoria do escritor e historiador Odair de Paula, aluno do historiador mogiano Jurandyr Ferraz de Campos [1936-2019], e do maestro Rubens Ricciardi Russomano, da Orquestra Sinfônica da USP de Ribeirão Preto, parceiro do maestro Régis Duprat [1930-2021], o primeiro estudioso que fez uma análise crítica e comprovou os documentos musicais como os mais antigos encontrados no país até hoje. 

A descoberta dessa relíquia musical deve-se ao historiador Jaelson Bitran Trindade, do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), quando ele encontrou o documento centenário e em bom estado, durante uma pesquisa sobre a história de Mogi e região, no começo dos anos 1980. Desde esse achado, essa biografia musical daquele tempo é tida como o registro mais antigo da música erudita brasileira. O livro integra o projeto “Manuscritos Musicais do Brasil – Século XVIII”, aprovado em um dos editais do Itaú Cultural. Já o concerto ganhou corpo pelas mãos do Sesc Mogi das Cruzes. 

Na primeira impressão, 300 exemplares serão distribuídos entre instituições como orquestras brasileiras, latinas e de outros países. Com 324 páginas, além da história das solfas e do padre Faustino Xavier – ele era parente de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, cujos avós saíram de Mogi das Cruzes com destino a Minas Gerais, segundo o historiador Jaelson Trindade -, um dos diferenciais será a possibilidade de músicos e maestros interpretarem as músicas porque os registros foram transpassados para a linguagem musical contemporânea.

(Foto: divulgação)

O livro está dividido em duas partes: a primeira fala sobre o documento que foi analisado por pesquisadores e institutos, como o Iphan. A obra também apresenta as fontes primárias das obras e a versão editada em anotação moderna de partitura, o que tornará possível a execução por músicos e orquestras. 

Além do primeiro concerto na Igreja da Ordem Primeira do Carmo, onde o padre Faustino atuou, autores do projeto estudam levar a obra para países europeus, onde essa descoberta tem tudo para reverberar e suscita interesse. Já há contatos com orquestras de Viena. 

Para Miranda, há um "interesse muito grande na Europa pela música antiga praticada nas Américas e, mesmo que o período colonial do Brasil tenha ocorrido em um passado, para eles, recente, as obras criadas e encontradas em Mogi das Cruzes revelam uma herança através da prática musical, que muito provavelmente foi introduzida aqui pelos padres europeus que se instalaram na Ordem do Carmo, trazendo os seus conhecimentos, transmitidos aos brasileiros que dela faziam parte". Por isso, ele considera que "seja interessante para um músico ou estudioso europeu entender como a forma de fazer música criada por eles, se desenvolveu em outros continentes, e quais elementos locais puderam ser acrescentados a isso".

História do padre mogiano  pode ir para o cinema

Em setembro, o concerto prevê a execução das músicas Canto de Louvor, Ladainha de Nossa Senhora, Matais de Incêndios e Domingo de Ramos. 

Com produção da Malungada Produtos Culturais, a apresentação inédita e ao vivo será regida pelo maestro Rubens Ricciardi Russomano, terá a presença da soprano Thaise Caroline da Silva, do contratenor Felipe Cardoso Rissatti, do ternor Vinicius Eduardo Simião da Silva, do baixo Gianlucca Braghin e ainda de Vinicius Miranda dos Santos (violino), Paulo Eduardo de Barros Veiga (violino), Igor Gustavo da Silva Pereira (viola de arco), Bruno William dos Santos (violoncelo), Lincoln Reuel Mendes (contrabaixo) e Rafaela Lopes dos Santos de Oliveira (harpa). 

Os autores e o cineasta Mário Borgneth, ex-diretor de Audiovisual, do Ministério da Cultura, pretendem produzir um longa-metragem sobre a história do padre Faustino Xavier e do encontro das solfas. 

Deo Miranda, da Malungada Produções, que detém os direitos de organização da obra, busca patrocínio, inclusive, para que a gravação do concerto já atenda ao formato audiovisual exigido para a produção desse filme. “Seria uma forma de documentar a primeira vez, depois de escrita, que essas músicas são interpretadas nas Igrejas do Carmo, onde o padre Faustino atuou, no passado. Será uma oportunidade de entender um pouquinho do Brasil nos anos 1700, pelos menos, em Mogi das Cruzes”, indica. 

 CURIOSIDADE: Para saber da força dessa pauta, vale ver, no Google, a quantidade de citações sobre o padre mogiano Faustino Xavier em pesquisas e artigos: 2.790, entre elas, as primeiras coberturas feitas pelo jornalista Darwin Valente, em O Diário.

Informações sobre como será o acesso aos ingressos para o concerto serão divulgadas nas próximas semanas.

(Matéria atualizada no dia 11 de julho, com a atualização dos nomes dos músicos convidados para o concerto que será realizado em Mogi das Cruzes)

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