Os choros, a aparência e os diversos cigarros fumados por Fiuk no Big Brother Brasil logo foram motivos de manifestações na internet. Enquanto algumas pessoas fazem brincadeiras, outras falam mal do participante da 21ª edição do reality show. Em sua defesa, a equipe responsável pelas mídias sociais soltou nas redes uma nota informando que “ele está em evidente abstinência de medicações para a depressão e ansiedade”. O cantor e ator é diagnosticado também com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Ter em evidência em um programa de alcance nacional, e até mesmo internacional, uma pessoa abertamente diagnosticada com transtorno traz à tona uma discussão: a importância de um  acompanhamento feito por especialistas que vão observar a necessidade, ou não, do uso de medicamentos.

“Alguns transtornos são considerados crônicos, como é o caso do TDAH. Apenas 15% das crianças diagnosticadas com a doença vão precisar continuar o tratamento durante a vida adulta, mas mesmo as que são curadas precisam de um acompanhamento quando são mais novos, precisam de um treinamento das habilidades mentais. É por isso que precisa ter o acompanhamento médico. Porque é ele quem vai determinar quando a medicação se faz necessária”, explica o psiquiatra Henrique Alexandre Espíndola.

Por conta de todo esse acompanhamento e pelos diagnósticos que foram divulgados, o especialista acredita que Fiuk tenha dado uma pausa na medicação para entrar no programa com o aval do médico que cuida do caso específico dele. Ainda assim, a falta dos remédios combinada com mudança de rotina e com o medo do desconhecido pode despertar alguns sintomas dos transtornos. 

No reality o cantor já repetiu que é “branco, hétero e privilegiado”. Espíndola diz que muito disso pode ser pelo sentimento de culpa, sintomas conhecidos da depressão. Fiuk passa noites em claro e em uma das provas do programa foi desclassificado nos primeiros segundos por não seguir as regras informadas pelo apresentador, Tiago Leifert. A dificuldade para dormir e de concentração, lembrança ou tomada de decisões são traços da doença.

A psicóloga Roberta Almeida enfatiza ainda que outros participantes do BBB também têm gerado casos que despertam até mesmo preocupação no quesito saúde mental e psicológica. Ela explica que estar confinado em um ambiente atípico, com privações, excesso de estímulos e propício ao estresse, ansiedade e desencadeamento de brigas, pode favorecer o surgimento de situações desconfortáveis. 

“Tudo isso pode causar, como estamos observando em alguns participantes, excesso de sono, oscilações de humor, baixa autoestima e agressividade. Porém, no dia a dia essas pessoas tinham suas vidas cotidianas com rotina, atividades prazerosas, contato com a sua rede de apoio, que inclui família e amigos, e cuidados com a própria saúde física e mental. Não ter mais isso e interromper o tratamento psiquiátrico e psicológico, além do uso de medicamentos por alguns, faz com que eles vivam em uma ‘montanha-russa’”, diz Roberta.

Os dois profissionais concordam e ressaltam que a interrupção no tratamento não deve ser feito sem uma consulta aos especialistas, assim como a automedicação não deve acontecer. Todos os pacientes diagnosticados com transtornos mentais devem ter seus casos analisados de maneira isolada, já que os tratamentos variam de acordo com os sintomas apresentados.

 

“O uso da medicação foi um tabu que eu tive que lidar”

Diagnosticada com transtorno de ansiedade, bipolaridade e depressão, a funcionária pública Victória Nunes, de 29 anos, faz uso de medicamentos há 3 anos. Antes disso, não conseguia dormir direito, passava semanas com insônias absurdas, choros descontrolados, fadiga e dificuldade de levar a vida normalmente.

“Após o início do tratamento, em 2018, eu passei a ter uma vida mais regular. O remédio não faz milagres, mas na minha vida houve uma melhora após o uso”, relata. O tratamento de Victória começou há 7 anos, quando ela passou a ir na psicóloga. 

Durante as consultas, a profissional identificou a necessidade de encaminhamento para o psiquiatra. Em conjunto, os especialistas decidiram que a medicação se fazia necessária, por conta dos pensamentos suicidas que pairavam pela mente da jovem. “O uso da medicação foi um tabu que eu mesma tive que lidar, pois cresci acreditando que só tomava remédio quem era maluco. Então, foi um processo em que eu tive que lidar com meu preconceito e entender que a medicação é necessária em alguns casos e que realmente pode salvar vidas”, ressalta.

Mesmo hoje em dia, Victória conta que muitas pessoas ainda ficam chocadas e que recebe comentários que considera desnecessários por conta do uso de medicação.

Por mais que não seja fácil lidar com as críticas, ela faz questão de falar sobre o assunto, porque acredita que isso pode auxiliar na recuperação e na vida das pessoas que sofrem de transtornos psicológicos. “O conhecimento é a única maneira de se vencer esse preconceito”, finaliza.