Um projeto que começa a ser desenvolvido em Mogi das Cruzes pelo músico e produtor cultural Wendell da Silva Miranda, o Deo Miranda, promete jogar mais luz sobre um verdadeiro tesouro musical descoberto entre documentos das Igrejas das Ordens 1ª e 3ª do Carmo, no início da década de 80: um conjunto de partituras e manuscritos, possivelmente datados de 1730, logo classificados como as mais antigas referências musicais do Brasil. A maioria das diferentes peças musicais teria como autor Faustino do Prado Xavier, nascido na vila de “Sant’Anna das Cruzes de Moji”, em 1708, cuja formação musical foi lapidada nos contatos mantidos por ele com religiosos da época.

Indicado entre os vencedores do prêmio Rumos Itaú Cultural, o projeto de Miranda pretende restaurar os escritos e reescrever as partituras que deverão, após devidamente decodificadas, serem reunidas num livro e apresentadas sob a forma de um concerto de orquestra sinfônica.

Para essa difícil empreitada, o produtor cultural não estará sozinho. Ele deverá contar com o apoio do historiador Odair de Paula e a experiência do maestro Rubens Ricciardi Russomano, da Orquestra Sinfônica da USP de Ribeirão Preto, um ex-aluno do também maestro Régis Duprat, autor da primeira análise crítica dos documentos históricos encontrados em Mogi.

“Até hoje, somente uma das quatro ou cinco peças musicais constantes daquelas 29 páginas, foi executada”, diz Miranda, lembrando que haverá um extenso material a ser analisado e traduzido musicalmente pelo seu projeto. “Caberá ao maestro a transposição das partituras para os tempos atuais, pois as partituras estão cheias de uma simbologia que não existe mais hoje. Será preciso trazer tudo isso para o mundo moderno, mas sem perder a essência, preservando, inclusive, instrumentos daquela época que hoje não mais existem”, garante o produtor.

Ao historiador e pesquisador Odair de Paula caberá fazer uma análise aprofundada sobre a trama do papel, com seus selos, marcas específicas que, certamente, deverão ajudar a identificar, por exemplo, onde tudo aquilo foi produzido. Sabe-se que Faustino Xavier do Prado participava de um grupo de músicos que podem ter trabalhado na parte escrita do material, havendo, portanto, muita coisa a ser pesquisada.

O futuro livro deverá conter, além das partituras antigas e respectivas transcrições, a história do material encontrado no Carmo. Ao Odair caberá desvendar os passos de Faustino como músico e compositor.

O projeto Manuscritos Musicais do Brasil Colonial - Século XVIII deverá estar concluído até setembro próximo e, segundo Deo Miranda, o trabalho será importante para que a gestão pública da cultura dê o devido valor para o fato de que, em Mogi das Cruzes, estão as partituras e documentos musicais mais antigos da história do País. “Não vejo como alguém não se interessar por algo tão importante quanto esse”, garante.

A descoberta de  um historiador mogiano

O historiador Isaac Grinberg encontrou partes vocais de uma ladainha que fazia parte do material do Grupo de Mogi. A Ladainha de Nossa Senhora foi apresentada, de forma inédita, no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto, pela Orquestra Sinfônica daquela cidade e pelo Coral de Alunos da ECA da USP.

Quem foi faustino Xavier

Faustino Xavier do Prado nasceu em “Sant’ Anna das Cruzes de Moji”, no ano de 1708. Filho de comerciantes, era neto de um importante militar que serviu no Rio de Janeiro. Em 1729 foi nomeado  mestre-de-capela  da  igreja  matriz  da  sua  vila  natal  e  passou  a  servir também nas funções musicais do Convento dos Carmelitas. Alguns anos após obter ordens sacras, em 1732, Faustino passou a servir na matriz de São Paulo junto a um grupo de sacerdotes de formação musical. Foi fundador, em 1752, de uma  “colegiada”, em cujos quadros trabalhavam músicos que construíram  a  riqueza  da  polifonia  seiscentista e divulgaram a música na região.

O tesouro na capa do Foral

A descoberta das verdadeiras relíquias musicais do século XVIII aconteceu quase por acaso. O historiador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Jaelson Bitran Trindade, acompanhava uma das reformas das centenárias Igrejas do Carmo de Mogi das Cruzes, quando encontrou um pequeno pacote com 29 folhas de música, que era usado para rechear a capa de couro do Livro Foral da Vila de Mogi das Cruzes, aberto em 1748.

Avaliado pelo maestro Régis Duprat, na USP, conclui-se que aquele material seria a mais antiga referência musical do País, ainda da era do Brasil Colônia.

Como, aparentemente, existiam perto de 20 caligrafias diferentes nesses papéis, alguns historiadores passaram a questionar se as obras seriam realmente de Faustino do Prado Xavier e seus amigos de uma mesma família de músicos, ou meras cópias de músicas vindas de Portugal. Descobriu-se então uma importante informação a respeito de uma dinâmica da prática musical daquela época: o trabalho em grupo, no caso, formado por Faustino (mestre-de-capela da Vila de Mogi), Timóteo Lema do Prado (mestre-de-capela da Vila de Sorocaba) e Ângelo Xavier do Prado (sem cargo oficial, que ganhava a vida como comerciante de muares). As obras ganharam o nome de Grupo de Mogi das Cruzes e descobriu-se que eram músicas sacras para quatro vozes e um instrumento, acompanhadas de texto em latim e destinadas à Semana Santa. 

Valorizando o folclore

Wendell da Silva Miranda (Deo Miranda), 46 anos, é músico e produtor cultural, diretor fundador da produtora Malungada Produtos Culturais. Atual presidente da Casa do Congado – Associação Nacional dos Congados, Moçambiques e Marujadas - Pesquisa e Defesa das Tradições e Culturas Populares. 

Sua discografia inclui obras solo e junto com a Banda Karne Krua. Liderou projetos especiais em homenagem aos músicos nordestinos Elomar e Ednardo. Entre os eventos produzidos por ele em Mogi e região estão a Festa de Reinado (coroação do Rei Congo) e o Festival de Arte Popular do Alto Tietê.

Foi produtor de discos como o Reinado de Congos de Mogi, Cantos e Marchas, e Sanfoneiros Pé-de-Serra de Aracaju (SE). É autor de vários audiovisuais sobre as congadas de Mogi, mas  um de seus mais importantes projetos foi o livro/pesquisa “Cantos Sagrados - Breve relato sobre a história do Reinado de Congos de Mogi das Cruzes”, acompanhado de vários CDs com gravações inéditas de grupos de congada da cidade, feito por meio do projeto Rumos Itaú Cultural, em 2015.

É dele também o documentário “Mestres das Tradições Populares do Alto Tietê”. Deo promoveu  ainda a exposição “Congada Popular Brasileira, Faces e Expressões” - em parceria com a Casa do Congado e o fotógrafo Danilo Duvilierz.