Você se lembra como era a antiga rodoviária de Mogi das Cruzes em seus primeiros anos, ou então do clube Náutico, quando mogianos ainda se banhavam às margens do rio Tietê em um dia de sol? Registros fotográficos destas épocas ganham nova vida com o trabalho de colorização do historiador Glauco Ricciele. Com um apanhado de técnicas e outro de estudos, cenas clássicas, até então eternizadas no preto e branco, recebem cor de forma realista, como um ‘portal no tempo’. Os resultados são o resgate de detalhes, memórias e até de emoções. 

Nas ruas de hoje, o asfalto substituiu as pedras e o chão batido de terra, que faziam parte do cenário da cidade antigamente. A passagem do tempo fica clara ao ver colorizada umda das primeiras fotografias de Mogi, de 1.898, que registra a atual rua Dr. Deodato Wertheimer, no tempo em que se chamava 13 de Maio, em homenagem a Lei Áurea de 1888 (abaixo). 

Responsável por dar nova vida a esta e outras paisagens, o historiador conta que começou a colorir fotos antigas da cidade nos primeiros meses da pandemia de Covid-19, em pleno isolamento social, como um passatempo – trabalho que, de lá para cá, tem chamado a atenção nas redes sociais. “Busquei dar um pouco de cor para a minha quarentena e também tentar trazer alegria para o mogiano, que é muito saudosista de sua história, neste momento difícil”, comenta Ricciele. 

 

O aprendizado e o desenvolvimento das técnicas foi por conta própria, por meio de um vídeo tutorial aqui, outro lá, e também experimentos. Para trazer realismo, são utilizadas cores da época, na maioria das vezes com os tons pastéis. As cores mais vivas são os destaques das árvores, rios e do céu. Isso é bem visível na foto do Clube Náutico Mogiano (no canto inferior da página ao lado). “Tenho certeza que os mais velhos têm boas memórias dessa época de maior contato com a natureza”, conta. 

Ricciele já tinha familiaridade com os registros da cidade. Algumas das imagens utilizadas por ele são coletadas da internet e outras do Arquivo Histórico de Mogi. 

Ele conta que não busca lucrar com esse trabalho. “Quando estão com um pouco mais de tempo, as pessoas me mandam fotos antigas de família para eu colorir. Leva um pouco de tempo para finalizar o processo, mas o ganho é ver as as pessoas se emocionarem ao ver a foto de um ente querido em cores. Algumas até choram. O mais importante para mim é ver as pessoas valorizando a história de Mogi, falando da cidade com amor”, pontua. 

E ele reforça esse ponto. “O povo de Mogi é muito saudosista, apaixonado por sua história, esse é um trabalho que faço, pensando nisso”. 

Uma das fotografias colorizadas favoritas dele é do lançamento da linha do bonde (abaixo). “A primeira vez que vi essa foto foi em 2003. Como outros registros, ela é recheada de detalhes. Trata-se do plano de fazer uma linha de bonde na cidade, que chegou a ter a cerimonia registrada nessa foto, mas nunca saiu do papel”, conta. Parte do favoritismo se dá pela presença de tantos personagens na imagem. “As roupas da epóca, o jeito como todos se vestiam de forma parecida, é algo muito curioso”, conta.

Falando em personagem, um que está presente em muitas fotos é o médico e político Dr Deodato Wertheimer.

Currículo

Graduado em História pela Universidade Braz Cubas (UBC), Glauco Ricciele também é mestre em Políticas Públicas, pesquisador, palestrante, guia de turismo e membro do  Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Artístico e Paisagístico de Mogi das Cruzes (Comphap).

Arquivo mogyano

A página no Facebook “arquivo mogyano”, que Glauco Ricciele administra em parceria com Dalila Stuart, surgiu em abril último, com o intuito de reunir entusiastas da vasta história de Mogi das Cruzes. Até agora, a repercussão tem sido positiva. “O objetivo é falar sobre suas memórias. O grupo é apartidário. Assuntos de denúncias só em torno do patrimônio”, contam os organizadores.

Por lá, as pessoas postam fotos antigas e também atuais para fazer um registro coletivo da cidade. Também há discussões em bom tom. “E da Mappin, alguém se lembra?”, é um exemplo de pergunta feita pelos integrantes. Fotos de brinquedos antigos, pontos de encontro e bailes também não faltam. 

Interessados em participar devem se atentar às regras e respeitar os demais membros.