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ARTE

Grupo Contadores de Mentira constrói teatro próprio em Suzano

Artistas e rede colaborativa estão na reta final da obra que revelará uma sede própria para o Teatro Contadores de Mentira, em Suzano

Heitor HerrusoPublicado em 17/07/2021 às 19:45Atualizado há 3 meses
Eisner Soares
Eisner Soares

Em um terreno vazio, eles viram o futuro: uma sede bonita, moderna, um lar para afazeres artísticos, para receber o público e praticar o teatro em suas diferentes formas e experiências. Para concretizar essa visão, mais do que emocionar o público em cena, artistas de Suzano colocaram em prática um plano de 13 anos. Decidiram assumir o risco de uma obra, e colocaram a mão na massa, literalmente, movidos pelo amor que nutrem pela cultura e pelo sonho de, um dia, dar ao Teatro Contadores de Mentira, que coleciona 26 anos de história, uma casa própria. 

Em atividade desde 1995, a trupe conquistou em 2012 uma sede para a companhia teatral. “A uma esquina” do espaço atual, no Parque Maria Helena, em Suzano, um imóvel alugado em que antes funcionava uma oficina mecânica aprendeu, aos poucos, a servir como lar para uma série de atividades culturais, como espetáculos, oficinas, ensaios, experimentações. Era bom, é claro, mas ainda não o endereço definitivo.

A melhor palavra para definir essa história, contada a O Diário pela atriz e gestora Daniele Santana e pelo ator e diretor Cleiton Pereira, é “planejamento”. “A gente começou elaborar a ideia da nossa sede em 2008 e, de lá para cá, não paramos de trabalhar”, dizem eles, que ao lado de mais um integrante, K.iqui Calisto, guardam dinheiro há mais de uma década para construir a sede.

Antes de explicar de onde vem os recursos, é preciso mostrar que o terreno atualmente ocupado pelo Contadores de Mentira, é uma “cessão de área”. “Desde 2016 a gente vinha construindo tentativas de diálogo e discussões na cidade para que Suzano conseguisse apoiar os espaços independentes, de algum modo. A gente acredita, e acreditava, que os comodatos de espaços não utilizados naquele momento pela prefeitura, seria a maneira mais ágil e imediata de grupos e coletivos seguirem projetos”, explica Daniele.

O diálogo com a Secretaria de Cultura avançou no sentido de ocupar um espaço público. Foram, ao todo, dois anos e meio de tratativas, entre burocracias, papeladas e definições. O caminho foi difícil, mas os artistas optaram por esta “transparência”.

A intenção dos Contadores de Mentira era conseguir licença para utilizar o terreno por 30 anos, considerando o “patrimônio imaterial” que a companhia coleciona em mais de duas décadas. “Ouso dizer que somos um dos mais velhos em atividade ininterrupta”, afirma Cleiton. 

E realmente, a região vem sofrendo com perdas inestimáveis nos últimos tempos. Em 2019, ainda antes da crise provocada pela pandemia, dois grandes espaços fecharam em Mogi, o Galpão Arthur Netto e o Casarão da Mariquinha. Dois anos depois, os Contadores seguem, firmes.

No entanto, a trupe conseguiu muito menos tempo do que desejava. O decreto da Prefeitura de Suzano concede permissão para uso do solo por cinco anos, apenas. Existe chance de renovação, é claro. Mas também existe a possibilidade contrária.

Em um país onde a cultura tem sido relegada ao final da fila de prioridades, talvez, o governo municipal tenha deixado escapar uma oportunidade de não ficar refém da descontinuidade da política de incentivo ao setor. Afinal, prefeitos vão e vêm.

Mesmo sabendo disso, o grupo decidiu arriscar. A obra foi iniciada em agosto de 2018, e desde então, R$ 250 mil já foram aplicados, entre materiais brutos para construção, madeiras, equipamentos recebidos para a operação teatral e até mesmo dois grandes contêineres que servem como teto para a sede.

O projeto já era acompanhado de muito perto pelos três integrantes citados nesta reportagem, Daniele, Cleiton e K.iqui. Mas “aí veio a pandemia”, como o trio relembra. E então a relação com o tempo foi modificada. “Estamos aproveitando para construir coisas que não faríamos a curto prazo”, explicameles, que chegaram a deixar de receber parte de remuneração pessoal sobre cachês e prêmios de editais para investir no sonho.

A expectativa, com o apoio de uma imensa rede colaborativa, é de abrir ao público antes do fim deste 2021, aproveitando ainda metade do tempo previsto em decreto para de fato praticar arte e cultura no local.

 Eles planejam e põem a mão na massa

“Quando um grupo de teatro não viveu em risco, ou quando conseguiu planejar mais do que seis meses?”, pergunta a atriz e gestora Daniele Santana, que também fornece a resposta. “É melhor viver o presente intensamente”. 

É por isso que ela e também os atores Cleiton Pereira e K.iqui Calisto – e ainda uma comissão formada por outras sete pessoas - têm colocado a mão na massa durante a construção da nova sede do Contadores de Mentira. Os recursos permitem a contratação de profissionais, mas os braços os tornam ajudantes, auxiliando aqueles que colocaram os contêineres no lugar, que fizeram a parte de serralheria e até mesmo levantaram as paredes. 

Nem mesmo um incêndio e diversos roubos de equipamentos e cabos os fizeram parar. “Estamos construindo para ter uma casa para voltar, para outras pessoas. Na região, todo mundo fechou as portas, e o poder público não pode ditar todas as regras”, define Cleiton. 

Em outras palavras, a obra vai além de uma sede para o Teatro Contadores de Mentira. É sinônimo de resistência. E de grandeza também, com área construída de 360 metros quadrados, 6,5 metros de altura, quatro salas, camarim, cozinha e diferentes possibilidades de teatro, seja em arquibancada ou arena. 

Faltam apenas detalhes para a abertura da casa, como a estrutura de iluminação do teatro, a finalização da cozinha e de um dos banheiros. Mas a trupe tem convicção de que, a mesma rede colaborativa que ajudou até aqui, com milhares de reais em doações e também esforços físicos e políticos, vai apoiar até o fim desta luta.

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