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ARTE URBANA

Grafite colore e dá vida a conjunto habitacional em César de Souza

Com uma arte de 15 metros de altura, Galvani Galo e Nando Cunha renovam o visual de um dos prédios no Jardim Bela Vista, onde funciona um novo Espaço de Arte e Cultura

Heitor Herruso
18/11/2022 às 14:27.
Atualizado em 20/11/2022 às 21:56

Grafite confeccionado pelos artistas Galvani Galo e Nando Cunha leva cor e vida ao mesmo tempo em que dá aula de história ao transformar em arte parte da história de Mogi das Cruzes. (Mariana Acioli)

Quinze metros de altura, 7m20 de largura. Seis andares de andaimes. Muita tinta. Dois artistas: Galvani Galo e Nando Cunha. É esta a receita para transformar um prédio de um conjunto habitacional, cuja pintura já está há muito gasta, em uma obra de arte, que vive e pulsa a céu aberto.

Há mais um ingrediente, é preciso dizer, antes de mais nada. A pintura é possibilitada pelo projeto Quebrad’Arte, inscrito no edital Arte Urbana SP, promovido pelo Governo do Estado. Os recursos, portanto, são estaduais, mas há apoio municipal, via Secretaria de Cultura e Turismo, que intermediou as partes burocráticas, como o acesso ao condomínio e a segurança para o trabalho, além de registro fotográfico de todo o processo.

Esse chamamento público realizado pela Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA) apoiou, ao todo, 100 ações em todo estado de São Paulo. São intervenções com realização de murais, instalações e mostras de arte e composição de galerias a céu aberto, sempre com temas e técnicas gráficas da arte de rua, executado por artistas, grupos e coletivos de relevância no cenário cultural local e regional.

TINTA E SUOR Ao todo, a confecção do grafite levou uma semana de trabalho sobre seis andares de andaimes (Mariana Acioli)

Sendo assim, na sexta-feira (12), quando muita gente se preparava para curtir o feriado prolongado, Galvani Galo e Nando Cunha começaram os trabalhos na empena (parede lateral de um edifício, geralmente sem janelas ou aberturas) de um dos prédios do conjunto habitacional da rua Edmundi Gerke, 78, no Jardim Bela Vista, em César de Souza.

Desde então, a dupla se reveza nos diferentes níveis de altura para reproduzir a arte que foi idealizada, primeiro, em um croqui no papel e que posteriormente foi digitalizada. A pintura coroa o novo Espaço de Arte e Cultura que funciona no local desde o último mês de setembro, com quadra poliesportiva, praça, palco, miniquadra de basquete, playground e outros equipamentos voltados à pratica esportiva e às atividades culturais. 
Em outras palavras, o grafite simboliza a chegada da arte a um local não tão longe do Centro de Mogi, mas ainda assim descentralizado. “É uma região de quebrada mesmo, periferia, uma ‘cidade dormitório’ com conjuntos habitacionais de grande porte, cercados de muro por todos os lados, bem ao estilo da Zona Leste de São Paulo”, avalia Galo, com orgulho.

O orgulho do artista está em levar a arte urbana, popular, à população de fato. E Nando Cunha, que foi assistente de Galo neste projeto, assina embaixo. “É uma sensação muito gratificante poder expressar sua arte, ver o sorriso das crianças admirando o trabalho, adultos elogiando. A gente vê que é um lugar carente que necessita de arte, de uma forma mais colorida, algo que traga mais felicidade ao povo”.

E tudo isso nasceu em um edital. Galo conta que foi inscrito, pela prefeitura, no programa Amigos da Arte, do Governo do Estado. Ele então convidou Nando para pintar também, e quando o projeto Quebrad’Arte venceu, começou a pôr a mão na massa. Ou melhor, na tinta. 

ARTE Quem passa pelo local pode, agora, se divertir procurando referências na pintura (Mariana Acioli)

“Aluguei andaime, comprei tinta, fiz a parte burocrática. A prefeitura entrou com a negociação com o pessoal do prédio, o síndico, a autorização, os documentos de intervenção para garantir nossa segurança e algum apoio logístico”, conta ele, que comemora poder fazer uma pintura tão grande.
Além da dificuldade de trabalhar com escala para estabelecer a correta “proporção do desenho”, como diz Nando, um trabalho como este é, na visão de galo, um “desafio grande”, mas que no final resulta em uma “sensação indescritível”, principalmente já que a entrega é “para a quebrada”.

A reportagem de O Diário esteve no local durante a tarde da última quinta-feira (17), quando os últimos retoques estavam sendo aplicados. Quando os andaimes forem removidos, será possível enxergar uma grande homenagem às culturas mogiana, nordestina e japonesa (leia mais sobre os motivos da arte abaixo). Isto deve acontecer ainda neste sábado (19), quando a estrutura, na verdade, será desmontada, mas continuará no conjunto habitacional.

Galo e Nando, que estão no Instagram como @galograffiti e @nando_graff, realmente gostaram de grafitar o local. Como já alugaram os andaimes por 30 dias e ainda falta um bom tempo até o dia da devolução, já combinaram e vão, por conta própria, fazer outra empena, no prédio ao lado. 

 Já mudou

As fotos a seguir mostram como a inauguração do Espaço de Arte e Cultura e o grafite modificaram para melhor a paisagem do conjunto habitacional da rua Edmundi Gerke, no Jardim Bela Vista, em César de Souza.

(Divulgação - PMMC)

(Mariana Acioli)

  

Japão, Nordeste e Mogi

(Mariana Acioli)

Monocromática, sendo o vermelho a cor base, e a partir dele vem surgindo tons de rosa e branco que contrastam com um contorno azul característico do traço de Galvani Galo. Assim é a arte confeccionada por ele e também com a habilidade de Nando Cunha, que faz uma homenagem à algumas das mais importantes influências culturais que correm no sangue dos mogianos.

“O trampo que norteou, a referência para esse mural, foi uma pintura do Jean-Baptiste Debret, pintor francês que veio numa missão artística no século XIX, para representar o que era esse Brasil, esse novo mundo para os europeus. Tem uma gravura que ele fez em 1984, intitulada ‘Selvagens civilizados, índios soldados de Mogi das Cruzes (província de São Paulo) lutando contra os botocudos’. Ele retratou a figura de um bandeirante atirando em um índio botocudo, como eram chamados os índios que habitavam parte da Bahia e chegavam em Mogi, como botoques nos lóbulos e no lábio inferior, configurando uma aparência assustadora na visão dos europeus, e que não eram da linguagem tupi-guarani”, conta Galo, em uma aula de história e arte.

Ele continua. “Debret retrata essa guerra dos bandeirantes com os botocudos, e esse foi o elo que encontrei para fazer o mural, já que 100 anos depois isso dá origem ao brasão da cidade de Mogi, que representa a figura de dois bandeirantes em pé, e no meio deles tem um escudo vermelho e a representação de um gibão, espécie de colete usado no combate para proteção contra flechas”.

Mogi, então, está aí. Mas há também outras homenagens. No lado superior esquerdo, é possível encontrar uma gueixa, em uma “referência direta à cultura japonesa”; no topo, está uma “representação de Luiz Gonzaga, o rei do Baião”, em tributo à cultura nordestina; e embaixo um “marujo, representando as congadas e marujadas e a cultura afro católica que existe na cidade”.

Se não está claro, Galo explica. “Veio essa coisa trágica do assassinato dos botocudos e mais tarde a migração destes povos que acabaram compondo o que a gente considera como mogiano. Basicamente o mural conta essa história de forma resumida”.

Ficaram de fora, ele reconhece, os “povos do oriente médio que chegaram em uma leva migratória, vindos de um programa da Organização das Nações Unidas (Onu) para refugiados”. Mas está lá “uma parte” do que, segundo o artista, “precisa ser contado”. 

(Mariana Acioli)

(Mariana Acioli)

(Mariana Acioli)

ARTE Quem passa pelo local pode, agora, se divertir procurando referências na pintura (Mariana Acioli)

(Mariana Acioli)

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(Mariana Acioli)

(Mariana Acioli)

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TINTA E SUOR Ao todo, a confecção do grafite levou uma semana de trabalho sobre seis andares de andaimes (Mariana Acioli)

(Mariana Acioli)

(Mariana Acioli)

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(Mariana Acioli)

(Mariana Acioli)

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