Muito popular pela combinação “voz e violão”, que virou tradicional em poucos meses, as transmissões de vídeo em tempo real, ou apenas lives, já não representam mais o fenômeno visto em março e abril, no início da pandemia. Isso não significa, no entanto, que o formato morreu. Na verdade, ainda há engajamento e “lenha para queimar”, mesmo que a audiência seja menor.

Os números, no caso do grafiteiro Fabrício Bozer, caíram. “Eu tinha média de 700 pessoas por live. Agora tenho alcançado apenas 200”, comenta ele, sobre as ações online. Ainda assim, continua apostando no formato. No último final de semana, participou do Encontro de Grafitti, que deu novas cores à Casa do Hip Hop de Mogi das Cruzes, e também ministrou um workshop de pintura ao vivo.

Ele tem percebido “que a galera não tem acompanhado as lives”. “Hoje, parece que as pessoas estão mais preocupadas em saber o que está acontecendo na rua”, afirma, para continuar: “Porém acredito que o movimento vai voltar, já que os casos de Covid-19 estão aumentando”.

Na opinião de Bozer, são “culpados” pelo esvaziamento das transmissões municipais e regionais os grandes artistas, sobretudo do sertanejo. Quando nomes como Bruno e Marrone, Gustavo Lima, Marília Mendonça e Jorge & Mateus começaram a transmitir mega produções, ele acredita que “se perdeu o lance” de urgência. 

A partir desse momento, “para fazer live” ficou estabelecido, segundo ele, que seria necessário um “mega equipamento”, para gerar muita qualidade de imagem e som. “De repente, não é a mesma coisa pegar um violão e gravar com celular”.

Contudo, há iniciativas que impedem a paralisação do movimento. A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, por exemplo, segue até dezembro com sua Mostra Virtual: A Arte Não Esqueceu de Você (Movi.Ar). Dentro dessa programação, a live resiste em agendas como a série ‘Histórias da Música Mogiana’, de Paulo Betzler e muitas outras.

 Criatividade em jogo

A cantora mogiana Valéria Custódio admite que a participação “diminuiu” nas lives, já que as pessoas voltaram a trabalhar presencialmente. Mas ela nega que o engajamento tenha caído. “Pelo contrário, aumentou”, diz.  Para obter este resultado nas ações online, ela se permitiu experimentar, usar e abusar da criatividade. Começou com uma turnê virtual para o disco ‘Púrpura’, seguiu com um programa de entrevistas, mudou para um formato que flerta com as artes cênicas e agora programa outros conteúdos, igualmente diversos.  “Não cansei das lives”, afirma ela, que fica “apavorada com a mesmice”. “Não me considero ampla no mundo digital, mas sou consistente. Analiso os números, mas não posso deixar que sejam minha prioridade”. 

 Faz bem à alma

Antes da pandemia, o cantor mogiano Vital de Souza costumava reunir amigos todas as segundas-feiras no ‘Canto Verde Taiá’, sítio onde mora. Juntos, além de cozinhar, eles tocavam e cantavam. A tradição seguiu mesmo à distância, e embora demonstre sinais de cansaço, não vai parar tão cedo, ele garante. “Em março e abril, eu alcançava três mil visualizações. Hoje consigo apenas 800, em média”, conta o artista, que pretende manter a agenda. “Sou persistente, porque segunda-feira é meu domingo, e eu não poderia perder essa essência. É uma maneira de me distrair e não perder a mão do violão e das músicas”. 

 

 Qualidade é tudo

Um dos nomes mais conhecidos da noite mogiana, Rui Ponciano surpreendeu a cidade ao fazer lives durante a pandemia, com a ajuda de amigos, como contou a O Diário em abril. Mas ele “esfriou” nos últimos meses. A complexidade em manter a qualidade foi um dos fatores que o afastou das lives. “O som estava cortando muito e não saía bom, e também era difícil responder a todos que comentavam”, lembra. O cantor voltou recentemente aos palcos, na reinauguração do Canto de Cabocla, e prepara novos projetos para a internet, como um vídeo para a Lei Aldir Blanc, mas não ao vivo. “As lives ficaram muito repetitivas”, opina.