Com a continuidade ameaçada, o projeto 'Pequenos Músicos...Primeiros Acordes na Escola' pode deixar cerca de 11 mil crianças sem aulas de musicalização em Mogi das Cruzes. Além do prejuízo aos estudantes de 16 colégios municipais, que já levaram o nome da cidade para grandes centros como o Festival de Inverno de Campos do Jordão e a Sala São Paulo, 70 músicos integrantes da Sinfônica Mogi, entidade responsável pelos trabalhos, podem ficar desamparados.

Os problemas relacionados ao contrato da Sinfônica Mogi com a Prefeitura para o projeto coordenado pela Secretaria Municipal de Educação, no valor anual de aproximadamente R$ 4,5 milhões, vieram à tona nesta terça-feira (16), quando o grupo se posicionou nas redes sociais.

“Por meio deste texto comunicamos que, infelizmente, não foi renovado o contrato com os funcionários da Sinfônica Mogi para manter as atividades com o projeto 'Pequenos Músicos... Primeiros Acordes na Escola'. Foram quatro anos de muitos aprendizados, dedicação, conquistas e amor dedicados à música junto com os mais de 11 mil alunos do projeto”, traz o texto, que se desdobra em mais agradecimentos.

Além deste comunicado, surgiu também um abaixo-assinado, criado por Luana A., que é mãe de um aluno do Centro Municipal de Programas Educacionais (Cempre) Professor José Limongi Sobrinho, escola que se consagrou, pelo projeto, bi-campeã estadual e nacional de bandas e fanfarras.

O documento contava com mais de 4,1 mil assinaturas até a tarde desta quarta-feira (17) e pede que o “prefeito Caio Cunha, não acabe com o projeto”, justificando que ele “rendeu à cidade o apelido de Mogi da música”.

Com a polêmica no ar, o prefeito decidiu se manifestar. Em um vídeo publicado nas redes sociais, Cunha (PODE) esclarece que a iniciativa “não acabou”, e que “sequer foi cogitado o seu cancelamento”. O que acontece são “algumas necessidades de readequação”.

“Deixa eu trazer luz aos fatos”, disse o chefe do Executivo, que explica à população que o contrato com a Sinfônica Mogi encerrou-se em dezembro de 2020 e não foi renovado até o momento. “Na virada de gestão eu assumi um compromisso de analisar todos os contratos, e a gente identificou algumas necessidades de readequação, principalmente por estarmos em um período de pandemia”, esclarece.

Um dos pontos levantados por Cunha é a falta de clareza sobre “como a entidade vai prestar serviço às crianças no período de pandemia”, além de “outras questões jurídicas que precisam ser corrigidas”. Porém afirmou que a prefeitura “tem conversado com os representantes e está em processo de ajuste”, o que o levou a receber “com bastante surpresa e estranheza” o comunicado acima descrito.

A O Diário, o coordenador musical da Sinfônica Mogi e maestro Allan Caetano de Paula explicou que, após insistência por informações, o grupo tomou conhecimento da decisão de não continuidade do contrato somente quando foi pessoalmente à Secretaria Municipal de Educação.

“Participei de uma reunião com o Francisco Cochi (secretário de Governo), no começo de fevereiro. Ele não passou para nós o que a Sinfônica realmente precisaria adequar. Falou que o jurídico estava avaliando, mas não passou essa necessidade de readequar o plano de trabalho”, contrapõe Allan, que não imaginava essa situação.

Salários

Em entrevista na nesta quarta-feira (17), o prefeito Caio Cunha foi questionado sobre uma denúncia de atraso de salários envolvendo a Sinfônica Mogi, especificamente para o projeto 'Pequenos Músicos'. “Não há atraso, porque o contrato não foi renovado”, disse.

O problema parece ser de comunicação, já que os músicos envolvidos entendem o contrário. “Essa é a maior falta de respeito e compromisso com a Sinfônica”, diz Allan, que, na expectativa de continuidade certa, seguiu trabalhando em janeiro e fevereiro, e agora espera receber pelos serviços prestados nos últimos dois meses.

“Fizemos reuniões no Ciarte e propusemos soluções e alternativas para as aulas virtuais. Gostaríamos de ir às escolas, falar com os diretores, e não conseguimos esse espaço. Recebemos um 'não' e não temos como pagar nossos 70 profissionais. Entramos em desespero”, lamenta ele.

Mesmo sem salário ou sem uma solução para o contrato não renovado, a Sinfônica promete cumprir com a agenda, realizando uma apresentação marcada para o próximo dia 27, em um dos mais nobres espaços de concertos do país: a Sala São Paulo. “Vamos honrar o compromisso. Mas como os músicos vão receber é nossa grande questão. A gente torce para que haja reconciliação. Ainda não desistimos”.

Em declaração para a TV Diário, o prefeito também afirmou ainda ter interesse na negociação: “Independentemente se for ou não a Sinfônica de Mogi, o que eu espero que seja, o projeto continua”.

Para além das informações disponibilizadas nas redes sociais e a entrevista televisiva, este jornal solicitou detalhes à prefeitura, que não se manifestou sobre o abaixo-assinado.

"O projeto é da Prefeitura e não foi cancelado - enquanto as aulas presenciais não retornam, a administração municipal está avaliando o melhor formato para a volta", traz a nota enviada. 

O texto segue esclarecendo que "a atual gestão solicitou estudos para um novo formato e, com isso, uma readequação na prestação desse serviço", e reforça que não houve "suspensão do contrato", e sim um "pedido de readequação". 

A prefeitura aguarda "o programa de trabalho para 2021 que leve em consideração o cenário de pandemia" e todas as possíveis "definições de como o serviço será prestado neste ano".