Humberto Lyra e Luiz Pissutto. Dois amigos: um profissional em logística, o outro na área comercial; um mora em Mogi das Cruzes, o outro em São Paulo. Sem cantar ou tocar, eles têm uma banda. E não um grupo qualquer, mas uma formação especial, que grava com nomes do calibre de Paulinho Moska e Zeca Baleiro. Eles são a Banda Que Nunca Existiu.

Tudo começou há 30 anos. Quando adolescentes, se conheceram por acaso, na capital paulista. A ponte foi construída por suas mães e maiores fãs, Dolores e Sidneia.

A princípio, os encontros da dupla eram pautados pela celebração de ídolos, como a banda Engenheiros do Hawaii. Mas logo o o foco virou composições autorais. 

As “paixões e a intensidade da adolescência” eram as inspirações. Porém, os “grandes shows” que protagonizavam eram assistidos somente por suas duas maiores fãs. 

Ambos tiveram bandas cover, mas a música se provou uma paixão, e não uma profissão. A vida, então, tratou de dar-lhes caminhos em endereços distantes. Há 15 anos, Humberto se instalou em Mogi, enquanto Luiz permaneceu em São Paulo.

Quando se fixou em solo mogiano, Humberto ficou mais uma vez perto de seu amigo, que o convidou para integrar um projeto sonoro.  

Entre ensaios e preparações para shows, voltaram as conversas e trocas musicais, o que foi reforçado quando, em uma faxina daquelas em se arrasta os móveis e tira tudo do guarda roupa, Humberto encontrou uma caixa com cadernos. Exatamente os mesmos que, na década de 90, serviam como tela para os sentimentos de dois jovens entusiasmados. 

“A gente tem valor sentimental muito grande por esse material. Mas pensamos que devia ter algum outro tipo de valor também”, conta a dupla, que decidiu testar as composições.  

Os já mencionados caminhos da vida levaram Luiz, em algum momento, a conhecer Paulinho Moska. Quando acreditou ser a oportunidade ideal, ele comentou que escrevia e “queria a opinião de alguém profissional”. 

Paulinho não negou ajuda, mas disse não ser a pessoa certa e indicou outro grande nome: Zélia Duncan. Animados, Humberto e Luiz apostaram as fichas na cantora, que também não negou ajuda, mas indicou um terceiro grande nome: Zeca Baleiro. “Ele é a pessoa ideal para falar se o que vocês tem é bom ou ruim”, disse ela.

Houve então um encontro com Zeca. A reunião aconteceu uma semana depois do aniversário de 50 anos dele, razão pela qual foi sincero. Se o conteúdo fosse bom, diria. Mas se fosse ruim, diria também, sem papas na língua. 

Alguns meses depois, já apreensivos, Humberto e Luiz recebem uma mensagem de Zeca Baleiro. Ele disse que estava “digerindo as músicas”, e mais tarde ligou dizendo ter gostado do que ouviu e marcou um horário em estúdio. Zeca levaria a própria banda. Afinal, é preciso lembrar: Humberto e Luiz não tinham um grupo. 

“Ele virou padrinho da banda, na parceria”, resume o duo, que se viu, de repente, com a faca e o queijo na mão. A próxima ação seria lógica. Cortar o queijo. Talvez até colocar no pão. Eles tentaram, é claro. Mas esbarraram  em um problema. “A gente não canta. Ficamos travados, não saía uma vírgula”.

Zeca Baleiro, mais uma vez, foi o salvador. Além do single ‘Zero Grau’, se propôs a cantar todas as faixas, sendo uma “voz-guia”, uma espécie de cartão de visita para que os dois pudessem apresentar o conteúdo a outros artistas. 

A partir daí, era a vez de Humberto e Luiz correrem atrás de novas parcerias. E usaram as redes sociais como principal ferramenta para isso. Foi assim, por exemplo, que chegaram a Augusto Licks, ex-guitarrista dos Engenheiros do Hawaii, que gravou o single ‘Só Uma Vez’, nome que também estampará o primeiro EP do grupo, a ser lançado em setembro próximo. 

A internet também os levou ao “príncipe da MPB” Pedro Mariano, que cantou ‘Essa Canção’, ao duo Projeto Chumbo, que deu voz a ‘Acabou ou Começou’ e à Luana Camarah, vocalista da banda Malta, que canta em ‘Algum Lugar ao Sol’.

E vem mais aí. Tem parcerias com André Abujamra, Nasi, conhecido pelos vocais da banda Ira! e outras surpresas. Além de Humberto e Luiz como compositores, não há formação fixa. O som é o de uma banda que nunca existiu, mas que ainda assim vem sendo ouvida por todo o país.

 

Projeto beneficente

Sem uma definição exata, o som da Banda Que Nunca Existiu não se encaixa em rótulos como MPB, folk, rock ou blues. Mas há uma caixinha em que o projeto se permite ser inserido: a de ações beneficentes. Todos os recursos que a música de Humberto Lyra e Luiz Pissutto angariar, seja pelo número de “plays” nas plataformas digitais ou por outras fontes, serão revertidos para instituições de apoio a pessoas com câncer. 

Essa decisão é uma homenagem as “maiores fãs” da dupla, suas mães. “Altruístas”, Dolores e Sidneia enfrentaram o câncer, no passado. E agora seus filhos enxergam na arte uma oportunidade de apoiar lutas semelhantes.

Ao perceber que a iniciativa musical apadrinhada por Zeca Baleiro tinha potencial de mercado, a dupla consatou que “não fazia sentido” reter a renda. Afinal, embora apaixonados por música, Humberto e Luiz não a tem como fonte de renda, e por isso já começaram a distribuir doações. “No final do ano doamos cestas básicas para uma instituição de Manaus”, contam. 

Os números indicam que logo os repasses devem aumentar. Em poucos meses de trabalho, a Banda Que Nunca Existiu já tem mais de 36 mil ouvintes mensais no Spotify.

Entre essas pessoas, há jovens que se encantam pelas belas nuances da música nacional, mas também adultos, na faixa dos 40 anos. Os compositores creditam o sucesso às músicas, que foram revisadas e atualizadas. E eles garantem já ter material para mais dois lançamentos. 

“A banda está tomando uma proporção grande, o que é bem gratificante. Não temos gravadora, não temos pressão para gravar, não tem ninguém patrocinando, não buscamos remuneração. Fazemos por paixão e amor a música”, finalizam.