Por 30 anos, o mundo ficou sem ouvir a voz de Henriette Fraissat. O hiato só foi quebrado após ela vencer barreiras pessoais. No último domingo, dia 31 de janeiro, a artista emocionou Ludmilla, Claudia Leitte, Mumuzinho e Daniel, no palco do ‘The Voice+’, exibido pela TV Diário. Nascida em São Paulo, mas moradora apaixonada por Mogi das Cruzes, ela descobriu o dom do canto ainda criança. Chegou a fazer jingles e a se apresentar. Mas por ciúmes do marido, não cantava nem no chuveiro. Virtuosa, encontrou outros talentos para ganhar a vida: o de cuidar do próximo e o de ensinar.

Enfermeira que esteve no Xingu “cuidando de índios e da população cabocla”, ela trabalhava na capital paulista. Um dia, um homem a convidou a fazer o mesmo, mas em Mogi. Ele era Manoel Bezerra de Melo, mais conhecido como Padre Melo, político, ex-prefeito e chanceler da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).

Henriette, que morava em Taubaté e fazia viagem até São Paulo todos os dias, aceitou a proposta em 1981. Não demorou a se encantar pelo solo mogiano. Bastou “ver as lindas luzes amarelas da cidade” para decidir comprar uma casa por aqui. Trabalhou pouco tempo ao lado de seu anfitrião, mas logo fundou a própria escola de enfermagem.

Foi o trabalho que a permitiu comprar a tão sonhada casa, em Braz Cubas. Foi o trabalho que a permitiu criar os quatro filhos. E foi só quando eles já estavam adultos, em 1998, que ela decidiu enfrentar o então marido, José Pinto Barbosa.

“Em 1998, quando meus filhos já cuidavam cada um da sua vida, eu falei assim: ‘olha José, você cala a boca agora, porque eu vou cantar’”. O que ela escutou como resposta certamente não foi fácil de se ouvir. “Vai cantar aonde? Você está velha. Já tem 51 anos”. 

Henriette não se deixou abalar. Decidiu provar que estava certa, mas em vez de discutir resolveu agir. Ou melhor, cantar. Saiu com cinco amigas para ouvir música em pubs e bares de Mogi. Em um desses lugares, encontrou um trio que tocava repertório conhecido. Na mesa, cantarolou todas as músicas. Não demorou a subir ao palco, a dividir o espaço com os músicos.

A parceria se repetiu. E aconteceu de novo. E mais uma vez. E outra, outra e outra. A professora de enfermagem já se sentia cantora, embora não tivesse ganhado nenhum cachê, pelo contrário. Bastava um nome para mudar isso: João Torquato, músico que tinha um ateliê no Centro da cidade, na esquina da Rua Dr. Paulo Frontin.

Foi nesse endereço que Henriette despertou para o próprio talento. “Entre os manequins havia instrumentos. O João me perguntou se eu cantava, e eu disse que sim. Começamos com uma canção de Edu Lobo e passamos a tarde toda nessa parceria. Ele me disse que eu deveria ser cantora”. O conselho fazia sentido. Afinal, Henriette não bebe e não fuma. Mas admite ter um vício: “minha cachaça é a música”, diz ela.

Depois daquele momento, não parou mais. Hoje, aos 72 anos, coleciona apresentações, sempre com recorde de público. Um exemplo é o show de lançamento do primeiro disco dela, ‘Sons e Tons’, gravado no Estúdio Municipal de Áudio e Música (Emam), em 2018. Também lotaram as apresentações que fez no Centro Cultural, como uma em comemoração aos 70 anos de vida, e as parcerias com a Orquestra Sinfônica Jovem de Mogi das Cruzes.

Sempre alegre. Sempre com alto nível de jazz e bossa nova. E agora vista e ouvida não só por Mogi, mas por todo o Brasil. Essa é Henriette Fraissat, não mais em silêncio.

 

Henriette é o orgulho de quatro filhos (Fábio, Mauricio, João Gustavo 

 

Projeção nacional: um sonho realizado

Foi com os versos de ‘You Are So Beautiful’ que Henriette Fraissat virou as quatro cadeiras no ‘The Voice+’, reality show musical voltado para artistas com mais de 60 anos, no último domingo, 31 de janeiro.

De Ludmilla, Henriette ouviu agradecimentos. “Estou emocionada, meus olhos encheram de lágrimas. Obrigada por isso”, disse a jurada. De Claudia Leitte, ouviu elogios. “Você emite paz. É muito mágica”. De Mumuzinho, idem. “Você é profissional”.

Já de Daniel, que considera um “gentleman”, ela ouviu um carinhoso “sim”, ao pedir que o sertanejo cuidasse dela, ou seja, a aceitasse em seu time para participar da próxima fase, “Tira-teima”.

Mesmo quanto todos viraram, a cantora estava “super tranquila”. O nervosismo veio quando a música acabou. “Gaguejei, brinquei, fiz palhaçada”, lembra ela, que fez sucesso com uma canção especial.

Certa vez, em um estúdio da capital, gravou de surpresa a letra de Joe Cocker, e diz ter sido elogiada pela qualidade. Desde então passou a incluir a composição nos shows, assim como ‘Summertime’, de Ella Fitzgerald. 

Sobre a experiência de cantar no palco de um programa exibido em todo o território nacional, Henriette é pontual. “É uma mágica de vida. Já não é mais sonho. Esse eu estou vivenciando a cada minuto”.