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ORGULHO

Congada, um patrimônio cultural e imaterial de Mogi das Cruzes

Neste Dia de Consciência Negra, O Diário mostra que não basta apenas celebrar a cultura afro em um dia do ano; é preciso se permitir conhecer, entender e viver tradições como as Congadas, Marujadas e o Moçambique

Heitor HerrusoPublicado em 20/11/2021 às 13:45Atualizado há 9 dias
Divulgação - Danilo Duvilierz
Divulgação - Danilo Duvilierz

“As culturas afro têm ganhado cada vez mais notoriedade. Em Mogi, o caminho é positivo. Ainda tem muito para fazer, mas quando se dá um passo para frente, dificilmente se volta para trás”. A avaliação é de Deo Miranda, artista, homem de pele preta, morador de Mogi há 14 anos e defensor das manifestações tradicionais que resistem na cidade, como Congada, Marujada e Moçambique.

Deo, que é presidente da Casa do Congado – Associação Nacional dos Congados, Moçambiques e Marujadas - Pesquisa e Defesa das Tradições e Culturas Populares, acredita que essas tradições estão sendo mais reconhecidas na sociedade. Exemplo disso é o Dia da Consciência Negra, que deverá ser feriado em território mogiano a partir de 2022

O reconhecimento é necessário, claro. Mas ainda não o suficiente. “O preconceito racial está no cotidiano, não em um dia específico. Mas claro que é importante essa colocação de que há cultura negra. Os povos negros precisam estar inseridos na sociedade de forma igualitária, e hoje a questão do racismo tem explodido cada vez mais”, argumenta ele, que fala em “afirmação”, mas não apenas cultural. “É pela questão da pessoa”.

“Estamos muito distantes de chegar a um formato ideal”, continua Deo. É preciso “muita luta”. “Toda vez se desviar de olhares desconfiados de vendedores e seguranças quando está em uma loja, de um olhar sarcástico de pessoas quando elas te veem em um local que acham que só pode ser frequentado por brancos. Você não tem como reagir, porque é velado. É a forma mais cruel que tem. Você não vai poder reclamar. É cansativo, mas não temos o privilégio do descanso”.

Coerente, Deo pede pela defesa dos “saberes, fazeres e tradições que vêm de povos negros”. Exemplos são as congadas, cujos participantes experimentam um momento de “começar a gostar de aparecer, e afirmar o quanto elas são importantes”.

Mas o movimento – que peleja para ser reconhecido no Iphan (leia mais abaixo)– anda a passos lentos, em Mogi, na visão do artista. A cidade já teve 11 grupos, e agora o número é menor, tanto de coletivos como de atividades. “Fora a coisa de se mostrar mais católico para agradar  a comunidade branca, a questão artística cada vez mais tem se colocado como algo que as pessoas vão achar bonito e interessante”.

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Embora devagar, é um “caminho positivo”, que mostra a necessidade de “muito para fazer”, no sentindo do “entendimento de modo geral”. Os congadeiros – que hoje são representados por uma geração mais jovem, que dá mais espaço às mulheres - por exemplo, precisam “tomar pra si as suas tradições, afirmar suas origens”, diz Deo.

“Atuar pelo bem da sua tradição, e não pelo bem de uma tradição adquirida. São coisas que caminham a passos lentos, mas sempre positivos. E quanto se dá um passo a frente, dificilmente se dá um passo para trás. Quem toma conta disso é a geração que vem depois, as crianças, que estão ali no meio, e precisam crescer com afirmação natural”, acrescenta o produtor cultural.

Neste ponto da reflexão, Deo Miranda retorna “às celebrações de Consciência Negra”, que acontecem para não deixar que a história seja apagada. “Ele (Zumbi dos Palmares) é um representante de vários outros. Teve muitos outros contemporâneos, e que estavam antes, durante e depois (desse limite na história). É igual ao Lampião: o cangaço não começa e não termina com ele. Mas fica seu pensamento libertário, de enfrentamento”, afivela.

A fala sugere que o dia 20 de novembro seja apenas ‘a ponta do iceberg’, para recorrer ao usual jargão. “Independentemente de patrocínio, festa ou convite”, a cultura afro acontece, nas comunidades, “faça sol ou chuva”.

Na visão do artista, é isso o que falta aos grupos de Mogi, que têm certa ”dependência de terceiros”. Ele dá um bom exemplo. Atualmente, a Coroação do Rei do Congo, celebração específica da Congada, precisa de um ‘empurrãozinho’ para acontecer, como a iniciativa de um produtor ou de uma agenda, como o Festival de Arte Popular, realizado em setembro último. E não deveria ser assim. 

“Essa tradição não pode depender de ninguém. As pessoas têm que se deslocar para assistir, como acontece nos outros lugares. Sinto, em Mogi, que ela foi transposta para a Festa do Divino. Mas o que é a Congada nesse evento? Um enfeite”, opina Deo.

Para ele, a festa “não lida com os motivos emocionais da Congada”. “O local de celebração é onde está o templo. Em outros lugares, tudo é feito em volta disso. A comunidade se junta, decora, cada um cuida da sua vestimenta e instrumento, e naquele dia, se reúne para rezar, e não fazer apresentação artística”. 

“Essa descaracterização tem afetado o processo tradicional”, continua analisando, sobre o momento atual, em Mogi, de “uma das manifestações mais antigas, que dá origem ao Maracatu, ao Bumba Meu Boi e muitas outras”. 

Vale, então, conhecer o legado, que vive e pulsa no interior de uma cidade que tem 461 anos de histórias. Legado esse que se estende para outras artes além de seus próprios ritos, como mostra a foto que está em destaque nesta página. De autoria do fotógrafo Danilo Duvilierz, o clique foi premiado como “Melhor Fotografia Mogiana”, no Mogi Revela 2018.

 Reconhecimento no Iphan está paralisado

Além de músico, produtor cultural e presidente da Casa do Congado, Deo Miranda é um pesquisador e defensor de tradições como Congada, Marujada e Moçambique. Por isso, em 2019, lançou o portal Memória Digital da Congada de São Paulo (MDC/SP). O site ainda está ativo, com muitos conteúdos relacionados aos grupos locais, mas corre o risco de ser fechado, devido aos custos para sua manutenção.

Também está em xeque o reconhecimento da congada como manifestação cultural brasileira pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “Até entrar esse camarada que está na presidência agora, o Iphan estava em trabalho pleno, acelerado, para mapear todos os lugares em que ocorre a congada, o que é quase todo o país. Estavam sendo abertos vários editais, e sendo chamadas várias entidades de pesquisa para trabalhar na pesquisa. Mas quando entrou o governo atual, as coisas frearam”, relata Deo, que não consegue mais acompanhar os processos.

O andamento dessa luta antiga depende, acredita Deo, do resultado das urnas em 2022, já que a gestão Bolsonaro “deixou claro que não fará nenhuma iniciativa voltada para o desenvolvimento cultural do país”. 

 No Sesc Mogi, um 'Encontro de Tambores e Louvores'

A memória da Cultura Negra está em cartaz no Sesc Mogi das Cruzes. Neste sábado (20) e domingo (21), o espaço recebe o ‘Encontro de Tambores e Louvores’, celebração coletiva dos grupos tradicionais locais. A atividade integra o projeto ‘Do 13 ao 20: (Re)Existência do Povo Negro’.

O objetivo, além de ajudar a “manter viva a cultura dos variados povos africanos trazidos ao Brasil, com as pessoas cantando e dançando para santos católicos, Reis e Rainhas do congo”, é “varrer, ocupar, marcar e atualizar a presença dessa importante matriz cultural brasileira no Sesc Mogi, configurando uma oportunidade para viver a memória da cidade”.

Por issso, entre as 16 e 17 horas, neste final de semana, quem for ao Sesc encontrará “o fortalecimento e o reconhecimento das lutas, conquistas, manifestações e realidades do povo negro, bem como o fomento à equidade, convivência e reconstrução simbólica no campo individual e coletivo”. O endereço é rua Rogerio Tacola, 118, no Socorro. A entrada é livre, e mais informações estão disponíveis neste link.

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