Em formato de “leitura dramática” nestes sábado e domingo, dias 16 e 17, às 20 horas,  entra em cena uma peça sobre a “tradição de uma sociedade em que as pessoas tem a obrigação de fazer inimigos e matá-los”. Pesado, o tema abordado em ‘Inimigo’ representa um esforço da Cia. do Escândalo, grupo fundador e gestor do Galpão Arthur Netto, em promover, a partir de recursos da Lei Aldir Blanc, a reflexão sobre a sociedade moderna e suas violências.

Para explicar o enredo do espetáculo, é preciso voltar no tempo. Em 1978, o escritor albanês Ismail Kadaré lançava o livro ‘Abril Despedaçado’. Em 2001 saiu um filme com o mesmo nome, estrelado por Rodrigo Santoro. Essas são as principais referências da obra, que é uma criação original, exibida originalmente em 2016, para público presencial, e agora adaptada para o formato online, com acesso gratuito.

A história é a de um jovem chamado Gjorg, que vive região do Rrafsh, um maciço de montanhas ao norte da Albânia. Por lá, há uma espécie de “código de comportamento e de convivência”, que é “transmitido de geração para geração de maneira oral”. 

O nome deste conjunto de leis não escritas é Kanun: “o sangue que for retirado de um clã, tendo um membro de sua família morto, deveria recobrá-lo, matando um membro da família devedora”.

Segundo os atores envolvidos (Isabela Zandoná, Vitor Gonçalves, Thiago Costa, Manoel Mesquita Junior e Jéssica Nascimento), há regras específicas sobre como as mortes tem que acontecer - sempre com arma de fogo -, e como os corpos devem ser dispostos - em decúbito ventral.

Contra a violência, a Cia. do Escândalo justifica como sendo uma forma de protesto a encenação de uma história como essa, ficcional, que fala de uma sociedade “em que matar o outro não só era permitido, como era um dever em certos casos”.

Vitor Gonçalves diz que o texto “surgiu numa época em que aconteciam muitos genocídios”, como as chacinas em pontos de Jundiapeba, Vila Caputera, Vila Natal e Jardim Universo, em Mogi das Cruzes, entre 2014 e 2015.

“Falamos também das questões de facções, tráfico e vingança do nosso país, como a pessoa que mata um policial e aí outros agentes vão matar também”, argumenta ele. Quem completa o pensamento é Manoel Mesquita Júnior, apresentando ‘Inimigo’ como resultado de mais de uma década de pesquisas.

“Em 2009 fizemos um espetáculo chamado ‘Intolertância’, onde discutíamos o aumento da violência, baseado em pesquisas. E em 2016 montamos ‘Inimigo’, para falar, entre outros assuntos, da polarização política no Brasil, que na época se dividia entre PT e PSDB”, conta.

Tudo isso - e muitas outras inspirações - se traduz em uma tela dividida por “quadrados”. Em cada um deles, um dos integrantes da Cia. do Escândalo aparece, não apenas lendo o roteiro, mas interpretando. Além dos recursos tecnológicos, como diferentes enquadramentos e o zoom, a linguagem corporal, o figurino e o cenário ajudam na imersão do espectador.

Jéssica, que cita o massacre do Amazonas, de 2017, lembra das “camisetas ensanguentadas que forram os varais”, em referência a “tradição de sangue” abordada na trama. Antes, quando o palco presencial era uma possibilidade comum, a produção cuidava de preencher cinco metros de um varal, com diferentes camadas preenchidas por camisetas manchadas de vermelho. Agora, as roupas foram substituídas por versões em miniatura. O tamanho é menor, mas o significado é o mesmo.

Para ver, é só ficar ligado no Facebook e no YouTube do Galpão Arthur Netto. As apresentações deste fim de semana são gratuitas e fazem parte de um projeto que inclui oficina  de iniciação teatral e uma série de lives com debates e apresentações sob o tema ‘Território Negro’, realizadas na última semana. Leia mais.