Psicólogo Fábio Souza aponta maior busca por ajuda à saúde mental durante a pandemia

Fábio Guedes diz que busca por serviços aumentou em 70% no consultório. (Foto: Divulgação)
Fábio Guedes de Souza diz que busca por serviços aumentou em 70% no consultório. (Foto: Divulgação)

Aumenta cada vez mais a procura das pessoas por terapias em busca de um suporte que ajude a manter o equilíbrio mental em tempos de pandemia. As agendas dos psiquiatras e psicólogos são disputadas por indivíduos com problemas para lidar com as limitações impostas por um inimigo invisível que ameaça a saúde, desequilibra o emocional e as finanças, promove o medo e restringe a vida social. Esse cenário todo, segundo profissionais da área, ajuda a desencadear quadros de depressão, ansiedade, transtornos, estimula consumo de drogas, a violência doméstica e eleva os suicídios.

O psicólogo Fábio Guedes de Souza, professor do Centro Universitário Braz Cubas, explica que quando iniciou a quarentena muitos pacientes deixaram a terapia presencial, mas voltaram quando o isolamento começou a se prolongar. Na clínica onde atua com um grupo de psicólogos observou um aumento de 70% na procura por pacientes novos e de outros em processo de alta que retomaram. O GetNinjas, maior aplicativo para contratação de serviços da América Latina, apurou que o atendimento psicológico cresceu mais de 49% entre os dias 17 a 23 de maio.

 Os tipos de transtornos mais comuns citados pelo professor durante a pandemia envolvem episódios de ansiedade e depressão por conta mudança brusca na vida das pessoas e perda renda de uma hora para outra.  “Além do desequilibro financeiro, há o medo da doença, de se contaminar e colocar em risco vida de terceiros, o enlutamento, o sentimento de culpa de familiares por achar que poderiam ter protegido mais”, explica.

As crianças requerem cuidados especiais, segundo ele, porque foram ceifadas de todas as possibilidades de relacionamento de interação social, em suas casas, sem o contato que tinham com colegas de escola. “Já os idosos precisam ser acompanhados para evitar o sentimento de desamparado, angustia e tristeza profunda”, comenta.

Sobre os jovens, o especialista entende que é uma população que requer atenção especial nesse momento de desesperança. A questão de suicídios é uma das preocupações. “Essa não é urgência psicológica e sim de urgência médica. É importante entender que isso não é frescura, é urgência médica. É preciso sensibilizar as pessoas sobre o tema, ter mais empatia, orientar a buscar ajuda”, insiste ele, ao chamar atenção sobre o crescimento de ocorrências. “Não se trata só de tentativas, mas a configuração do próprio suicídio vem aumentando”, reforça.

Tem ainda a violência doméstica na quarentena. “As mulheres são agredidas e muitas crianças não têm a quem e nem como recorrer. É preciso oferecer instrumentos que possam dar esse suporte a essa população. O número de divórcios aumentou significativamente, estão ocorrendo mais brigas e desentendimentos, até porque um maior tempo de convívio acaba emergindo toda a dificuldade do relacionamento”, enfatiza o professor.

Todas as famílias estão sujeitas a ter problemas e normalmente são as pessoas próximas que observam mudanças de comportamento. Diante de qualquer sinal de alerta, o especialista orienta a tentar encontrar uma forma de evitar que isso aconteça, conversar, buscar as redes de apoio, mostrar que há tratamento e alternativas para ajudar a enfrentar os problemas.

Aumentam casos de compulsão por consumo 

Os profissionais da saúde mental registram aumento nos casos de compulsão por consumo neste período de pandemia. Pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) aponta que nos meses março a abril, as vendas on-line dobraram: 61% dos clientes compraram nesse período de isolamento social. Várias empresas de consultoria também constataram essa alta no crescimento de compras no e-commerce.

De acordo com o professor do Centro Universitário Braz Cubas, psicólogo Fábio Guedes de Souza, as estimativas são de que 5% da população mundial sofra de compulsão por compras. A prevalência desses casos são as mulheres que representam entre 80% e 95% desses consumidores.

Os números podem não ser precisos porque muita gente esconde. “A procura por ajuda muitas vezes acontece quando é tarde demais, pois a pessoa e até mesmo familiares fazem essa busca quando um grande dano está em curso ou já aconteceu. Tal dano é entendido como problemas com dinheiro e esses estragos na vida financeira dessas pessoas”, esclarece.

O quadro se agravou durante a pandemia porque, segundo o especialista, esse momento tão peculiar na história recente da humanidade, é acompanhado de várias adequações, e o cérebro tende a buscar uma forma de sobrevivência e algum prazer. “A compulsão por compras é um desejo inicial que causa prazer, mas, em seguida, pode gerar mal-estar. A pessoa não resiste ao desejo e age de forma emocional para aliviar, momentaneamente, as frustrações que sente”, reforça.

Alguns sinais de alerta apontados pelo psicólogo para identificar o problema:  preocupação excessiva com compras; falta de controle e comprar mais que podia e devia; aumento progressivo do volume de compras e despesas; comprar para aliviar emoções como angústia e tristeza; mentir para cobrir o seu descontrole; passar a ter problemas financeiros; envolver-se com roubos, falsificações e atos ilegal para poder comprar ou pagar dívidas.

Apesar desse tipo de compulsão “não ter cura”, o psicólogo explica existe controle com a ajuda de profissionais especializados e suporte familiar. Em casos mais exacerbados, ele sugere “a nomeação de um conselheiro financeiro para orientá-lo na condução mais adequada da sua vida financeira”.

Serviço reforça a prevenção ao suicídio

O Programa de Saúde Mental do município se organizou para atender o aumento na demanda de casos de pacientes que apresentam problemas emocionais e precisam de ajuda para enfrentar esse período de pandemia e isolamento social. Para promover a rede de apoio na cidade, profissionais que atuam no serviço vinculado à Secretaria Municipal de Saúde implementaram um novo sistema de consultas, elaboraram cartilhas, vídeos e estratégias terapêuticas para oferecer suporte de prevenção de transtornos, estresses e situação de luto por perdas e mortes.

A psiquiatra Aline Correia Souza de Matos, coordenadora do Programa de Saúde Mental, conta que foi necessário mudar o formato para realizar o atendimento remoto, por contato telefônico e WhatsApp, diante da demanda de pessoas que passaram a buscar os serviços à medida em que se prolongava a quarentena. “Muita gente foi impactada pela pandemia, que precisa de um suporte para lidar com a mudança brusca na rotina, com o isolamento, desemprego, perda de renda e desesperanças”, observa. Toda a reviravolta provocada pelo vírus, segundo a especialista, afetou pessoas de faixas etárias diversas, e especialmente a população mais vulnerável.

A médica explica que a crise promovida pelo vírus foi uma espécie de gatilho que ajudou a desencadear quadros de depressão grave, compulsão, ansiedade, síndromes e transtornos, como o obsessivo compulsivo (toc) e outros. Aline observa o impacto nos jovens, que estão sofrendo com a insegurança, achatamento da renda, perda de emprego, de convênio e de outros benefícios.

Uma das preocupações dela está relacionada ao suicídio, um tema que vai além dos adolescentes. Foi observado um aumento significativo de casos entre adultos jovens, encaminhados para avaliação médica. “Existe uma grande preocupação com essa questão do suicídio. Estamos trabalhando para prevenir. Há muitos casos de jovens e adolescentes com vontade de morrer”, alerta.

Os idosos também falam em morte, mas segundo a psiquiatra, como a maioria não tem o ímpeto do suicídio, começa a adoecer, ficar mais depressivo, fazer confusão na mente. Ela chama atenção também para notícias de aumento de óbitos em domicílio por medo de procurar serviço de saúde. Houve alta de 26% no registro mortes provocadas por causas naturais em domicílio nas cidades do Alto Tietê, durante a pandemia, segundo informações da Associação Nacional de Registradores de Pessoas Naturais (Arpen).

Para lidar com as mortes e perdas de familiares pela Covid-19, a coordenadora do Programa disse que foi montada também uma frente específica para situações enlutamento. Uma equipe recebe as listas dos falecidos, entra em contato com as famílias, monitoram e ligam para perguntar se alguém precisa de apoio psicológico.

O momento é complicado, mas a psiquiatra acredita que é possível amenizar o estresse do isolamento se as pessoas usarem esse tempo para aprender coisas novas e manter a mente ativa. “É importante se ocupar com atividades lúdicas, produtivas, tentar colocar uma rotina em casa, mesmo que seja lúdica: um filme de manhã a tarde um jogo, a noite fazer uma atividade culinárias. Procure atualizar as notícias sobre a pandemia apenas uma vez por dia”, aconselha.

Centro de Convivência faz atendimento remoto

A gerente do Centro de Convivência e Cooperativa (Cecco), a psicóloga Patrícia Regina Vieira Rocha, uma das profissionais da linha de frente desse novo formato de atendimento remoto oferecido pelo Programa Saúde Mental, disse que o serviço atende hoje 103 pessoas por semana, a maioria entre 20 a 45 anos, muitas delas afetadas pelos desdobramentos da pandemia.

Para entrar no programa, inicialmente a pessoa faz o primeiro contato e passa por uma triagem antes de agendar os atendimentos por telefone ou WhatsApp. Três psicólogas fazem o trabalho no Centro de Convivência. Quando se deparam com casos mais graves, elas os encaminham para a psiquiatria, responsável pela parte medicamentosa. Os que já eram da rede continuam sendo atendidos nas UBS.  O canal disponibilizado agora só atende os novos caso. Os pacientes procuram os serviços por orientação das Unidades Básicas de Saúde (UBS), outros chegam espontaneamente.

A psicóloga confirma que a maior frequência de queixas relacionadas a depressão, ansiedade, crise de pânico, fobias, dificuldade de adaptação à nova rotina. Patrícia explica que familiares e pais também buscam orientação sobre como lidar com seus filhos adolescentes.  “Muitos dos casos estão ligados aos desdobramentos da pandemia, que parou tudo, gerou perda de emprego, brigas familiares, violência doméstica”, aponta. Ela explica que no início o impacto da mudança foi maior pelo desafio de se adaptar ao novo normal, mas agora percebe que o medo diminuiu e as pessoas estão mais adaptadas.

A rede Saúde Mental conta com nove médicos – sete psiquiatras e dois em especialização -, e 21 psicólogos.


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