ARTIGO

Costela

Perseu Gentil Negrão

No Dia dos Pais ganhei um “gira grill” das “meninas”. Por isso, comprei “online” (a que ponto chegamos) uma costela embalada à vácuo (como dizem os jovens, costela “Nutella”).

Domingo, instalei o “gira grill”, salguei a costela e acendi o fogo. Costela demora para assar e consome muito carvão e cerveja. Tempo de sobra para devaneios.

Lembrei da minha infância em Itápolis. As festas de casamentos eram nas fazendas. Fazia-se uma cobertura com lona de caminhão. As mesas eram de tábuas sobre cavaletes, cobertas com papel. Sobre as mesas, recipientes com mandioca cozida, pão e pedaços de madeira com furos, onde seriam colocados os espetos. O fazendeiro/sogro mandava abater um boi para o churrasco. A churrasqueira era de tijolos empilhados e os espetos eram de bambu. Festa “raiz’. Papai dava uma “graninha” para os churrasqueiros e, com isso, ganhava um bom pedaço de costela, que os “mestres do fogo” reservavam para eles.

Tempos depois, papai mandou construir um quiosque no quintal, com uma churrasqueira (“ranchinho”). Aos domingos, reunião da família no ranchinho.

Tornei-me adulto, mudei para Mogi das Cruzes. Fui morar com meu irmão Odilon. Arrumamos uma antiga caixa de luz de ferro fundido, para “queimar” costelas.

Há alguns anos, fui com o grupo de pescaria do amigo Egberto (fez um ano do seu falecimento) em uma pousada no sul do Pará. Ali descobri a “Costela Lavoisier” (nada se cria, nada se perde, tudo se transforma). No primeiro dia, costela assada na brasa. No segundo, costela cozida com mandioca. No terceiro, sopa de costela. No quarto, pasteizinhos de costela. No quinto, macarrão do amigo Pedro Duclous (recentemente foi pescar bem longe). Meus amigos de pescaria estão partindo e, tristemente, constatei que estou na fila… Quando pensei que estava livre da costela, no voo de volta, a comissária serviu barrinhas de cereal, sabor costela.

Em fevereiro passado fui pescar na Argentina. Todos os dias, às 6 da madrugada, a costela já estava rodando no braseiro. Os “Hermanos” são excelentes nisso.

Vários amigos de pescaria se foram. Um dia também irei. Por isso, quero participar de muitas pescarias por aqui e comer bastante costela, antes de ir pescar na terceira margem do rio.

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo


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