Há exato um ano convivemos com o medo permanente da Covid-19, doença que já matou próximo de 250 mil brasileiros. Na esteira dessa pandemia do novo coronavírus, mais de 1 milhão de empresas no território nacional também morreu. Neste último caso, a culpa não é só do vírus. Ele apenas agravou uma economia já bastante debilitada há décadas.

Na balança temos de um lado o desafio de vencer essa terrível doença nos aspectos da saúde e ciência, enquanto do outro a questão é sobreviver financeiramente. 

Um levantamento recente do Banco Central aponta que o endividamento das famílias brasileiras bateu recorde no final de 2020, o que não chega a ser uma surpresa diante do crescimento das taxas de desemprego e das medidas de redução de salários para conter o desastre total com o fechamento de mais empresas.

O fato é que 2020 terminou com as dívidas bancárias atingindo 51% da renda acumulada das famílias. Isso significa que mais da metade do ganho mensal é engolido por empréstimos, cartão de crédito e financiamento imobiliário, entre outras dívidas, principalmente por conta da alta taxa de juros cobradas pelas instituições financeiras. A média de famílias endividadas no Brasil cresceu próximo de 3% no ano passado, atingindo 66,5%.

Pior ainda. Dos endividados, cerca de 25% admitiram ter dívidas em atraso e 11% dizem não ter meio de regularizar a situação, consolidando desde já uma inadimplência que pode se agravar muito neste semestre dado o fim do auxílio emergencial. 

Ainda que esse auxílio federal seja retomado, tudo indica que será em patamares inferiores, o que significa a persistência do endividamento num quadro muito preocupante.

Mas as famílias não estão sozinhas nisso. As empresas estão em situação bastante semelhante. O endividamento do setor privado chegou, em dezembro, a 89,9% do Produto Interno Bruto (PIB).

A diferença é que a tomada de crédito pelo setor privado geralmente tem como destino o investimento e a manutenção dos empregos, o que é positivo para girar a economia. O que não está bom, no entanto, são os juros crescendo também em patamares elevados ao restante do mundo, o que torna bastante difícil a tarefa de fechar as contas.

Tivemos votações com as eleições dos presidentes do Senado e da Câmara. O Carnaval, apesar de sem festa para a maioria, já passou. A vacinação começou, aos trancos e barrancos, e precisamos seguir adiante com as votações de propostas há anos paradas em gavetas no Congresso Nacional. Não há mais motivos para adiar os trabalhos.

O governo, aliás, diz já ter conseguido colocar no comando das duas casas do nosso legislativo,  o Senaeo e a Câmara Federal, as pessoas alinhadas para destravar o andamento dos projetos, com medidas para retomar o crescimento econômico brasileiro.  

Vou ser repetitivo, mas não tem como não ser. As propostas das reformas administrativa e tributária, entre outros temas importantes e que há anos tramitam no Poder Legislativo, são fundamentais para o Brasil aumentar a credibilidade no exterior e voltar a crescer com investimentos. 

Argumentos que mostram a urgência dessas medidas não faltam, mas ressalto mais um: a economia ruim reflete diretamente na saúde. Afinal o PIB em queda, como ocorreu em 2020 quando o resultado foi -4,5%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), implica em diminuição da renda e aumento da pobreza, condição que está por trás da mortalidade.

O Brasil está na UTI e, ao contrário do coronavírus, os remédios para estabilizar sua condição são conhecidos e estão disponíveis para uso.

José Francisco Caseiro é empresário e diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp)