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ARTIGO

Tóxico

"Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, as discussões são naturais numa sociedade em evolução, mas evoluir não é aplaudir incondicionalmente um governante de ocasião"

Laerte SilvaPublicado em 17/07/2021 às 17:15Atualizado há 11 dias

Observando as conversas sobre política nas redes sociais, especialmente grupos de mensagens, vemos uma grande guerra de narrativas alimentadas por fake news, por mensagens compartilhadas inúmeras vezes sem que a pessoa que as impulsiona se dê ao trabalho de fazer uma leitura cuidadosa, sem confrontar com outras fontes seguras de informação e, por vezes, destacadas do seu real contexto.

Há supostas matérias que em verdade ainda são ecos de uma produção desequilibrada e focada na desconstrução de fatos passados porque não interessa a verdade com a qual as coisas ficariam bem diferentes. Repetir mensagens à exaustão no campo político se dá muito mais para tentar vencer pelo cansaço do que pelo esclarecimento e um debate saudável.  Tornou-se proibido divergir.  Infelizmente ainda prevalece a máxima de que criticar a situação representa retrocesso e concordância com um passado político recente que ficou para trás após denúncias de corrupção.

Muito se diz do direito constitucional à livre manifestação do pensamento, liberdade de consciência e de crença, liberdade de expressão da atividade intelectual e de comunicação abarcados pelo artigo 5º da Constituição Federal, mas os conceitos perdem-se na sociedade na medida em que se pretende dar ênfase a um argumento falso.

É neste momento que nasce a discórdia, porque separar a crítica da cor partidária, se era defeito no passado, também se apresenta uma chaga no presente, e o também direito constitucional de acesso de todos à informação, principalmente em questionamentos de governantes, virou afronta. Se você não está a aplaudir, não é visto como pessoa do bem.  

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, as discussões são naturais numa sociedade em evolução, mas evoluir não é aplaudir incondicionalmente um governante de ocasião. Por vezes um bom governo fica nas intenções, pois a prática demonstra que sua estrutura não firmou a teoria que pregava.

No Brasil, com eleições a cada dois anos, as discussões puxando brasa para a própria sardinha ganham contornos extravagantes em narrativas que buscam pavimentar um revés eleitoral.  Uma espécie de mantra se propaga para dar foco em algo de interesse personalíssimo.  

Em um exemplo do mundo político real, há quantos anos vota-se em urna eletrônica?  Quantas vezes noticiou-se um processo eleitoral viciado e provado?  O voto impresso e a urna eletrônica são o tipo do debate tóxico para estribar o “quebrar a cara” do ano que vem. É uma narrativa apenas conveniente.  

Laerte Silva é advogado

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