Nos anos 70 foi sucesso a novela “O Bem Amado”, obra de Dias Gomes, que trazia a narrativa de Odorico Paraguaçu, um prefeito cheio de manhas e artimanhas que muito falava e pouco fazia, a não ser pela intenção de inaugurar o cemitério da cidade de Sucupira, onde ninguém morria.

Para isso acontecer recorreu ao matador Zeca Diabo, que no fim das contas queria virar um homem bom, afundando os planos do político. Foi uma divertida ficção que também guardava nas entrelinhas críticas ao sistema político da época. A trama trazia diversão com os trejeitos e palavras distorcidas por Odorico para preencher o vazio. Qualquer semelhança com o palavrório da atualidade brasileira é mera coincidência.

Vivemos um momento triste e arrepiante diante do enorme número de óbitos decorrentes da pandemia do coronavírus no Brasil, doença mundial que ceifou vidas por todos os lugares. 

O maior ou menor número de mortos depende de atitudes dos governos, iniciativas que ainda que não tenham caráter medicamentoso, evitam a disseminação da doença.

Sobre a pandemia, essa semana o presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento, falou de vacinas como se fosse defensor desde sempre, o que não corresponde aos fatos, mas foi um gesto, porém, nada falou para estimular a sociedade quanto ao uso de máscaras, a importância do distanciamento social e a necessidade, mais que urgente, de evitar-se aglomerações.

Perdeu a oportunidade de estimular a nação. Criou, no dia seguinte ao pronunciamento, em reunião com alguns governadores escolhidos e autoridades do legislativo e judiciário, um comitê nacional para tratamento de ações contra a pandemia. Veio tarde a decisão para uma doença que corrói o país há mais de um ano.  

A união de todos é importante se houver bom exemplo de todos os poderes da nação, apoio às decisões técnicas de quem entende do assunto e vive o ambiente da saúde em contraponto às preocupações com a economia e com assistência aos desfavorecidos.  

Evidente que o embate na economia e saúde cresceu por conta das disputas políticas ao longo do tempo, mas é chegada a hora de colocar um ponto final na discussão entre negacionismo, ficção de tratamento precoce e  realidade.

Sobre o comitê, não precisamos de “Odoricos Paraguaçus” com palavrórios que a nada levam e beiram ao cinismo, precisamos de ações dos governos municipais, estaduais e Federal para que não tenhamos uma discussão sobre cemitério, como na Sucupira da novela.

 

Laerte Silva é advogado