Machadinho é provedor de uma Santa Casa de Misericórdia. Para quem não sabe, o provedor de uma Santa Casa é uma pessoa da sociedade que é eleita para dirigir o hospital. Ele não é médico, ou administrador hospitalar, nem sequer um profissional da saúde. É um voluntário que assume o compromisso de administrar o hospital e não ganha um centavo por isso. 

Como era pessoa muito respeitada na cidade, Machadinho foi eleito para administrar a Santa Casa da sua cidade. Logo de cara se viu com um baita problema na mão. Três pacientes deram entrada no hospital. Um era um senhorzinho de oitenta anos com um câncer terminal. Outro, uma gestante de alto risco que precisou ser operada de emergência e precisava de cuidados intensivos. O terceiro, um jovem de família abastada que tomou todas numa festa, bateu seu carro num poste e se arrebentou todo. Morrerá se não for para a UTI. O hospital tem apenas oito leitos de UTI e todos estão ocupados, menos um.

Machadinho sabe que só pode atender um dos três. Não há como improvisar leito de UTI. Isso é impossível, embora alguns políticos pensem que é fácil e fiquem pressionando o provedor para que atenda de preferência, os seus eleitores. E quando ele não faz, viram inimigos e fazem de tudo para difamá-lo. Isso acontece todo dia, mas o povo não sabe e pensa que são os médicos, os enfermeiros e a administração os culpados pelo descalabro que existe em nossos hospitais públicos.

Machadinho terá que escolher. Ele sabe que os dois que forem preteridos certamente morrerão, pois terão que procurar outros hospitais e vaga de UTI no sistema SUS é tão difícil de achar quanto um político que cumpre suas promessas depois de eleito.

A quem Machadinho contemplará? Quem ele escolherá para viver? Quem ele escolherá para morrer? Quem você escolheria? 

Se um dia você estiver no lugar do Machadinho, uma coisa é bom avisar. Seja quem for que você escolha, as famílias dos que morrerão vão processá-lo por omissão de socorro. Você será acusado de assassinato. Pelas famílias dos defuntos e pelo Ministério Público. Se você tiver bens eles poderão ser bloqueados pelo Poder Judiciário para uma possível indenização às famílias.

Há outra coisa que é preciso saber: Santas Casas não são hospitais do governo. São ONGs que ele contrata para prestar serviços de saúde. As verbas que o governo repassa para elas não cobrem nem 60% dos seus custos e as primeiras que são cortadas em época de crise. O resto é provido pela caridade pública, o trabalho dos voluntários e as ações que a Provedoria faz para arrecadar fundos. Quando você precisar de uma Santa Casa para algum atendimento, pense em tudo isso. E talvez você comece a ter mais cuidado com o seu voto.   

João Anatalino Rodrigues é escritor e presidente daApae de Mogi das Cruzes