Andando pelos lados de Pernambuco perguntei ao motorista que estava nos levando o que ele pensava do ex-presidente Lula. “Ele pode ser um ladrão, mas ninguém fez mais por Pernambuco do que ele” disse ele. Passávamos pelo porto de Suape, que segundo o motorista, foi a grande realização do Lula naquele estado. “Com isso ele nos deu mais de cinco mil empregos”, arrematou. 

Lembrei-me de outros políticos do time do “rouba, mas faz”. 

Parece que nós emancipamos a corrupção e já aprendemos a conviver com ela. Tanto que aceitamos passivamente as mazelas dos nossos governantes, desde que façam alguma coisa boa para nós. Para uns uma estrada, um hospital, são suficientes. Para outros um porto e alguns trocados a mais no bolso, na forma de uma Bolsa-Família. E tem quem se contente com um par de botinas, umas telhas e uns tijolos para fazer um puxadinho no barraco. E eis toda moral, ética, honestidade e decência canceladas. 

A bem da verdade, se verdadeiras as imputações que se fazem ao Lula, ele roubou pouco em comparação com outros políticos de quem se fala que surrupiaram milhões dos cofres públicos. 

As contas de Paulo Maluf e o propinoduto do Eduardo Cunha superam em muito os valores do sítio de Atibaia e do triplex do Guarujá, pelos quais o Lula foi condenado. Mesmo que se descubra mais propina a ser contabilizada ao “Messias” das caatingas, seja qual for o montante, ele não vai chegar nem aos pés do Cabral e do Pezão, por exemplo. 

Apesar disso Lula ainda teria hoje muitos votos para presidente. 

Se lhe for permitido a candidatura é capaz até de ganhar. Isso explica porque vários acusados de rapinagem dos cofres públicos continuam sendo eleitos. Tudo por conta dessa indiferença com que nós tratamos a questão da moral e da honestidade.

Por outro lado, Bolsonaro foi eleito com um discurso implacável contra a corrupção e a desonestidade dos nossos administradores públicos. Reconhecidamente, até agora não se pode imputar a ele nenhum ato de corrupção. Isso parece bastar aos seus apoiadores, como se a corrupção fosse o único problema que impede o Brasil de dar certo. Mas honestidade no trato da coisa pública é obrigação e não virtude.

 O fato de outros presidentes terem sido desonestos não faz de Bolsonaro um santo só porque ele não está sendo. Há outras virtudes que fazem de um presidente um grande estadista, que Bolsonaro não mostrou até agora. 

Ainda há tempo. Ele tem mais dois anos para isso. Boa equipe de governo ele tem. Boas ideias para fazer o país andar também. Só precisa expurgar algumas excrescências que a ideologia olavista impôs ao seu staf.  

E principalmente descer do palanque. A eleição ele já ganhou. Agora é hora de governar. Quanto mais ele discursa para o seu “kitsch” de apoiadores, mais munição ele dá aos adversários. 

João Anatalino Rodrigues é escritor, advogado e presidente da Apae (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) de Mogi das Cruzes