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ARTIGO

Frente ampla ou comissão de frente

A coesão de forças para vencer um opositor é caminho válido. mas o que a história registra É Frustrante.

Ricardo ViveirosPublicado em 30/04/2021 às 16:50Atualizado há 12 dias

Muito se tem falado na formação de uma frente ampla capaz de unir a oposição e enfrentar, nas eleições do ano que vem, Jair Bolsonaro. Há articulações desde a esquerda, o centro e a direita, que envolvem PT, Rede, PSB, PDT, PSDB, MDB, Cidadania, DEM e Novo. O que registra a História, quando se fala de coesão na política?

Logo após o Golpe Militar de 1964, surgiram conversas entre os principais líderes políticos para a formação de uma Frente Ampla de oposição à ditadura. Em 1966, o deputado federal Renato Archer (MDB-RJ) promoveu a aproximação dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek (PSD), exilado em Portugal, e João Goulart (PTB), exilado no Uruguai. Cientista e diplomata, Archer foi um dos principais articuladores no sentido de unificar forças contra o regime militar.

Embora integrante do movimento que havia derrubado Jango e cassado os direitos políticos de Juscelino, o ex-governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, não concordava com outras medidas, econômicas e políticas, impostas pela ditadura militar. Lacerda, que pretendia chegar ao Palácio do Planalto, voltou-se contra os militares que apoiara porque rejeitava as eleições indiretas e a prorrogação do mandato do general-presidente Castelo Branco. Archer era seu companheiro na UDN, partido que desaparecera com a imposição do bipartidarismo com Arena e MDB.

Mediador entre Lacerda e Juscelino, presente ao encontro dos dois líderes políticos em Lisboa em 1966, Archer assumiu a posição de principal porta-voz do primeiro, tentando conquistar adesões do ex-presidente Jânio Quadros (MDB) e do ex-governador de Minas, Magalhães Pinto (Arena), este, como Lacerda, apoiador do Golpe Militar.

A Frente Ampla convenceu Jango, que não aceitava a ideia de unir-se a Lacerda, inimigo do PTB getulista e com militares ao seu lado. Em setembro de 1967, Lacerda e Jango abandonaram as desavenças. Archer havia garantido a Jango que os militares lacerdistas não seriam contra a aliança sob uma condição, que a Frente Ampla não promovesse luta armada para derrubar o regime. Isso, porque Leonel Brizola (MDB), ex-governador do Rio Grande do Sul, próximo de Jango, apoiava grupos guerrilheiros que se organizavam nos estados.

Com boa parte dos parlamentares do MDB aderindo ao movimento da Frente Ampla, comícios iniciaram forte mobilização popular. 

No dia 5 de abril do mesmo ano, medidas repressivas foram instauradas, entre as quais a Portaria nº 117, proibindo as atividades da Frente Ampla. Em 30 de dezembro de 1968, alguns dias após a edição do Ato Institucional nº 5, Carlos Lacerda teve os seus direitos políticos cassados por 10 anos. Renato Archer, que havia sido militar da Marinha,  teve o seu mandato cassado e, assim como Lacerda, os direitos políticos suspensos. Renato Archer, impedido de atuar politicamente, nunca desistiu de unir a oposição contra o regime ditatorial. Em 1978, ao lado do senador Severo Gomes (PMDB-SP), foi um dos ativistas da Frente Nacional de Redemocratização (FNR), movimento que articulou a candidatura do general Euler Bentes Monteiro à presidência da República pelo MDB, contra a candidatura do general João Batista Figueiredo.

Por fim, a História registra a coalizão política criada em 1984, já no período de agonia e morte do regime militar, pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), oposicionista, e pela Frente Liberal, dissidência do Partido Democrático Social (PDS), governista, buscando apoiar, na eleição presidencial a ser realizada pelo Colégio Eleitoral em 1985, chapa encabeçada por Tancredo Neves, oposicionista moderado, e José Sarney, ex-presidente do PDS (sucessor da Arena), candidato a vice. 

A coesão de esforços para vencer um opositor é caminho válido. Mas, o que a história registra na formação de blocos políticos é frustrante. Muita conversa, muito discurso e, na hora da decisão, cada um arruma um bom motivo para não ceder espaço.

Diante da gestão Bolsonaro haverá um conjunto de líderes partidários capaz de, sem vaidades ou pretensões pessoais, unir a oposição tendo um só nome de todos à presidência da República? 

Lula, Ciro Gomes, João Dória, Marina Silva, Guilherme Boulos, Luiz Henrique Mandetta, Sergio Moro, João Amoêdo e Rodrigo Maia serão capazes de abrir mão de interesses próprios para constituir uma consistente e exitosa Frente Ampla? Ou tudo ficará apenas na Comissão de Frente de um desafinado samba-enredo derrotado no carnaval da esperança? Quem viver, verá.

Ricardo Viveiros é jornalista, professor, escritor e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) 

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