Final dos anos 70, início da década de 80. A política mogiana fervia, dividida entre Arena e MDB, os dois partidos que a ditadura militar permitia que existissem à época. Do lado dos arenistas, o prefeito Waldemar Costa Filho, e, na oposição, liderando os emedebistas, o advogado trabalhista Rubens Nogueira Magalhães. No passado, os dois mineiros haviam sido grandes amigos. Mais que isso: eram compadres. Waldemar fôra padrino de casamento de Magalhães. Os caminhos da política, no entanto, os afastaram, colocando-os em lados opostos. Magalhães não perdoava o estilo linha dura, ditatorial mesmo, que Waldemar adotava para administrar a cidade e, principalmente, para aumentar impostos. E foi logo após uma dessas medidas que o emedebista veio a público, por meio de uma “seção livre” deste jornal, para criticar a medida do prefeito. Waldemar não costumava deixar críticas sem respostas e, diante do que ele considerou um insulto de seu adversário, ocupou toda a primeira página do jornal seguinte para dar uma dura resposta a seu crítico. Rebateu, ponto por ponto, as críticas de Magalhães e, no final da longa peroração, disse que se o adversário desejasse, estaria pronto para se encontrar com ele em qualquer ponto da cidade para tirarem a limpo suas diferenças. Pronto. Estava feito o convite para o duelo que o jornal  retratou de maneira perfeita em sua próxima edição, com uma charge de ambos, trajados como pistoleiros do Velho Oeste americano, junto a um saloon, prontos para sacar dos coldres suas respectivas pistolas. Como nos velhos faroestes. A repercussão foi enorme, a ponto de trazer para a cidade repórteres de televisão e de jornais da Capital, ávidos para que a disputa se concretizasse. Um acontecimento, numa época em que a presença de jornalistas de São Paulo era sinaldo grau de importância que a chamada “grande imprensa” dava ao fato folclórico que marcou aquele período da política local. Mogi viveu dias de permanente expectativa; fofocas e comentários corriam soltos. Os boatos -fake news da época - eram ouvidos por todos os lados. Na cidade, não se falava em outra coisa, senão no duelo que acabou mesmo não acontecendo. Ou melhor, foi adiado até as eleições municipais de 1982, quando o MDB, liderado pelo chamado “furacão Montoro”, impôs uma acachapante derrota à Arena em todo o Estado, inclusive em Mogi, que elegeu o promotor público Machado Teixeira. Waldemar e Magalhães só voltariam às boas após muito tempo. E trabalharam juntos, no quarto e último mandato de Waldemar.“Não para a senhora!”

O jornalista Claudio Humberto conta que,

depois de alguns dias sem aparecer no Congresso, o senador piauiense Heráclito Fortes, do PFL, foi  saudado, logo na entrada do plenário por sua desafeta preferencial, a senadora catarinense, Ideli Salvati, do PT: “Ora, viva! Então o senhor reapareceu, bonito,  cheio de  amor para dar”. O senador, sempre bonachão e com a voz característica de quem parecia estar com um ovo dentro da boca, olhou a senador Ideli, de cima  para baixo, e tripudiou, para gozo dos pefelistas presentes:

“Mas não para a senhora!...”

Houve quem dissesse que daquele dia em diante, 

as relações entre os dois, que já não eram das melhores, tornaram-se verdadeiramente insuportáveis.

 Prefeito por uns dias

Waldemar havia acabado de assumir  a Prefeitura de Mogi para o seu terceiro mandato. Cuco Pereira, que não escondia sua aspiração de chegar ao Executivo, era presidente da Câmara. Certodia, numa visita ao gabinete, Waldemar lhe perguntou se ele gostaria de ser prefeito. Ele se assutou: “Claro!O senhor vai me apoiar daqui a quatro anos?” O prefeito não respondeu e mudou de assunto. Passados alguns dias, chegaram à Câmara dois pedidos de licença. Do prefeito e de seu vice, Nobolo Mori. A Câmara aprovou e, pela ordem sucessória, quem acabou assumindo a Prefeitura foi Cuco, que só então entendeu o sentido da pergunta feita pelo amigo que, com as licenças, lhe ofereceu o cargo de presente. Ainda que temporariamente.

Acabou o dinheiro

Eleições de 1982. Jacob Lopes, cacique político oposicionista,  chegou em Braz Cubas, principal colégio eleitoral de Mogi, no início da tarde e encontrou um território totalmente dominado por cabos eleitorais do candidato da situação, Chico Nogueira.  Em desvantagem, Jacob foi logo ao ouvido do chefe  dos boqueiros de urna e comentou que, ao se dirigir para o distrito, havia passado pelo comitê central de Nogueira, onde estaria ocorrendo um grande tumulto porque o dinheiro tinha acabado e não havia mais como pagar o pessoal. Era mentira, mas funcionou exatamente cmo o velho cacique arquitetara. Foi um rastilho de pólvora. Em questão de minutos, não havia mais um só cabo eleitoral diante do principal colégio eleitoral. E a oposição venceu o pleito.

Escolham as armas

Com a primeira página ao lado, este jornal deu à história do duelo, o tratamento merecido por uma das muitas histórias que acabaram ficando para sempre marcadas no folclore político local. O duelo que não houve, na época em que foi proposto, aconteceu, nas urnas, na eleição de 1982, uma das mais disputadas durante aquele século, em Mogi.