A expressão é muito conhecida por significar a situação em que uma pessoa busca uma vantagem ou tenta influir em algo por conta do cargo que ocupa, especialmente cargo público. 

Em razão de qualidades que entende superiores, tenta um tratamento diferenciado ou aceitação do seu suposto prestígio para abrir portas, algo particularmente intenso no meio político.

Assim, um contato que deveria ser natural passa a ser ilegítimo, quando não abusivo. E a carteirada também pode vir de alguém que usa o nome de um ocupante de cargo público para conseguir uma pré-condição em negociação ou atendimento. Deixando de lado a reflexão sobre ilicitude, é no mínimo imoral quando, para disparar uma conversa, a figura política é levantada em primeiro lugar.

Pois bem, recebi uma ligação essa semana de uma pessoa dizendo-se assessor de parlamentar, aqui de nossa terrinha, Mogi das Cruzes, apontando o nome da figura política para forçar o acolhimento de um pleito que não lhe cabia, misturando alhos com bugalhos, isto é, embora fosse desejável ao assessor tratar de questões de interesse público somente, estava em horário de trabalho agindo para uma questão privada.

Ao confundir as coisas, usar o nome da figura parlamentar e mostrar “serviço” a um particular, demonstrou estar no lugar errado, confundindo o ambiente da Câmara Municipal com balcão assistencial, semeando, obviamente, elemento para voto futuro daquele a quem buscava, digamos, ajudar.

Se esse não era seu intento, usar o nome da figura política só serviu para caracterizar um desvio, foi uma tentativa de carteirada. É por isso que o Brasil patina nas discussões de reforma política, ou seja, a classe deixa-se levar pelo brilho dos holofotes do seu cargo e com isso rejeita mudar a estrutura caríssima aos cofres públicos para que o cargo lhe confira projeção e uma reeleição. Triste.

A incompreensão do que é ser um verdadeiro servidor público acaba atraindo interessados na vida pública pelo ganho financeiro e obtenção de prestígio, muitos esquecendo-se que o dinheiro público que banca uma assessoria é decorrente da arrecadação de uma cidade e faz falta para escolas e para a estrutura de saúde municipal. A distância entre o discurso e a prática é gigante. Lamentável que apesar dos escândalos de corrupção pelo país e a baixa credibilidade da classe política, existam pessoas usando do cargo, deixando usar ou ilegitimamente assim se apropriando para dar a famosa carteirada.             

 

Laerte Silva é advogado