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CIDADE DIVIDIDA

Concessão na Mogi-Dutra e perimetral cria novas divisões entre bairros da cidade

​Especialistas ponderam que a cidade passará a ser dividida em quatro partes, com a segregação da Via Perimetral e linha ferroviária, que já separa o município no sentido leste-oeste

Eliane JoséPublicado em 11/06/2021 às 12:24Atualizado há 4 dias
Montagem: O Diário
Montagem: O Diário

A criação de mais um elemento rodoviário que vai dividir Mogi das Cruzes é rejeitada por engenheiros, professores e lideranças ligadas à entidades e universidades. O edital da licitação internacional para a concessão das rodovias litorâneas prevê a transformação da Via Perimetral, entre a Volta Fria, Braz Cubas e a Vila Moraes, em uma pista concessionada, ou seja, apartada das demais ruas e avenidas municipais, inclusive com a separação por muros, em trechos como a avenida Henrique Peres, e a construção de sete viadutos na Rota do Sol, que passará a atender o usuário que vai pagar o primeiro pedágio na rodovia Mogi-Dutra (SP-88) e seguir para a Mogi-Bertioga (SP-98).

“Essa estrada, com intervenções desnecessárias, como viadutos que atenderão apenas um sentido, vai, na verdade, ser uma ‘obra de enclausuramento’ de Mogi das Cruzes, com o grave risco de tornar ainda mais lenta e congestionada a rodovia SP-66 (Mogi-Suzano) porque uma grande parte dos motoristas irá fugir do pedágio, como já acontece em cidades cortadas por concessões”, adverte a professora universitária e arquiteta Ana Maria Sandim, integrante de órgãos como o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico de Mogi das Cruzes, o Comphap.

Ana Sandim afirma que os prejuízos financeiros e sociais são incalculáveis porque afetam tanto a economia pessoal do cidadão, como da indústria e do comércio da cidade, e do poder público.  “Imagine que o custo do insumo industrial, agrícola e dos itens do comércio ficará mais caro para chegar a Mogi, e o produto final, quando for para a venda e distribuição, também terá o valor aumentado pela cobrança do pedágio”, destaca a arquiteta, que recorre a exemplos de cidades, como Indaiatuba, que teve grandes perdas com a concessão da rodovia Hélio Smidt.

“A passagem de uma rodovia concessionada por uma cidade é um pesadelo, sob vários aspectos. Imagine o que acontecerá com a segregação em Braz Cubas, e também ao longo do trecho dos bairros urbanos, do lado direito da Mogi-Dutra, onde há milhares de moradores, que ficarão isolados e ainda terão de enfrentar os transtornos de ter de usar outros caminhos para economizar. Ainda temos a questão ligada à produção industrial e ao funcionamento das pedreiras existentes ali”, assinala.

Para ele, o cidadão será tributado duas vezes porque “ele já paga o IPTU, para a Prefeitura zelar pelas ruas e avenidas, e vai pagar ao Governo do Estado pela passagem pelo pedágio, em um acesso que é mogiano, do município”.

Outro ponto prejudicial será fortemente sentido pelo setor agrícola mogiano, que hoje responde pelo abastecimento de cerca de 60% do mercado da Grande São Paulo, e até de outras regiões. Ana Sandim afirma que o custo do escoamento será ampliado e colocará, em risco, o poder de competitividade com outros produtores. 

Um outro viés, a ser explorado pela cidade que rejeita o uso da Mogi-Dutra na concessão do Litoral, lembrado pela professora, será a perda de estudantes universitários, estimados em mais de 20 mil, sendo uma parte moradora de cidades vizinhas, além do Vale do Paraíba e do Litoral.

O polo de saúde, serviços e educação, que Mogi das Cruzes criou e fortaleceu, com a construção da rodovia Mogi-Dutra, no século passado, acrescenta a arquiteta, será enfraquecido, sem contar com o “dano específico para a indústria e a geração do emprego e  negócios, também ao comércio e à agricultura”.

Divisões provocam prejuízos econômicos e sociais

Conceito que norteia o Plano Diretor de Mogi das Cruzes, o das cidades compactas - com menos deslocamentos e serviços e oportunidades de trabalho próximos da casa do cidadão -, foi adotado em São Paulo, Boston, Londres, Dinamarca, Deli e Melbourne, e teve os resultados publicados em um estudo internacional com a participação da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Esse modelo prevê um aumento de 30% na diversidade e densidade do uso do solo, de 10% no número de quilômetros deslocados com o transporte ativo, a pé ou bicicleta, além da redução de 30% das distâncias de viagem.

Os resultados são uma melhor qualidade de vida e da saúde do morador, além da valorização da convivência urbana.

Na contramão do que as cidades do mundo estão investindo, o estudo do Governo do Estado em execução com a licitação lançada para a concessão das rodovias litorâneas, e a inclusão de Mogi das Cruzes nesse pacote, projeta uma cidade com mais trânsito e motorizada, segundo avalia o arquiteto mogiano Paulo Sérgio Pinhal, professor universitário e responsável pelo Colégio dos Arquitetos. 

Para Pinhal, “se esse projeto não for eliminado”, o Plano Diretor será descumprido. “O desrespeito ao que Mogi planeja para o futuro é muito grande porque além de fatiar a cidade, já dividida pela linha ferroviária, cria uma segunda barreira física, e vai mudar toda a concepção urbana do que a cidade vem construindo, com o seccionamento da região de Braz Cubas, e impactos, inclusive, no trecho leste-oeste, formado pela avenida das Orquídeas, que foi recém-construída”.

O Diário vem apresentando nas últimas edições detalhes do projeto da concessão, que prevê, entre outras coisas, a construção de sete viadutos, um por quilômetro, entre a Volta Fria e a Vila Moraes.

O arquiteto participou das consultas públicas para o Plano Diretor e está convicto de que a proposta viola pontos  acordados para o futuro do uso do espaço urbano, como o impacto de vizinhança, a falta de ciclofaixas, e a criação de novos empecilhos para a mobilidade de parcelas da população, como os cadeirantes.

“Você possui viadutos e barreiras, inclusive físicas, como a construção de um muro perto do Assaí, em Braz Cubas (avenida Henrique Peres). São obras que dividem a cidade e não contemplam o que é esperado para a mobilidade”, adverte. Não se fala nem mesmo em ciclovia.

Para ilustrar os prejuízos sociais e financeiros, ele cita a criação da segunda divisão da cidade. “Você tem uma projeção para receber um determinado número de pessoas, e passará a ter um fluxo muito maior. Esse projeto complica o trânsito na vizinhança, inclusive na SP-66, além de provocar mais um desgaste ambiental, com o aumento da circulação de carros”, diz.

Outro desajuste esperado é a condição de vida do morador no entorno da rota para o litoral. “Uma coisa é você planejar um viaduto, com um uso definido, como o esportivo. Soluções podem ser encontradas, o problema é quantidade de viadutos (7) em uma única via”, comentou. 

A reportagem provocou Pinhal, lembrando que quando o piscinão do Parque Santana foi anunciado, a promessa era de se promover o uso social, por meio do esporte, da estrutura quando ela não estivesse cheia de água. Até hoje, isso não aconteceu.

O OUTRO LADO

Na defesa pela inclusão das vias municipais e da Mogi-Dutra na concessão rodoviária que atenderá o litoral, a Artesp, que representa o Governo do Estado, afirma que o plano contribuirá para o desenvolvimento econômico, por meio de melhorias viárias e da valorização do potencial do município. Esses argumentos, no entanto, não são aceitos por técnicos e pela Prefeitura.

Plano “interdita” a cidade e fatia território em 4 partes

Com autoridade lapidada pelo planejamento e execução das duas princiais obras rodoviárias mogianas, do século passado, a Mogi-Dutra (SP-88) e a Mogi-Bertioga (SP-98), ambas lançadas ao centro das discussões ao serem incluídas na nova concessão de estradas  litorâneas, o engenheiro Jamil Hallage, aos 95 anos, afirma que Mogi das Cruzes poderá ser dividida em quatro quadrantes, com a segregação da Via Perimetral.

 “Pelo o que estou entendendo, a nossa Via Perimetral, construída para ser um anel viário, uma solução para o trânsito e o crescimento, será ‘interditada’ para o morador da cidade e passará a ser uma estrada que vai cortar, ainda mais o território, já prejudicado pela linha ferroviária ainda mantida pelas cancelas”, pondera o engenheiro formado pela USP.

“Comparando o projeto, nós teremos quatro partes, no sentido octogonal, no norte e sul, e no oeste e leste, e teremos um problema terrível, primeiro, para o trânsito”.

Para ele, a Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) está esquecendo que o mogiano continuará atravessando a cidade entre essas partes, e ficará ainda mais refém do trânsito e da lentidão.

“Será uma rododia dentro da cidade, se nós não barrarmos essa ideia que não se aplica, tecnicamente”, diz, com a mesma tranquilidade que o caracterizava quando atuou nos governos do prefeito Waldemar Costa Filho.

Questionado sobre os reflexos das intervenções, ele pensa e diz: “Só consigo pensar em um nome feio, que não vou dizer, mas os problemas não serão poucos para a Prefeitura e o morador”. Para ele, a direção segura para o combate ao projeto é apontar os graves prejuízos para a cidade. 

  

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