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CONTRA A CORRENTE

Sem limpeza, rio Tietê recebe lixo e esgoto em vários trechos de Mogi

Enquanto aguarda desassoreamento, rio Tietê é poluído e fica tomado por plantas aquáticas

Carla Olivo
13/11/2021 às 18:03.
Atualizado em 13/11/2021 às 18:04

Garrafas pet, embalagens de produtos de limpeza, isopor e madeira estavam acumulados no rio, ao lado do Parque Centenário (Foto: arquivo / Eisner Soares / O Diário)

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CONTRA A CORRENTE

Sem limpeza, rio Tietê recebe lixo e esgoto em vários trechos de Mogi

Enquanto aguarda desassoreamento, rio Tietê é poluído e fica tomado por plantas aquáticas

Carla Olivo
13/11/2021 às 18:03.
Atualizado em 13/11/2021 às 18:04

Garrafas pet, embalagens de produtos de limpeza, isopor e madeira estavam acumulados no rio, ao lado do Parque Centenário (Foto: arquivo / Eisner Soares / O Diário)

A cena que se viu nesta semana no trecho do rio Tietê que passa por um dos principais cartões-postais de Mogi das Cruzes, o parque Centenário, em César de Souza, é apenas um exemplo do cenário em que se encontra o manancial em vários pontos da cidade.

Do último final de semana até esta sexta-feira (12), uma grande quantidade de lixo, incluindo garrafas pet, pedaços de madeira e isopor, além de embalagens de produtos de limpeza e cola, entre outros materiais e objetos, ficou concentrada na área. O Diário flagrou o problema na segunda-feira (8) pela manhã e, desde então, vem cobrando uma solução.

Ontem (12), a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, em parceria com o Corpo de Bombeiros, realizou a limpeza superficial no Tietê, com a remoção de sacos de lixo e outros resíduos que ficaram acumulados sobre o leito do rio, na altura do parque. Ao todo, houve a retirada de 10 toneladas de materiais durante o trabalho, que foi possibilitado a partir de autorização concedida pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE).

Isso após um jogo de empurra-empurra que marcou os últimos dias sobre a responsabilidade da limpeza superficial do rio.

Mas o problema não é apenas este. A situação do Tietê se complica em vários trechos da cidade devido ao acúmulo de lixo, principalmente porque a vazão do rio já é bastante prejudicada pela existência de dois pontos de captação de água para tratamento e posterior abastecimento da população - um operado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e outro pelo Serviço Municipal de Águas e Esgotos (Semae).

O biólogo César Pegoraro, educador ambiental da Fundação SOS Mata Atlântica, relata que conhece bem o cenário de poluição do Tietê na cidade. “Antes fosse apenas no parque Centenário, mas infelizmente, esta é uma situação que se repete em vários trechos”, contou.

Sujeira e lixo são comuns sob a ponte da avenida Prefeito Carlos Ferreira Lopes, no Mogilar (Foto: Eisner Soares / O Diário)

A reportagem de O Diário percorreu outros pontos do manancial em Mogi e flagrou lixo acumulado, principalmente debaixo de pontes em vias como as avenidas João XXIII, Prefeito Carlos Ferreira Lopes, José Meloni e Valentina Melo Freire Borenstein e rua Cabo Diogo Oliver, entre outros trechos urbanos cortados pelo rio, que não estão incluídos no projeto de desassoreamento com início previsto para o próximo mês, segundo o DAEE, contemplando apenas cinco quilômetros entre a cidade de Biritiba Mirim e a ponte da avenida João XXIII, em César de Souza (leia mais abaixo).

Vegetação ocupa parte do rio nas proximidades da ponte da rua Cabo Diogo Oliver (Foto: Eisner Soares / O Diário)

“Esta situação do parque Centenário é de acúmulo de material no período em que não há grande volume de chuvas. Não parece ser um descarte único, mas sim o resultado das últimas poucas chuvas que tivemos e que levaram este material até o rio. Neste trecho, o Tietê tem muitos meandros, diminui bastante a velocidade e o flutuante vai se combinando com as plantas aquáticas, formando um tapete sobre a água. Moléculas de gordura, que podem ser provenientes, em parte, do esgoto que ainda cai no Tietê, em Biritiba Mirim e Mogi, contribuem para formar este bloco e tapete flutuante de material orgânico e lixo”, explica o profissional.
Ele defende maior fiscalização dos pontos que já são conhecidos como de descarte de poluentes no rio, além de ações para aumentar a conscientização da população e maior comprometimento dos governos municipal, estadual, além do DAEE, Sabesp e Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) para evitar a ocorrência deste tipo de problema. 

“Percebe-se que não há uma responsabilidade ou autoridade de competência efetiva para a manutenção dos rios. Obviamente que todos deveriam se preocupar, pois o Tietê abastece a população. Muitos órgãos teriam competência, mas ao mesmo tempo, não possuem estrutura efetiva para esta limpeza ser realizada. Aí acontece o jogo de empurra. E o maior desafio, além de limpar, é evitar que a situação aconteça novamente, senão, é como enxugar gelo. Não é justo ter o pagamento de tantos impostos e não haver algo educativo ou efetivo para conter essa poluição difusa, este descarte irregular, este lixo nas ruas”, alerta Pegoraro.

10 toneladas de lixo são removidas

Ao flagrar o acúmulo de lixo no trecho do rio Tietê que passa pelo Parque Centenário, em César de Souza, na manhã da última segunda-feira (8), a reportagem de O Diário questionou o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), que explicou que “não atua no serviço de remoção e que a coleta e descarte de resíduos são responsabilidades das prefeituras”. 

Já a Prefeitura de Mogi informou que iria solicitar providências ao DAEE para retirada do lixo acumulado na superfície do Tietê, no parque Centenário, por se tratar de uma área de várzea e, consequentemente, de solo instável, onde não há condições técnicas para a realização dos trabalhos.

A situação se estendeu durante a semana, causando indignação de quem passava pelo local, até que nesta sexta-feira (12), com a autorização do DAEE e parceria com o Corpo de Bombeiros, a Prefeitura realizou a limpeza no rio. Mas devido às características do local, o serviço precisou ser feito manualmente, com embarcações cedidas pela corporação e uma equipe de 15 pessoas, entre bombeiros e funcionários da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos.

Com objetivo de possibilitar os trabalhos, a equipe primeiramente depositou sobre o leito do rio uma rede de contenção, a fim de evitar que os resíduos se desprendessem e se movimentassem para outra localidade. Em seguida, começou a coleta manual dos resíduos, com o uso de tarrafas e equipamentos de proteção individual, já que se trata de material potencialmente contaminado.

Após a remoção, o material retirado do leito do rio foi colocado em big bags adequadas para receber lixo e encaminhado ao caminhão da empresa responsável pelos serviços de limpeza pública do município, a Peralta Ambiental, que cuidou da destinação final dos resíduos.   

Segundo a administração, a parceria com o Corpo de Bombeiros foi fundamental para viabilizar os trabalhos, não apenas pela cessão das embarcações, como também pela experiência dos profissionais. “Além de todo o conhecimento que eles têm sobre navegação, a presença do Corpo de Bombeiros foi uma forma de garantir a segurança dos funcionários empenhados na operação”, destacou a secretária municipal de Serviços Urbanos, Camila Souza.

Ela explicou que, além da poluição visual, o problema constitui também um risco para a flora e fauna locais. “Esse tipo de situação nos faz lembrar da importância da educação ambiental. Precisamos reforçar o pedido à população para que não só abandone essa prática, como também denuncie sempre que flagrar alguém fazendo descarte irregular”, acrescenta.

De acordo com a Lei Municipal 4.630/1997 e suas alterações, o ato de depositar, distribuir ou lançar lixo ou entulho em vias públicas, passeios, logradouros em geral, canteiros, qualquer área pública ou terrenos não edificados de propriedade pública ou privada, leitos de córregos, ribeirões e outros cursos d’água naturais, em caso de flagrante, é passível de penalidades. Os valores variam conforme o tipo de material descartado irregularmente. As denúncias podem ser feitas pelo telefone 153. 

A secretária também lembra que, além de contribuir para a manutenção de uma cidade limpa, a destinação correta de lixo e materiais sem serventia é fundamental para garantir a fluidez dos cursos d’água e diminuir a possibilidade da ocorrência de enchentes e alagamentos, em especial nos períodos de chuva. 
Para isso, a Prefeitura conta com três ecopontos e realiza a Operação Cata-Tranqueira e a coleta de lixo convencional e seletiva para o descarte correto de resíduos e outros materiais.

O DAEE informou nesta sexta-feira (12) que na quarta (10), a Secretaria do Verde e Meio Ambiente de Mogi solicitou anuência para retirada do material sobre a superfície do rio Tietê, no trecho localizado no parque Centenário e o Departamento autorizou a execução dos serviços na quinta-feira (11). “Não houve solicitação por parte da Prefeitura de equipamentos para execução do serviço. A administração municipal é a responsável pelos trabalhos”, trouxe a nota enviada a este jornal pelo DAEE.

Trecho urbano fica fora de limpeza

O Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) reafirmou que iniciará no próximo mês o serviço de limpeza e desassoreamento de aproximadamente cinco quilômetros do rio Tietê, no trecho compreendido entre a foz do córrego Sabino e a ponte da avenida João XXIII, entre Mogi das Cruzes e Biritiba Mirim.
“Este trabalho deverá atenuar o problema, particularmente em relação ao aporte de sedimentos e vegetação flutuante, como aguapés. Os resíduos depositados no fundo dos rios e que serão removidos durante o processo de desassoreamento serão encaminhados para descarte em locais apropriados”, finalizou a nota enviada a O Diário pelo DAEE.

Embaixo da ponte da avenida José Meloni também é possível ver acúmulo de sujeira (Foto: Eisner Soares / O Diário)

No entanto, o Departamento não respondeu ao questionamento deste jornal sobre a previsão para o desassoreamento do trecho urbano do rio, entre os distritos de César de Souza e Jundiapeba, passando por vários bairros da cidade, reivindicado há anos.

“O desassoreamento é necessário porque sabemos da necessidade de proteção da mata ciliar ao longo dos rios e como temos perdido esta vegetação, além da ocorrência de sucessivos processos de erosão e lavagem do solo para dentro do rio. DAEE, Cetesb, Sabesp, Polícia Ambiental, municípios e estado têm que fazer com que as margens dos rios sejam respeitadas e as áreas de proteção permanente protegidas e recompostas”, alerta o biólogo e educador ambiental da Fundação SOS Mata Atlântica, César Pegoraro, destacando que também são necessárias outras ações para conter a situação e não permitir que se repita.

  

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