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PEDÁGIO EM MOGI

Rota do pedágio promete 7 viadutos em Mogi, um por quilômetro

Entre a Volta Fria e a Vila Moraes, a Rota do Sol, projetada pela Artesp, terá 14 intervenções: sete viadutos e sete passarelas, que vão dividir a cidade ao meio

Eliane JoséPublicado em 04/06/2021 às 16:43Atualizado há 10 dias
Arte: Danilo Scarpa / O Diário
Arte: Danilo Scarpa / O Diário

Em um trecho de 7,4 quilômetros, o projeto da concessão do primeiro lote de rodovias litorâneas propõe construir sete viadutos e sete passarelas no perímetro identificado como Rota do Sol, entre o final da estrada do Pavan (Evangelho Pleno), na Volta Fria, e a rodovia Mogi-Bertioga (SP-098), na Vila Moraes. Haverá um dispositivo em desnível por quilômetro, e mais uma passarela, sendo que a localização das transposições para pedestres entre os dois lados do que o Governo do Estado descarta ser uma via expressa ainda não foi divulgada pela Agência de Transporte do Estado de São Paulo, a Artesp.

A localização dos viadutos, no entanto, foi encaminhada pela agência, a pedido de O Diário. Os investimentos com a duplicação da estrada do Pavan, que continuará com um sentido, e outras obras de arte, deverão custar cerca de R$ 99 milhões. 

A se manter essa ideia, rechaçada por Mogi das Cruzes, o impacto das intervenções deverá ser brutal porque isola o perímetro mais urbanizado e com alta ocupação de imóveis públicos, residenciais e comerciais na Via Perimetral, a partir da Vila São Francisco até o final da avenida Dr. Álvaro de Campos Carneiro, que terá o último dos viadutos, na intersecção com a Mogi-Bertioga.

Mais de 20 mil pessoas, que residem nesse entorno, serão afetadas.

O primeiro viaduto surgirá na rotatória entre as avenidas Valentina Mello Freire Borenstein e Joaquim Pereira de Carvalho, na Volta Fria. Daqui até o segundo dispositivo em desnível, está o maior caminho sem intervenções planejadas. O segundo viaduto está na próxima rotatória, pouco à frente da entrada do Parque Leon Feffer, entre a Valentina Borenstein e a David Bobrow.

Nesse eixo de ligação a Braz Cubas, Vila São Francisco e Jundiapeba estará o traçado mais confuso, porque pouco à frente, no cruzamento entre a David Bobrow com a Henrique Peres, ao lado do início da nova avenida das Orquídeas, está o terceiro viaduto. 

Nesse ponto, ao analisar o estudo da Artesp, o secretário municipal de Planejamento, o arquiteto Claudio de Faria Rodrigues, perde um pouco a linha, quando classifica como uma “aberração” o plano dos técnicos responsáveis por esse projeto. “Entre essa obra e o viaduto Argeu Batalha não há condições alguma de se erguer outro viaduto, não há as inclinações corretas. É uma ideia bizarra concebida para garantir a viabilidade financeira da concessão”, diz.

Para o secretário, o uso das vias municipais para a concessão fere tudo o que o Plano Diretor indica porque desprivilegia o cidadão, ciclista, e até o transporte ferroviário, além de ir na contramão do conceito de centralidades, que o governo municipal costura há anos com a ideia de valorizar a vida do cidadão mais próximo de sua casa. “A relação das pessoas com a cidade, com essa divisão ao meio de Braz Cubas, acaba. Ou seja, a cidade passa ser usufruída por terceiros, que apenas passarão por Mogi, não estabelecendo nem mesmo uma relação comercial com o município, de maneira direta (na próxima página, Rodrigues analisa os prejuízos sociais e de mobilidade).

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As próximas intervenções serão nos cruzamentos da Henrique Peres com a rua Santa Dionísia, e os três últimos ficam na avenida Dr. Álvaro de Campos Carneiro, no cruzamento com a avenida Japão; o sexto será erguido em ponto não especificado pela Artesp, e o sétimo, na chegada à rodovia Mogi-Bertioga, em frente ao Residencial Rubi.

Esses projetos, na Mogi-Bertioga e Mogi-Dutra, que passarão a cobrar o pedágio fracionado, consumirão R$ 230 milhões. Não há prazo para as obras, a ser custeadas pelos ganhadores da licitação, lançada pelo Governo do Estado (e suspensa por liminar judicial, na semana passada).

Para Claudio Rodrigues, essa “armadilha” desmorona o plano de qualificar a cidade, com equipamentos e serviços em uma escala local, para melhorar a vida das pessoas e controlar a dispersão, a necessidade de se gerar mais trânsito e agentes poluidores. “Seria uma aberração em Mogi”, resume.

Mogi espera por outra solução

As notícias sobre a construção de sete viadutos na chamada Rota do Sol, entre as rodovias Mogi-Dutra e Mogi-Dutra, alvo de uma disputa judicial e política, trouxeram à baila a lembrança de uma outra demanda não atendida pelo Governo do Estado, que explora o transporte ferroviário: a eliminação da passagens de nível nas cinco estações de trem de Mogi das Cruzes. De São Paulo até aqui, as cancelas foram eliminadas ao longo dos últimos tempos, com a remodelação e modernização de todos os terminais ferroviários - algo que está longe de ser realizado na cidade, pelo que se saiba.

A tentativa de se impor uma nova divisão na cidade, com a construção de uma via rápida, que será entregue à concessão das estradas litorâneas, ocorre sem que a segregação da linha férrea tenha prazo para ser liquidada.

Mogi das Cruzes para para ver o trem passar, a cada três, quatro minutos, em média, em tempos normais e nos horários de pico, desde Jundiapeba e Braz Cubas, passando pelas cancelas das avenidas Valentina Mello Freire Boresntein, no acesso à Vila São Francisco, e Cavaleiro Nami Jafet, na Vila Industrial. A partir desse ponto, houve a supressão de duas passagens de nível, com a execução do Complexo Viário Jornalista Tirreno Sa San Biagio, nas ruas Cabo Diogo Oliver e Dr. Deodato Wertheimer - mas, nesse ponto, ainda ficou um pecadilho: pedestres ainda não contam com uma boa estrutura para passar por ali.

Após a derradeira Estação Estudantes, a antiga cancela é acionada para o tráfego de trens de carga em frente ao shopping, em César de Souza e Sabaúna.

Sobretudo a partir dos anos 1990, a cidade começou a reivindicar, de modo mais objetivo, solução para o atraso social e econômico que a passagem dos trens acaba por provocar no dia a dia das pessoas e no escoamento da produção agrícola e industrial.

Foi construída a primeira passagem subterrânea, entre o Shangai e Mogilar, e mais recententemente, a segunda, na região central. 

E só. A busca pelos viadutos da Vila Industrial e de Jundiapeba é verdadeiro espinho no desenvolvimento urbano do Município, com lances como o lançamento de um edital para a concorrência pública, em setembro de 1990, por meio do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), suspenso posteriormente, sem ter sido retomado deste ponto em diante.

O que se teve após isso foi a conquista dos projetos executivos, com a colaboração da Prefeitura. O x dessa questão é que passou tanto tempo que a mecânica da cidade mudou: seriam esses pontos a prioridade hoje, ou a região do Nova Mogilar, para sustentar o crescimento de corredores urbanos e do trânsito carregado?

Além destas passagens de nível, há de se lembrar as de César de Souza e de Sabaúna, vetores do crescimento futuro do município.

Sem sanar esse passivo da mobilidade, a ideia de se construir 7 viadutos, um por quilômetro, na via perimetral, soa como afirma o secretário municipal de Planejamento, Claudio de Faria Rodrigues, como algo bizarro e impróprio para este momento.

Condições climáticas  e econômicas, e o comportamento das pessoas miram meios de transporte individuais (bicicleta) ou coletivos (trem, ônibus) para preservar a saúde do indivíduo e das cidades. Mas, isso, parece ser desconsiderado pelos planejadores do Governo do Estado. “As cidades são mais compactas, com menos trânsito e locomoção”, assegura Rodrigues.

O que o Estado quer

O projeto de concessão das rodovias litorâneas prevê a instalação de pedágio na rodovia Mogi-Dutra, pouco depois da praça de cobrança da rodovia Ayrton Senna. Mogi lançou, desde 2019, o Movimento Pedágio Não, que ganhou apoio da Prefeitura de Mogi e de outras cidades do Alto Tietê. 

Engenharia constrói uma armadilha

A concepção de uma via expressa no distrito de Braz Cubas, com a criação de um atalho para a viagem até o litoral, é oposta ao futuro planejado para Mogi das Cruzes, com foco na relação entre o cidadão e o mobiliário urbano e viário. Essa é a posição do mogiano e arquiteto Claudio de Faria Rodrigues, responsável novamente pela Secretaria Municipal de Planejamento, contra a subtração de uma parte de Mogi para viabilizar a concessão do litoral.

Rodrigues trabalha há 20 anos na Prefeitura. Para ele, a cidade não deve permitir a construção do que vai segregar moradores e dividir a cidade em duas partes, numa região qualificada com serviços públicos e negócios, a partir da construção da via perimetral.

Esse trecho possui 25 equipamentos públicos (18 na Educação, 4 de Saúde), que passarão a depender do trânsito para garantir o acesso da população. Está ali ao lado, praticamente, o complexo hospitalar criado pelo Hospital de Braz Cubas, e outros elementos, como o Largo da Feira, o Sesi e o comércio em expansão.

“Essa fria engenharia buscou atender a viabilidade financeira e econômica (da concessão), sem levar em consideração o isolamento que a via expressa e os viadutos propõem. A engenharia moderna serve as pessoas, incentiva o ciclismo, cria conexões estratégicas para uma cidade mais centralizada, com espaços verdes e sustentáveis, não o contrário disso”, reforça. Outro fator negativo é a degradação no entorno dos viadutos.

Rodrigues vê na reação da sociedade e do governo municipal o impeditivo para esse estudo vingar. “São intervenções de peso, com impacto no sistema viário, na vida de milhares de pessoas e de empresas, e que dependem da colaboração e de autorização da Prefeitura. Não há como endossar o que mais parece uma armadilha, passa-moleque a Mogi, como se a cidade fosse ingênua, e não soubesse que esse projeto é bizarro, é uma armadida feita por uma engenharia financeira e de exploração (ao município)”.

Um balde de água fria, com a partilha da cidade, seria jogado na projeção para o desenvolvimento na região da avenida das Orquídeas, entre Braz Cubas e Jundiapeba, com a modernização, inclusive, do acesso ao transporte ferroviário. “O que a cidade espera é a melhoria da Estação de Braz Cubas, e havia a ideia de nova localização. Isso seria deixado para trás”, lamenta. 

Uma aposta sem ouvir o município

O secretário municipal de Planejamento, Claudio de Faria Rodrigues, afirma que em nenhum momento, na última gestão (Marcus Melo-PSDB) e nesta (Caio Cunha-Pode), a Prefeitura participou, por meio de sugestões e indicações, da montagem do plano que prevê o uso de avenidas municipais pela concessão das rodovias litorâneas.

Ele conta que em reuniões, de gabinete, quando apresentada essa prospecção, o governo municipal deixava claro que “a concessão não representava os interesses de Mogi, e do Plano Diretor”.

Nessas oportunidades, segundo afirma, a posição era contrária às interferências que a medida trará nos aspectos sociais, viários, econômicos e ambientais. “Mogi das Cruzes quer potencializar a mobilidade das pessoas, fortalecer os serviços e negócios locais. Uma via expressa, com todos esses viadutos, vai dividir a cidade, sem contar com o tamanho das desapropriações em uma área de muitos negócios e serviços”. 

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