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Romeiros de Mogi chegam à Basílica de Aparecida

Grupo integrado por 220 pessoas caminhou às margens da Via Dutra durante os últimos três dias para homenagear Nossa Senhora Aparecida. Veja vídeo dos peregrinos

Darwin ValentePublicado em 12/10/2021 às 14:10Atualizado há 5 dias

O grupo de 220 romeiros de Mogi das Cruzes e Jacareí chegou, na manhã desta terça-feira (12), a Roseira, cidade localizada à margem da rodovia Presidente Dutra, derradeira parada para descanso, antes de alcançar Aparecida, onde deverão estar por volta de 16 horas, para acompanhar a missa do final da tarde, na Basílica de Nossa Senhora Aparecida.

Exaustos, muitos deles com bolhas e calos nos pés, alguns integrantes da romaria estão se valendo dos veículos que dão suporte à viagem para conseguir vencer os últimos 20 km da jornada que começou a 1 hora da manhã do último domingo (10), no distrito de César de Souza e seguiu margeando a Dutra até a região do Vale do Paraíba onde se localiza Aparecida.

Por volta de 10 horas, os romeiros liderados por Geraldo Ramos Moisés - um antigo funcionário da Komatsu, que faz a viagem pela 14ª vez -, descansavam na espaçosa área do Posto Arco Íris, já bem próximo da cidade-santa, enquanto se preparavam para receber o almoço que viria de Mogi das Cruzes, a exemplo do que aconteceu desde o início da caminhada de fé em homenagem à Nossa Senhora Aparecida.

Entre os romeiros novos e antigos, estava o já veterano arquiteto mogiano, Paulo Pinhal, que participa pelo oitavo ano da viagem até Aparecida. Uma busca pelas imagens de fé, que ele começou a procurar depois que sua neta Ana Elisa, de 6 anos, venceu um câncer, sem que ele nada tenha pedido. Ele passou a fazer as viagens para registrar as demonstrações de fé colhidas ao longo do trajeto.

E elas foram muitas, durante toda a caminhada. Pinhal viu pessoas concentradas o tempo todo na reza do terço para Nossa Senhora, que não conversavam com ninguém, ao longo de todo o trajeto. Também testemunhou a presença de um senhor, já nos seus 70 anos, que mesmo sendo veterano de viagens como esta, não suportou o enorme ferimento num dos pés, resultado da caminhada sob a chuva intensa da última segunda-feira (11), no trecho entre Taubaté e Roseira. O restante da viagem fará no interior de um dos quatro ônibus e três vans que transitam ao lado dos romeiros justamente para dar sustentação aos que não suportam ferimentos causados por calçados inadequado, torções de tornozelo, muito comuns nessas viagens, ou quem não suporta mais o cansaço e precisa de um descanso extra. As viaturas ajudam no abastecimento do grupo com água, sucos e frutas ao longo do caminho, onde também são encontrados postos de apoio aos romeiros, onde devotos da Santa Aparecida distribuem alimentos aos que passam, gratuitamente.

Histórias não faltam ao longo do trajeto, como a do senhor que veio de Goiás em direção a Aparecida, calçando apenas meias nos pés. O estoque trazido por ele era gigantesco, pois ia trocando as meias à medida que o asfalto consumia as que estavam em uso. Pinhal também testemunhou o esforço de um grupo originário de Santo André, no ABC paulista, que trazia um andor sobre as costas dos peregrinos, com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Nada disso se compara ao sacrifício do mogiano, Marcos, violeiro e cadeirante, que decidiu encarar a viagem e sofreu muito com os calos nas mãos, resultado da necessidade de frear a cadeira em descidas mais íngremes. Sem luvas, ele continuava seu trajeto, apesar das dores resultantes das paradas forçadas durante o trajeto.

Lotação máxima

Ao longo de oitos longos anos, Pinhal já sabe que cada peregrinação é diferente da anterior. O grupo, por exemplo, não contava com a chuva, fraca porém intermitente, que caiu durante boa parte da última segunda-feira, acompanhada de fortes ventos, que dificultaram muito a caminhada pela margem da Via Dutra.

Mas emoções não faltaram, desde que o grupo deixou César de Souza, na madrugada de domingo. Eles caminharam 70 km no primeiro dia, até São José dos Campos, no Vale do Paraíba. Apesar dos perigos, a opção pela Via Dutra visava facilitar os pernoites em hotéis, pousadas ou pensões previamente avisados sobre a estadia dos romeiros

No segundo dia de viagem, foram mais 42 km até Taubaté, onde o grupo lotou pelo menos cinco hotéis da cidade, segundo o relato de Pinhal.

No terceiro e último dia, o grupo esperava caminhar mais 40 km, antes de chegar à Basílica.

Boa parte do trajeto alguns cumpriram durante o período noturno, quando a estrada ficava menos movimentada e, portanto, menos perigosa e a temperatura mais amena facilita a caminhada.

“É curioso que muitos veteranos caminham de sandálias do tipo havaianas e não têm problema algum, enquanto outros novatos, que usam tênis e meias especiais para caminhadas acabam sofrendo com os calos e bolhas”, conta Pinhal.

Sementes de girassol

Em sua oitava viagem, o arquiteto mogiano decidiu que precisava fazer algo para lembrar as mais de 600 mil vítimas da pandemia de Covid-19 registradas em todo o País, até agora. Ele então conseguiu 600 mil sementes de girassol, planta cuja flor é também símbolo da vida, para semear ao longo de todo o trajeto, especialmente da Via Dutra.

Ele começou sozinho, mas logo viu que era uma tarefa grande demais para ele conseguir concluir. No meio do caminho, ele decidiu envolver outras pessoas do grupo e ficou impressionado com a receptividade que sua ideia obteve dos demais romeiros. Logo os sacos de sementes que ocupavam parte de uma das vans, passaram a ser procurados por outras pessoas que seguiam o gesto do mogiano, plantando os girassóis à margem da Dutra.

Até a manhã de ontem, 500 mil sementes já haviam sido semeadas pelos romeiros aliados de Pinhal. O restante seria plantado ao longo do trecho final entre Roseira e Aparecida, até as proximidades da Basílica Nacional.

Pinhal está esperançoso de que os girassóis venham a crescer ao lado da rodovia, como símbolos da vida, num período de muita tristeza e mortes causadas pela pandemia.

Para isso, Pinhal pretende enviar um requerimento à NovaDutra, concessionária que cuida da rodovia Presidente Dutra, solicitando que, durante os serviços de limpeza, normalmente realizados às margens da via, os girassóis que nascerem sejam preservados. “Vou pedir que oficializem o girassol como a planta oficial da estrada, para que eles venham a enfeitar o caminho e para que as pessoas que passaram pela rodovia, ao verem essas flores, se lembrem das vítimas que faleceram durante a pandemia”, afirmou o arquiteto mogiano.

A chegada

Logo após o descanso, na área do Posto Arco-Íris, o grupo de romeiros pretendia viajar até um posto abandonado, alguns quilômetros à frente, na direção de Aparecida, onde aguardariam a chegada do almoço. Depois da comida e antes da arrancada final para chegar até a Basílica, o ritual da colocação das camisas personalizadas com os símbolos da romaria, que deverão marcar o ingresso deles na igreja para uma das missas do período da tarde, entre 16 e 17 horas.

Antes disso, no entanto, no enorme páteo externo da igreja, o grupo irá se reunir, num grande círculo, para orar e agradecer a chegada que, espera-se, corra sem acidentes, como tantos que vitimaram romeiros durante este ano, ao longo da Via Dutra.

O grupo deverá repetir o mesmo ato de anos anteriores. Os agradecimentos ficarão por conta do organizador, Geraldo Ramos Moisés, que também deverá puxar as orações que serão seguidas pelos demais companheiros. De mãos dadas, os romeiros darão mais uma demonstração de fé, antes do ingresso triunfal do grupo na Basílica, quando todos poderão fazer suas próprias orações e agradecimentos à padroeira, prometendo, certamente, o retorno no próximo ano.

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