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SAUDADE

Professora publica foto de túmulos abertos em cemitério para alertar sobre a Covid-19

Artista plástica, Eladia Natali perdeu a mãe e a avó neste ano para a doença, e se surpreendeu com a abertura de mais covas no Cemitério da Saudade

Eliane JoséPublicado em 09/06/2021 às 09:20Atualizado há 6 dias
Reprodução/Eladia Natali Lima
Reprodução/Eladia Natali Lima

Desde o domingo (6), por detrás da fotografia que passou a circular nas redes sociais e em alguns sites de jornais, com a imagem de uma série de túmulos recém-abertos no Cemitério da Saudade, está uma história comovente da professora de artes Eladia Natali Lima. Ela publicou a imagem para fazer um alerta sobre a gravidade da Covid-19. 

"Essa é a situação do Cemitério Municipal da minha cidade, Mogi das Cruzes. Estão usando as ruas de acesso aos túmulos, para túmulos. Que situação!". Com a apresentação, Eladia conta que a ideia de compartilhar a fotografia era fazer um alerta a quem ainda não acredita na Covid-19, e no número de mortes registradas na pandemia.

Mogiana que reside na Vila Pauliceia, no Distrito de César de Souza, ela sente na pele o desastre familiar surgido com a pandemia. Aliás, Eladia mesmo se recupera da infecção, que a deixou em casa, durante mais de um mês.

Em janeiro deste ano, após uma infecção urinária, a mãe da artista, Marlene Mendes Guimarães, contraiu o vírus. Servidora pública aposentada, Marlene, de 66 anos, teve complicações graves porque já tratava de uma asma. Foi internada na Santa Casa e, posteriormente transferida para um hospital conveniado ao Iamspe, no bairro da Mooca, em São Paulo. Ali, ela permaneceu durante 13 dias, até falecer.

A mogiana também perdeu a avó paterna, Francisca Lopes Pereira de LIma, a dona Quinha, de 84 anos, e residente na Vila Oliveira. Ambas tiveram a Covid-19.

"Eu fiquei durante um ano sem visitar a minha avó, porque tinha medo de levar até ela o vírus. Agora, se Deus permitir, um dia, somente a encontrarei em outro plano", emociona-se.

A essas perdas, no final de semana, se somou a morte da Therezinha Aparecida Boss, mãe da nora de Eladia, que foi enterrada no domingo, no Cemitério da Saudade.

No caso de Therezinha, a Covid não foi confirmada. Ela teve um infarto, mas os protocolos do sepultamento seguiram os da doença, que já matou em Mogi das Cruzes mais de 1,2 mil pessoas.

Foi durante o sepultamento que Eladia viu a nova série de covas abertas entre os antigos corredores do Cemitério da Saudade. "Esses túmulos são abertos porque o número de mortes continua alto, tanto de Covid, quanto de outras doenças. Aliás, acho que a Prefeitura precisa encontrar, e rápido, uma solução, porque para fazer os enterros, os familiares precisam passar por cima dessas sepulturas, porque elas estão no caminho das pessoas. É uma situação, muito triste", diz, acreditando que uma alternativa seria a adoção de um cemitério vertical, por exemplo.

Com o post, e os compartilhamentos, inclusive em órgãos de imprensa, Eládia deseja conscientizar quem não enfrentou a Covid, e nem perdeu parentes para a doença. "Quem teve a doença, como eu tive, e fiquei mais de um mês, em casa, tratando porque não queria ir para o hospital, com medo da intubação, vai ver como o cemitério está, com muitos túmulos frescos, com coroas de flores, novas e já secas, o que mostra que essa situação ainda é preocupante. Coloquei no 'face" porque pensei em mostrar o que está acontecendo em Mogi, com a nossa casa, é uma situação caótica".

Desde o ano passado, a Prefeitura de Mogi das Cruzes redimensionou o uso do espaço interno do Cemitério da Saudade, para atender à alta demanda por sepultamentos

Dor e desespero

Eladia conta que tem preferido, quando precisa sair, usar carros de aplicativos, porque se sente mais segura. Nesta semana, no entanto, por falta de sinal de telefone, ela usou o ônibus. "É uma situação perigosa poque o ônibus estava cheio, e a gente não sabe quem tem a Covid, e quem não tem. As pessoas ficam muito próximas, porque os coletivos andam superlotados".

Aos 42 anos, a artista plástica que também é cantora, está perto de ser vacinada. Ela acredita que somente após a ampla vacinação, os cuidados para prevenir as aglomerações poderão ser suspensos. 

"Quando minha mãe morreu, e eu tive, mesmo com a Covid, ir para São Paulo, quando estava no carro funerária, na região dos Jardins, na Capital, eu vi aquelas casas noturnas cheias, como se não houvesse uma pandemia. Uma hora, o carro parou ao lado de um outro carrão, bem caro, que nem sei o nome, e eu abri a janela e não me conformei: eu disse: enquanto vocês estão aí, sem cuidados, eu estou com o corpo da minha mãe neste carro. Eu também falei: 'a vida não é só alegria, pensem nisso'. Infelizmente, há muitas pessoas que ainda não se conscientizaram sobre o fato de que a doença pode atacar, inclusive, as pessoas jovens", diz a autora da foto.

  

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