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Pesquisador, Gustavo Pacca foi um dos pioneiros "caçadores" de DNA no Brasil

Em dezembro de 2014, a O Diário o biomédico contou histórias da academia e de Mogi das Cruzes à jornalista Carla Olivo

O Diário
16/10/2022 às 16:29.
Atualizado em 17/10/2022 às 08:47

Gustavo Pinto Pacca foi professor e diretor nas universidades de Mogi até o final da década de 1990 (Arquivo Pessoal)

O biomédico Gustavo Julio Pinto Pacca, que morreu neste domingo (16), aos 72 anos, acompanhou diferentes fases do passado recente de Mogi das Cruzes, atuando como professor e pesquisador na Universidade de Mogi das Cruzes, e também na Braz Cubas, até 1999, quando deixou a academia para trabalhar, em várias cidades brasileiras, como consultor e especialista em sistemas de qualidade ISO e ONA em serviços de hospitalares, de saúde e outros.

O velório dele está acontecendo no Cristo Redentor, na Vila Oliveira, e o enterro será às 13h30, desta segunda-feira (17), no cemitério São Salvador.

Em dezembro de 2014, aos 64 anos, entrevistado pela jornalista Carla Olivo, Gustavo Pacca foi destaque da série Entrevistas de Domingo, publicada por O Diário, onde contou como Mogi das Cruzes se projetou em pesquisas sobre o DNA e no Centro de Investigações de Crimes Sexuais (Cics), mantido na UMC. 

Com mente privilegiada, falou de diferentes momentos da vida cultural e social da cidade e do convídio com dezenas de amigos, professores e estudantes.

Pos-graduado nos Estados Unidos, ele esteve ao lado do médico Wilmes Roberto Gonçalves Teixeira, quando o Cics despertou o interesse da imprensa brasileira e destacou o nome da universidade mogiana pela inovação e pesquisa.

Gustavo Julio Pinto Pacca morreu neste domingo, e deixou a mulher, também professora, Sandra Pacca, as filhas Samantha e Sabrina, e os netos Matheus e Jorge (veja reportagem).

Confira, a seguir, a íntegra da entrevista de Gustavo Pacca:

O biomédico Gustavo Julio Pinto Pacca nasceu na Capital, mas se considera “mogiano de coração”, já que com apenas 3 anos de idade veio com a família para a Cidade. O pai, Julio de Castilhos Pinto Pacca, que era fiscal de rendas, foi transferido para cá, mas logo faleceu. Com isso, a mãe, Paulina Silva Pinto Pacca, passou a trabalhar na Coletoria Estadual, em Poá. Gustavo iniciou o primário no Grupo Escolar Coronel Almeida e o concluiu no Liceu Braz Cubas, onde também estudou o ginasial. Em seguida, fez o Curso Científico no Instituto de Educação Dr. Washington Luís e a Faculdade de Biomedicina da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), se formando na turma de 1975. Um ano depois, iniciou a carreira como professor universitário, chegando a decano do Centro de Ciências Biomédicas. Também ocupou cargos administrativos e atuou no Centro de Investigações de Crimes Sexuais (Cics), que ganhou projeção internacional na década de 90. Fez pós-graduação lato sensu em Análises Clínicas e estágios em Biologia Molecular e uso de DNA para investigação de crimes, na University of Califórnia (Berkeley), John Jay College of Criminal Justice - City University of New York e Gene Screen Inc. (Dallas). A trajetória profissional é marcada ainda pela atuação no Laboratório de Análises Clínicas Bonelli, que chegou a dirigir, e na Universidade Braz Cubas (UBC), onde implantou os cursos de Farmácia, Enfermagem, Fisioterapia e Radiologia, participou dos trabalhos para conquista da certificação ISO 9000 e fez parte do projeto de Educação a Distância (EAD). Pacca, que também foi diretor da Setorial de Laboratórios de Análises Clínicas e Diagnósticos por Imagem da Associação Comercial de Mogi das Cruzes (ACMC), atualmente trabalha como auditor na área de sistemas da qualidade ISO e ONA. Na entrevista a O Diário, ele conta suas histórias:

Quais as lembranças de sua infância?
Nasci na Capital, mas aos 3 anos vim com meus pais e irmãos (Felicidade Rosa e Jaime) para Mogi das Cruzes. Meu pai era fiscal de rendas e foi transferido para cá, mas logo morreu. Então, minha mãe foi galgada ao cargo de coletora da Coletoria Estadual, em Poá. Lá, ela trabalhou até 1969, quando faleceu. Por causa da morte do meu pai, minha infância foi difícil, mas como era o caçula, minha mãe e meus irmãos me pouparam bastante. Nesta época, morávamos na Rua Engenheiro Eugênio Motta, em frente a um terreno cheio de mato, onde depois foi construída a Samed. Já no local do posto de saúde, jogávamos bola e fazíamos guerra de mamonas. Era uma época boa, em que as crianças brincavam livremente com os vizinhos na rua.

Onde o senhor estudou?
Comecei o primário no Grupo Escolar Coronel Almeida e o conclui no Liceu Braz Cubas, que funcionava no prédio da Rua Francisco Franco, onde também fiz o ginásio. Após um ano de curso preparatório, na esquina das ruas Tenente Manoel Alves e Adhemar de Barros, ingressei no Ginásio do Estado (hoje Escola Estadual Dr. Washington Luís), onde fiz o Curso Científico. Nesta época, também estudavam na escola, o Chico Ornellas (Francisco Arouche Ornellas), Milton Feliciano, Silvia Toledo, Vera Boratto, Tininha Muniz, entre outras. Durante pouco tempo, participei dos ensaios no início do TEM (Teatro Experimental Mogiano), quando a Enádia e o Glauco faziam parte do grupo. Disputei a Brascol, uma competição acirrada entre alunos do Washington Luís e do Liceu, no time de futebol de salão, e também os Jogos Estudantis, contra outras cidades, nos quais participava no atletismo, em corridas. Gostava de provas como 100 metros rasos e salto à distância.


Ficaram mais recordações desta época?
Em 1969, estava terminando o Científico e o Tiro de Guerra, ainda no Largo Bom Jesus, que era de terra. Dois anos antes, tinha trabalhado com o Claudio Abrahão fazendo plantas de casas e contei isso ao sargento Antônio Mendes. Comecei a elaborar algumas tabelas e, juntos, fizemos a planta do novo Tiro de Guerra, que poderia ser construído na área da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) ou no Mogilar, onde está. Este projeto inicial foi levado ao então prefeito Waldemar (Costa Filho), que ficou entusiasmado e escolheu o imóvel do Mogilar. Fico triste de ver que hoje o Tiro de Guerra não tem a importância que deveria, com seu espaço dividido com outros encargos da Prefeitura.


E depois do curso Científico?
Em 1970, fui fazer o cursinho Objetivo, em São Paulo, já que Mogi ainda não tinha cursos deste porte. Havia um grupo que foi para lá, formado por Sebastião Dominguez, da Casa Doxa, Walter Amorim, entre outros. Eu ficava em uma pensão, na Rua Condessa de São Joaquim, na Capital, onde morava o cantor Marcos Roberto, da Jovem Guarda. Aos finais de semana, voltava para Mogi, às vezes só com o dinheiro da passagem. Nesta época, minha irmã me ajudou muito. Lá, tínhamos professores como Heródoto Barbeiro, Drauzio Varella, Setsuo, Almir, entre outros de alto nível. No ano seguinte, ingressei em Biomedicina na Universidade de Mogi das CruzesUMC), com o objetivo de fazer o vestibular, em 1972, para Medicina, que era o curso que eu queria.


Por que o senhor mudou de ideia?
Logo fui tomando gosto pela profissão de biomédico e participava dos movimentos para regulamentá-la. Coincidentemente, fui apresentado pelo contador Walter Ferraz ao Pedro Bonelli, que tinha laboratório na esquina das ruas Dr. Paulo Frontin e Rodrigues Alves e me identifiquei com os trabalhos de análises clínicas. Ingressei lá aos 22 anos, com a proposta de arrumar o almoxarifado, fui me infiltrando nas áreas técnicas e aprendendo. Sempre acompanhava o pessoal da USP (Universidade de São Paulo) que o Pedro Bonelli trazia para cá. Fiquei lá até 1979, depois ainda voltei em 1988 para dirigir o laboratório, já na Rua Professor Flaviano de Melo, de onde saí em 1998. Um ano antes, realizamos a festa de 40 anos do Bonelli, no Clube de Campo, onde fizemos várias homenagens e lançamos a revista e o site do laboratório. Também em 1997, a Samed, da qual o Bonelli faz parte, adotou a praça em frente ao hipermercado D´avó e me envolvi bastante neste trabalho, sugerindo a construção de um monumento ao Dr. José Carlos Toledo e Pedro Bonelli, que dirigiam a Samed. Falei com o Lucio Bittencourt e assim nasceu a Pirâmide Humana, hoje um dos símbolos da Cidade, já que o centro urbano migrou para lá.


Quando teve início sua carreira como professor?
Sou da turma de 1975 de Biomedicina da UMC e, um ano depois, comecei a dar aulas lá, onde fui de professor a decano do Centro de Ciências Biomédicas ocupei cargos administrativos e atuei no Cics (Centro de Investigações de Crimes Sexuais), que surgiu como resposta da UMC à uma publicação da revista Veja, em 1990. O Padre Melo (Manoel Bezerra de Melo, chanceler), em uma festa da UBC (Universidade Braz Cubas), conversou sobre isso com o professor Mauricio (Chermann, reitor da UBC), que o aconselhou a falar com o Wilmes (Roberto Gonçalves Teixeira), professor em comum das universidades, para que viajasse aos Estados Unidos conhecer o trabalho com DNA para doenças pulmonares que o Rogério Tuma estava fazendo no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland.


De que forma surgiu o convite para o senhor fazer parte do Cics?
Desde 1974, eu já trabalhava para o Wilmes fazendo pesquisas, no Laboratório Bonelli e, então, quando surgiu a ideia do Cics, ele me convidou para ir com ele aos EUA e atuar nesta área laboratorial. Ficamos três meses e meio lá e realizamos viagens constantes de 15 a 10 dias para obter a tecnologia da época. Assim nasceu o Cics, com o objetivo de identificar criminosos estupradores pelo DNA, e oferecendo apoio psicológico às vítimas, no trabalho desenvolvido pela Cândida (Plaza Teixeira). O preparo levou um ano, montando laboratórios nos moldes americanos e produzindo data-base e o perfil da população brasileira de DNA para usar nos comparativos das provas que iríamos fazer.


Como era este trabalho?
Em abril de 1993, o delegado de Ilha Solteira viu uma publicação sobre o Cics na antiga revista Manchete, com o nome de ‘Caçadores de DNA’ e veio nos procurar com todo o material do estupro de uma moça de lá. Este foi o primeiro caso que solucionamos e gerou a exposição em vários programas, em todos os canais maldadede televisão, sem exceção. Foi o primeiro caso, na América Latina, de uso de DNA para identificar criminoso. O Cics durou 10 anos, período em que resolvemos 376 casos de pessoas que foram incriminadas ou inocentadas, com repercussão na mídia de duas horas e meia somadas de material de TV. Só no Jornal Nacional foram 47 minutos. Fizemos trabalhos para várias secretarias de Segurança, na Bahia, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Amapá, Rio Grande do Sul, entre outras. Era um serviço importante, que levou a tecnologia aplicada em favor da Justiça à população de Mogi e Região, mas custava caro e a UMC sozinha não conseguiu mantê-lo.


E seu envolvimento com a UBC?
Em 1998, o Dr. Motta (Benedicto Laporte Vieira da Motta), que foi presidente da Samed e estava na UBC, me convidou para criar os cursos de Farmácia, Enfermagem, Fisioterapia e Radiologia de lá. Até então, só havia Odontologia na área da Saúde, coordenado pela filha dela, a doutora Márcia. Com um grupo de professores, participei da conquista da certificação ISO 9000 e a UBC foi a primeira universidade do Hemisfério Sul a tê-la.


O que o senhor faz hoje?
Desde 1999, já trabalhava como auditor em sistemas de qualidade ISO e ONA (Organização Nacional de Certificação) de hospitais, clínicas e laboratórios, e fui me distanciando da área de ensino. Em 2005, me aposentei como professor universitário e continuei como auditor.


Quais são suas distrações?
Gosto de gastronomia, participo de sites, faço receitas interessantes que vejo e tenho o maior prazer de cozinhar para amigos e familiares. Outro hobby é a marcenaria, possuo máquinas automáticas e gosto de brincar de fazer armários e mesas, por exemplo. Adoro política e sou do diretório do PSDB, mas nunca quis sair como candidato.


Em quais regiões da Cidade o senhor morou?
Da Engenheiro Motta, onde ficamos até 1965, fomos para a Rua Duque de Caxias, atrás do Hospital Ipiranga. De lá morei em São Paulo para fazer o cursinho. Na volta, fui trabalhar no Bonelli e minha mãe morreu, então, morei em uma república no Pombal, com o Francisco Miguel Cury, que hoje é médico, e outros amigos que também eram estudantes na época, até me casar. Conheci a Sandra nos tempos de faculdade. Eu fazia Biomedicina, ela cursava Biologia e tínhamos algumas aulas em comum no prédio da Policlínica, ao lado da Santa Casa. Namoramos dois anos e nos casamos na Matriz (Catedral de Santana), em 17 de dezembro de 1975. Já casado, moramos no Mogi Moderno, em uma rua sem nome. Foi o Sylvio Pires, meu padrinho de casamento, quem pediu na Câmara que ela fosse nomeada como Julio de Castilhos Pinto Pacca, em homenagem ao meu pai. Fiquei lá 15 anos e no final da década de 80, fui para a Vila Oliveira, primeiramente para a Rua Joaquim Martins Coelho, onde ainda havia terrenos disponíveis para construção, e depois para a Rua Campos Vergueiro, onde estou.


H á mais lembranças da Mogi?
O ponto de encontro da juventude era o Café Michel, onde havia um sanduíche famoso. Nos anos 60 e 70, também existiam boliches em Mogi, sendo que um deles ficava na Rua Dr. Ricardo Vilela, em frente ao prédio de O Diário, e o outro era na Praça da Bandeira. Também frequentávamos os cinemas, principalmente o Urupema, que era da família Mello Freire, e Avenida, que pertencia aos Jungers. Eles disputavam entre si para trazer os melhores filmes a Mogi e, na época, os telejornais eram assistidos na tela do cinema, antes da exibição dos filmes, no chamado Canal 100. Os universitários também agitavam a Cidade, com várias festas, mas sem qualquer violência. Em frente ao Hotel Binder havia uma fonte luminosa, onde jogávamos sabão em pó e dançávamos com vassouras para fazer bastante espuma. Também ia aos bailes do Itapeti Clube, já que meu cunhado, Sebastião Miguel, conhecido como Sebastião Turco, era presidente de lá. Ele gostava do Orlando Silva e do Nelson Gonçalves, então, uma vez, o acompanhei a São Paulo, onde o Nelson estava participando de um programa da TV Record, comandado pela Elizeth Cardoso, a fim de convidá-lo para fazer show em Mogi.


E os carnavais?
Os carnavais do Itapeti, Vila Santista, Náutico e Clube de Campo eram excelentes. Já o Carnaval de rua tinha blocos como Ki-Ka-Lôr e Ki-Frio desfilando pelas ruas. Uma vez, saí em um deles, com um grupo de amigos, formado por Airton Nogueira, Ado (José Eduardo Cavalcanti Teixeira), entre outros, parodiando as escocesinhas da fanfarra e usando até peruca. Naquele tempo, lança-perfume era usado apenas para espirrar nos outros, sem maldade.


O senhor teve envolvimento em outras atividades em Mogi?
Em 1995, presidi o Rotary Clube Mogi das Cruzes - Centro, onde atuei 7 anos. Já em 1998, fui diretor da Setorial de Laboratórios de Análises Clínicas e Diagnósticos por Imagem da Associação Comercial, na gestão do José da Silva. Apesar de não ser mogiano de nascença, adotei Mogi como minha terra natal. Tenho lembranças de pessoas excelentes com as quais convivi aqui, como Álvaro de Campos Carneiro, Dr. Motta, José Limongi, Álvaro Hagaini, Pedro Bonelli, Jamil Karam, Tote (Tirreno Da San Biagio, diretor-responsável de O Diário), entre outros.

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