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DESPEDIDA

Padre Alessandro relembra a vida ao lado de "vó Joana"

Muitos momentos de emoção foram vividos ao lado de “vó Joana”, antes e depois de sua morte

Darwin ValentePublicado em 19/11/2021 às 17:33Atualizado há 10 dias
Dora Santos/Igreja na Mídia/Divulgação
Dora Santos/Igreja na Mídia/Divulgação

Para os que creem em Deus, a vida não é tirada, mas transformada; e desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado um corpo imperecível. Os ensinamentos de prefácio dos fiéis defuntos, contidos no Missal Romano, foram as únicas coisas que passaram pela cabeça de padre Alessandro Campos, ao permanecer, por algum tempo, junto ao caixão de sua avó, Joana Miguel, durante a missa de corpo presente celebrada pelo bispo dom Pedro Stringhini, na última quarta-feira (17), na igreja de Nossa Senhora Aparecida e São Roque, no distrito de Braz Cubas.

Aos 96 anos, “vó Joana”, como era conhecida pelos amigos e seguidores do padre cantor, havia falecido na véspera, no início da noite, no Hospital Santana, onde estava internada devido a complicações originárias de duas doenças perigosíssimas, diabetes e mal de alzheimer. Nos últimos dias, ela vinha sofrendo com infecções urinária e pulmonares, que agravaram ainda mais suas condições físicas, agravadas também pela idade bastante avançada.

O neto Alessandro diz que não conseguiu tirar do pensamento as lições do Missal Romano, mesmo quando, chorando muito, relembrou, aos pés de “vó Joana”, os versos de Rio Pequeno, moda de viola das antigas, que ela gostava de duetar com o religioso sempre que estavam reunidos em casa ou até na televisão.

Não houve pedidos de perdão ou de desculpas, muito comuns em situações como aquela. “Estava absolutamente tranquilo que fizemos por ela tudo o que tinha de ser feito”, dizia ele, ontem, a este jornal, sabedor de que Deus faz as coisas certas no seu tempo. 

O corpo de “vó Joana”, seria sepultado após duas missas, na presença de quase uma centena de familiares, entre nove filhos e dezenas de netos e bisnetos, no Cemitério de Braz Cubas, bairro onde ela viveu a maior parte de sua existência. A avó querida se foi, mas deixou recordações inesquecíveis, a principal delas no dia da ordenação de Alessandro, quando coube a ela e à mãe, Marlene, desamarrarem das mãos recém-ungidas do novo padre, dando-lhe o primeiro beijo, uma cena que o emociona, toda vez que se lembra dela.

“Recebi uma dose dupla de amor: da mãe e avó juntas. Um momento realmente marcante”, lembra o religioso, que chorou copiosamente abraçado às duas mulheres. Joana, sempre durona, acabou sucumbindo às lágrimas, certamente recordando todo apoio dado por ela ao menino que costumava surrupiar suas camisolas e transformá-las em batinas para celebrar suas missas imaginárias, onde o vinho do ofertório era groselha misturada com água. A “vó Joana” foi sempre a grande incentivadora. 

Mas junto com recordações  emotivas, como essa, padre Alessandro também guarda  as muitas lições deixadas pela mulher que o criou, desde menino, quando sua mãe teve de trocar a vida relativamente tranquila de Mogi pela cozinha de um restaurante industrial de Valença, no Rio de Janeiro, onde produzia “quentinhas” para alimentar funcionários do DNER que trabalhavam na recém-inaugurada Rodovia Presidente Dutra.

“Ela me ensinou valores éticos, morais e religiosos, a ser um homem de palavra, que pobreza não é defeito e que dinheiro é consequência de se fazer as coisas certas, colocando sempre Deus na frente de tudo”, conta padre Alessandro, ao revelar algo muito próprio de sua família, sob a liderança de “vó Joana”. Logo após o sepultamento, já caminhando para o final da tarde, 85 parentes se reuniram em um restaurante de Braz Cubas para o almoço. As lembranças da matriarca logo antecederam momentos de choro intenso, entremeados por músicas caipiras que Joana gostava de cantar com seus irmãos, tios de padre Alessandro. O encontro, espécie de catarse coletiva, cheio de muitas lembranças, se estendeu até por volta das 19 horas, quando, conclamados pelo religioso, todos rumaram para a casa onde a avó morou boa parte de sua vida. Lá, as recordações guardadas em cada canto da casa embalaram novas canções, muito choro e um arroz à moda carreteiro, tudo como Joana gostaria que fosse.

“Quem não conhecesse a nossa família poderia achar estranho tudo aquilo. Mas foi a nossa derradeira homenagem a  ela, numa casa onde ela, por inúmeras vezes, transformava simples encontros em motivos para grandes comemorações e festas. Parecia até que nossa avó estava ali, junto conosco”, conta padre Alessandro, que deixou Braz Cubas por volta de meia-noite e, exausto pela correria dos últimos dias, se jogou na cama, em sua própria casa. E antes de pegar no sono, agradeceu: “Obrigado Deus, por tudo  o que aconteceu neste dia. Amanhã, serei outro homem, sempre espelhado nos ensinamentos que minha vó me deixou. Deus levou de volta a joia mais preciosa que Ele nos deu”. 

Perto de sua cama, ainda repousava o exemplar de uma antiga Bíblia Sagrada, que Joana, apesar das dificuldades, decidiu que iria ler, mesmo que fosse por partes, buscando vencer os verdadeiros apuros de quem deixou a escola cedo demais para cuidar da família.

No livro de capa amarelada pela ação do tempo, ela marcava com um pingo de tinta da caneta esferográfica, o ponto onde havia  terminado de ler.

Os sinais da insistência de “vó Joana” ainda continuam na velha Bíblia. Diante dos filhos e netos, ela costumava dizer que quando terminasse de ler o livro sagrado iria morrer em paz consigo mesma.

O mal de alzheimer chegou antes da metade da Bíblia, que acabou esquecida por conta do apagão provocado pela doença. O neto voltou a lembrar da avó com um sorriso. E dormiu pensando nela.

 Hábito de religiosa

33 terços todos os dias

Antes que os efeitos do alzheimer a fizessem voltar a ser criança, dona Joana Miguel tinha por hábito rezar 33 terços a cada dia, cada um deles dedicado a alguém em especial. Da relação faziam parte desde familiares, até o papa, o bispo e outros religiosos. Ela tinha todos os nomes na ponta da língua. Quatro deles eram rezados de forma especial para os netos  Alessandro, Alessandra, Daiane e Jorgito. E ai de quem tentasse fazer com que ela rezasse menos. Joana dizia que era como se conversasse com Deus. E perguntava ao enxeridos: “Você só toma café ou come uma só vez ao dia? Eu não me canso de rezar porque gosto do que faço.”

 Lançamento de livro será na próxima quarta-feira, no Mogi Shopping

Em razão do falecimento de sua avó, Joana Miguel, aos 96 anos, na última terça-feira (16), o padre Alessandro Campos teve de adiar o lançamento de seu novo livro - “Aceita que Dói Menos”-, marcado inicialmente para quarta-feira passada (17).

A nova data já está marcada: será na próxima quarta (24), a partir das 14 horas, no Mogi Shopping, onde a Livraria Leitura irá promover quatro sessões de autógrafos de 30 minutos cada, em uma das salas do Cinemark, com capacidade para até 200 pessoas. Para participar, basta adquirir o livro na sede da Leitura, onde a pessoa receberá uma senha colorida. Cada cor corresponderá a um horário. Detalhe: serão disponibilizadas unicamente 800 senhas.

A Editora Globo, que produziu os mais recentes livros de padre Alessandro Campos, também já agendou novos lançamentos: no dia 1º de dezembro, no Shopping de Guarulhos, e no dia 8 de dezembro, em Campinas, onde também existem lojas da Livraria Leitura.

Com 150 páginas  recheadas de textos curtos e reflexões do padre  sobre 30 assuntos diferentes, tratados individualmente em cada capítulo, o livro que custa R$ 29,90, já é considerado um fenômeno de vendas pela editora que o lançou.

Concluído durante o início da viagem de padre Alessandro Campos pelo Caminho de Compostela, entre França e Espanha,  o livro teve sua pré-venda iniciada quando o religioso se despedia da cidade de Santiago. 

Segundo os números divulgados pela Editora Globo, em poder de padre Alessandro, o livro “Aceita que Dói Menos” já vendeu mais de 100 mil exemplares.

“Eles fizeram uma primeira remessa com 70 mil livros e, depois disso, tiveram de imprimir mais 30 mil, além de uma terceira tiragem cujos números ainda não recebi”, conta o padre, que já começou a preparar um novo livro, a ser lançado nos primeiros meses do próximo ano, onde irá contar detalhes inéditos de sua peregrinação pelo Caminho de Santiago de Compostela.

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