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NO LIMITE

Padre Alessandro recebe duras lições do Caminho de Santiago

Nas últimas horas, o religioso certamente deve ter aprendido que é preciso respeitar os limites impostos pelo seu próprio corpo e pelo cansaço

DARWIN VALENTEPublicado em 21/10/2021 às 08:55Atualizado há 2 meses

O Caminho de Santiago começa a dar algumas lições mais duras ao padre Alessandro Campos, antes mesmo dele e seus dois acompanhantes atingirem a metade do caminho até a Catedral de Compostela, na região da Galícia, a noroeste da Espanha. Nas últimas horas, um ensinamento aprendido da maneira mais difícil: o do respeito aos limites do próprio corpo.

Após notar um atraso na caminhada, o religioso decidiu apertar um pouco mais o passo, desde que saiu de Burgos, no início desta semana. No final da tarde de terça-feira, as mais recentes fotos e vídeo da viagem mostravam o padre exausto, deitado num trecho de estrada, sendo incentivado pelos companheiros a se levantar para acabar de chegar até Leon, o que foi alcançado às duras penas, no início da noite.

Ontem, após um sono reparador, padre Alessandro Campos voltou à estrada e após mais um dia de caminhada, simplesmente caiu na cama do albergue e não se levantou nem mesmo para escolher as fotografias e vídeos a serem divulgados para as pessoas que acompanham sua viagem por meio deste jornal. 

“O padre chegou e, morto de cansaço e já caiu na cama dormindo. Não há como arrancar alguma coisa dele hoje”, disse, pelo zap, um dos seus companheiros de viagem.

A questão dos limites já vinha dando sinais ao religioso, desde o final de semana passado, quando ele gravou um longo depoimento reproduzido na edição impressa deste jornal e transformado em um podcast levado ao ar pelo site, logo transformado em um dos muitos campeões de audiência postados ao longo da viagem.

Em seu depoimento, ao comentar os ensinamentos do Caminho de Santiago, até agora, o padre disse ter aprendido “que precisamos de muito pouco para sermos felizes”.

“No decorrer do caminho, a mochila vai pesando e você vai tirando coisas da mochila e jogando fora. Para que eu preciso disso? E você vai andando e aprendendo que na vida, a gente carrega muitos pesos que são desnecessários. E aí é preciso pensar e agir da seguinte forma: eu preciso tirar da mochila de minha vida esses pesos para ser feliz”.

Padre Alessandro contou então que começou a caminhada com a mochila pesando 15 quilos, a minha já está com nove quilos, a do Thiago está com oito e a do “Zum” vai chegar aos oito também.  “De fato, eu preciso só de uma cueca, de uma meia, de uma camisa, de uma calça e de uma blusa, porque você chega no albergue, lava tudo o que você sujou e amanhã vai usar de novo. Então, chega-se à conclusão de a gente carrega tantos pesos na vida que são desnecessários; são pesos que não lhe pertencem. Pare de carregar pesos que não lhe pertencem. Às vezes você está carregando cruzes em sua vida que não te cabem. Cada um tem de carregar o seu peso. Aqui ninguém carrega a mochila de ninguém. Cada um carrega a sua mochila; cada um carrega o seu peso. É assim que tem de ser a nossa vida, cada um carregando o peso  que é necessário, cada um carrega o peso que aguenta”.

Antes de encerrar a sua mensagem, padre Alessandro lembrou-se do fato de haver encontrado, durante a viagem, várias pessoas que haviam feito o Caminho de Santiago por mais de uma vez. Um deles contou-lhe que estava fazendo a caminhada pela quarta vez consecutiva. A reação do padre:

“Eu disse: mas, meu Deus, isso é gostar de sofrer demais. Eu estou fazendo pela primeira e será a primeira e última. Eu não faço mais. E a pessoa me dizia que era muito bom porque se descobre muita coisa. ‘Você vai ver mais pra frente”, essa pessoa me disse. Eu estou curioso para saber o que vai acontecer mais à frente, porque todo mundo fala isso. E eu estou nessa curiosidade de saber o que irá acontecer mais pra frente.”

O Caminho de Santiago é mesmo cheio de surpresas e lições. Bastou o padre caminhar um pouco mais “pra frente” e já aprendeu mais uma dura lição. Resta a ele tirar dela os ensinamentos que a viagem até Compostela costuma impor aos que se aventuram em completá-la.

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