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Especial para O Diário

Ouça o podcast do padre Alessandro Campos sobre sua jornada na peregrinação

Acompanhe as lições deixadas pelo religioso de Mogi das Cruzes nos primeiros dias da viagem a Compostela

Padre Alessandro Campos
16/10/2021 às 20:16.
Atualizado em 16/10/2021 às 23:57
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Ouça o podcast do padre Alessandro Campos sobre sua jornada na peregrinação

Acompanhe as lições deixadas pelo religioso de Mogi das Cruzes nos primeiros dias da viagem a Compostela

Padre Alessandro Campos
16/10/2021 às 20:16.
Atualizado em 16/10/2021 às 23:57

Nós começamos a nossa viagem em Saint-Jean-de-Pied-Port e seguimos para Roncesvalles, a primeira cidade alcançada por nós. Uma experiência fabulosa, porque foi o início da viagem, os primeiros 27 km. Meu Deus, como foi difícil. Subimos as montanhas dos Pirineus, linda paisagem, muito bonita, porém, muita subida. Subir o Pico do Urubu, em Mogi das Cruzes não é nada perto dos Pirineus, que saem da França e vão até a Espanha.

Foi uma experiência fantástica de muito sofrimento.

A gente se empolga muito quando diz que vai fazer o Caminho de Santiago. É bonito, é místico, mas para quem não conhece, não sabe de nada. Para nós que não falamos a língua e não temos noção do que é essa caminhada, para eu que sou um sedentário, ao contrário dos meus companheiros de viagem, não é nada fácil.

Nós saímos de manhã bem cedo com muito frio. 

O mais curioso nesse primeiro dia foi que não levamos comida. Tomamos um café, pela manhã, e fomos subir a montanha. No meu pensamento, achava que no caminho a gente iria parar, almoçar num restaurante, que iria ter comida. 

Depois de duas horas de caminhada, encontramos a primeira parada, mas não estávamos com fome. Pensei: mais à frente deve ter restaurante...

O que não faltva era água, pois a cada trecho existia uma fonte. Mas faltou comida. Meu Deus, que 27 km que não chegavam. A gente subia, subia, subia... e não chegava. Moral da história: não tínhamos nada para comer, absolutamente nada. 

Caminhamos 12 horas com fome. As últimas três horas eram para descer uma ladeira e nós estávamos no limite. E o “Zum” só falava de picanha, feijãozinho. E eu dizia: “Pelo amor de Deus, pare de falar sobre isso”.

E a gente parava, ficava 10 minutos descansando, jogava a mochila no chão. A gente subia, via uma curva e imaginava uma descida. Era outra subida. 

Vocês não vão acreditar, mas quando não estávamos mais aguentando, depois de 10 horas de caminhada, quase no final da descida, a gente parou e foi revirar as mochilas. Tinha de haver uma bala, um doce, senão a gente não chegaria. Não tínhamos mais força.

E o que aconteceu? Encontramos. O Thiago tinha uma vitamina Cebion, o “Zum” tinha um pacotinho de açúcar que guardou do café da manhã e eu um pacotinho de sal. Foi nosso primeiro alimento depois de dez horas de caminhada para aguentar chegar em Roncesvalles. Pegamos um Cebion, o pouquinho de açúcar e sal, dividimos tudo em três. Foi a melhor comida que eu comi na minha vida...

Agora eu entendo por que quando as pessoas passam fome, comem qualquer coisa.Na hora do aperto, da necessidade, meu amigo... Eu não como cebola, pepino e nem pimentão, mas naquele dia, desejei comer tudo aquilo que não gosto. Meu Deus, que sensação horrível é a gente passar fome!

Mas chegamos a Roncesvalles. Foi minha primeira experiência de ficar em um albergue. Imaginei que iria a um restaurante comer para depois dormir. Não havia nada. Só o mosteiro e o albergue, num vilarejo muito pequeno. 

Fomos para o albergue, onde são todos iguais.Homem, mulher, rico, pobre, negro, branco, uma experiência incrível, mas lá tudo tem horário e nossa hora de comer era 21horas. E ainda eram 19 horas. Aí eu imaginei: “Agora vou morrer!” Mas às 9 da noite jantamos: salada, batata, carne, azeite e pão. Foi o melhor jantar da minha vida!

Depois de Roncesvalles seguimos pelas outras cidades. O caminho mais difícil foi Santo Domingo de La Calzada a Belorado.  E continuamos até onde estamos hoje, em San Juan de Ortega.

Esta é uma experiência espiritual muito interessante, magnífica. A gente aprende o que é resiliência. Eu vou dizer a vocês em poucas palavras o que é o Caminho de Santiago. O Caminho de Santiago é o caminho da vida, da nossa vida, é o caminho da purificação, é o caminho do sofrimento, mas é também o caminho da alegria.

A gente encontra pessoas do mundo inteiro, conversa com todo mundo, ninguém entende coisa nenhuma, mas acaba se entendendo. E quando encontra brasileiro é uma alegria.  Cada um com uma história de vida. Muitos sabiam da nossa viagem pelo Instagram e ficavam contentes em nos ver.

Mas vamos seguindo adiante. Além das dores nas costas, na coluna, pernas todas assadas, bolhas nos pés e dores no joelho. Tem hora que dá vontade de desistir, chamar um táxi e ir embora, mas é gratificante, porque a gente vai aprendendo, no meio do caminho, com as coisas muito simples. 

E o que o Caminho de Santiago me ensinou até agora?  Me ensinou que nós precisamos de muito pouco para sermos felizes. No decorrer do caminho, a mochila vai pesando e você vai tirando as coisas de dentro dela e jogando fora. Você vai aprendendo que há tantos pesos que você carrega na vida e que são desnecessários. Por isso, eu quero tirar esses pesos da mochila da minha vida para ser feliz. E todos devem pensar nisso.  

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