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A VIDA COMO ELA É

Os três lutos de padre Alessandro Campos

Religioso já chorou por três pessoas muito próximas que morreram nos últimos 22 anos: a mais recente foi sua avó, Joana, falecida na última terça-feira

DARWIN VALENTEPublicado em 21/11/2021 às 13:45Atualizado há 9 dias
Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal

A morte de “vó Joana”, no início da noite de terça-feira (16), foi o terceiro período de luto mais intenso na vida do padre cantor Alessandro Campos. Antes de sepultar a avó que o criou e foi a grande incentivadora de sua vocação religiosa, o sacerdote já havia chorado as mortes de dois parentes muito próximos: um tio e um primo, pelos quais mantinha grande apreço em razão da proximidade com ambos, incentivada pela matriarca Joana Miguel, que após ficar viúva, aos 30 anos, passou a agregar em torno dela, os demais parentes, especialmente os filhos e netos.

A casa da “vó Joana”, no Jardim Santa Tereza, em Braz Cubas, onde o garoto Alessandro viveu quando criança, tornou-se o ponto de convergência dos integrantes da família, para confraternizações à base de boa comida da dona da casa e rodas de viola. Ali, o menino que queria ser padre já cantava ao lado dos tios, todos amantes da boa música caipira.

E foi no dia seguinte a uma dessas festas em família, que o jovem Alessandro sentiu, pela primeira vez, a dor da perda de um parente muito próximo. 

A noite daquele 1999 estava apenas começando, quando um dos seus tios, José Hilton, anunciou que iria embora mais cedo, porque, no dia seguinte, teria de cobrir a vaga de um colega numa viagem para a Baixada Santista.

José Hilton era motorista de ônibus das linhas urbanas de Mogi das Cruzes, mas no outro dia faria um percurso diferente, substituindo o amigo e companheiro de trabalho na antiga empresa Eroles. Ele deixou Mogi e, após descer a Serra do Mar, ingressou na rodovia Rio-Santos, em direção à Riviera de São Lourenço, no município de Bertioga. Nas proximidades do famoso condomínio, sabe-se lá por qual motivo, o condutor acabou chocando violentamente a parte dianteira do coletivo contra a caçamba de um caminhão carregado. Foi uma tragédia.

José Hilton e mais quatro passageiros, que se encontravam nosprimeiros bancos do ônibus, morreram no local.

“Vó Joana” perdeu o filho e Alessandro um de seus tios mais queridos.

Benzetacil 

O segundo período de luto de Alessandro, já ordenado padre, aconteceu em 2014. O menino Luiz Henrique, de 2 anos, filho de seu primo e auxiliar direto, Jorge Brito, o Jorgito, passou mal, em Braz Cubas e teve ser levado ao hospital para ser medicado.

Aparentemente, nada mais grave; apenas uma infecção banal, causada, quem sabe, por uma das muitas viradas no clima, quase sempre danosas para as crianças. Nada que uma injeção à base de benzetacil não ajudasse a eliminar por completo. 

O profissional responsável pela prescrição do medicamento, no entanto, não teve acuidade ou experiência suficiente para determinar um teste preventivo no menino.

Ele era intolerante àquela medicação e a dose recebida no Hospital Ipiranga de Mogi provocou um choque anafilático, que lhe foi fatal.

Luiz Henrique, filho de Jorgito,que durante pelo menos sete anos, trabalhou na conhecida Farmácia do Zezinho, no distrito de Braz Cubas, ajudando a curar pessoas, morreu e a família, como sempre unida, chorou a sua despedida. 

Diabetes

O terceiro e mais doloroso dos lutos ocorreu no início da semana, quando padre Alessandro recebeu a notícia da irreversibilidade do estado de saúde de sua avó, internada no Hospital Santana, havia alguns dias. Idosa, vítima de diabetes e com o mal de Alzheimer apresentando progressivo avanço, ela faleceu na noite de terça-feira (16). Apesar de apresentar mais problemas resultantes da fragilidade de sua imunidade, provocada por estas duas perigosas doenças, havia esperanças de que “vó Joana” vivesse ainda por mais um bom tempo.

Mas ela se foi, antes de completar os 96 anos, neste sábado (20), que seriam comemorados com um festa e família, como a “vó” sempre gostou de fazer, no domingo (21). Neste aconteceria também o batizado de sua bisneta Rebeca, hoje com 1 ano e 5meses de vida. E foi justamente pela saúde de Rebeca, a promessa que levou padre Alessandro a se aventurar, a pé, pelos acidentados caminhos de Santiago de Compostela, entre França e Espanha.

A morte

Mas, afinal, qual é o significado da morte para o padre Alessandro Campos?

Para ele, a morte “é um até logo, um aviso de que alguém está indo viajar para nos encontrarmos, todos, logo mais  à frente”.

“A morte – diz o padre Alessandro – é o mais belo começo. Para os que creem em Deus, a vida não é tirada, mas transformada. Desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado um corpo imperecível”, como diz o Missal Romano, no prefácio dos fiéis defuntos.

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