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CONSCIÊNCIA NEGRA

'Na periferia, traficante é traficante; na Vila Oliveira é estudante de Medicina', diz militante

Em entrevista a O Diário, a conselheira tutelar Anita Cristina Pereira Camilo fala sobre desafios e preconceitos enfrentados pela população negra

Carla OlivoPublicado em 21/11/2021 às 10:46Atualizado há 9 dias
Anita Camilo critica a desigualdade na oferta de serviços públicos na cidade e no país / Foto: arquivo pessoal
Anita Camilo critica a desigualdade na oferta de serviços públicos na cidade e no país / Foto: arquivo pessoal

“A população preta não é vista na cidade, já que a maioria está nas periferias, onde são escassas as políticas públicas efetivas”. A afirmação da conselheira tutelar Anita Cristina Pereira Camilo, 34 anos, retrata a situação enfrentada por este público.

Militante racial, ela destaca que políticas públicas que não sejam realmente efetivas não têm validade. “É preciso sanar a raiz do problema e olhar para o todo. De que adianta fazer políticas públicas e não aplicá-las? Precisamos ter direito ao acesso à cidade, ao lazer, à cultura, a uma boa educação, já que a pública está cada vez mais defasada, ao esporte, à segurança pública efetiva e não truculenta, e tratamentos iguais. Para se ter uma ideia da discriminação, um traficante da periferia é traficante, enquanto um traficante da Vila Oliveira é considerado estudante de Medicina”, destaca.

O Diário publicou reportagem especial sobre o Dia da Consciência Negra, comemorado ontem (confira aqui)

Na avaliação de Anita, a aprovação do projeto que prevê o feriado do Dia da Consciência Negra em Mogi é uma mostra de que a luta antirracista está surtindo efeito. “Em Ferraz, Itaquá, Suzano, Arujá e Santa Isabel, esta data já era considerada feriado. Mas ainda há muito a ser conquistado”, lembra ela, que já fez parte da Unegro e do Coletivo Impacto Feminista e, atualmente, integra o grupo de promotoras legais populares.

No entanto, Anita acredita que ainda levará mais 100 anos para haver mais equidade de raças na sociedade brasileira. “Infelizmente,  vivemos em um dos países mais racistas do mundo, onde o racismo é velado, as pessoas não ligam para a dor e sentimento dos outros. Olha o tanto de tempo que as mulheres lutam para que o machismo acabe. As pessoas não querem sair da zona de conforto e não estão preocupadas com os outros”, lamenta.

Segundo ela, as desigualdades são muitas, mas estão presentes, principalmente, no mercado de trabalho e acesso aos estudos. “A defasagem educacional da população preta já vem desde os primórdios da educação, começando pela creche, porque os pais trabalham e não conseguem levar e buscar a criança na creche. Depois, elas passam a ajudar no trabalho em casa. Em seguida, no ensino fundamental, deixam a escola para trabalhar e colaborar com o orçamento doméstico. Quando chega na universidade, isso é ainda mais acentuado”, diz.

No mercado de trabalho, Anita destaca que homens negros, geralmente, são chamados para trabalhos braçais, enquanto as mulheres para trabalhos na área de limpeza. “É raro ver um negro na chefia. Quem consegue concluir a faculdade, dificilmente ingressa na

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