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Morre em Mogi, o empresário Ângelo Lazzurri, proprietário da Cantina D'Angelo

Ele veio da Itália com os pais em 1949 e se destacou como proprietário de um dos principais e mais tradicionais restaurantes de Mogi e Região

O Diário
18/08/2022 às 18:55.
Atualizado em 18/08/2022 às 20:29

Empresário Ângelo Lazzurri (Foto: reprodução)

O empresário Ângelo Lazzurri faleceu nesta quinta-feira (18), em Mogi das Cruzes, aos 73 anos, de infarto fulminante. Ele era o proprietário de um dos restaurantes mais tradicionais da cidade, a Cantina D'Angelo.

O corpo será velado no Cristo Rendetor e o sepultamemnto será no cemitério São Salvador, nesta sexta-feira (19).

Lazzurri veio da Itália com os pais em 1949 e teve muito sucesso com a cantina, especializada em cozinha italiana, que fica na avenida Capitão Manoel Rudge, no Parque Monte Líbano.

Nas redes sociais do restaurante, foi publicado um texto lamentando o ocorrido. “Estamos sem palavras e muito tristes com a passagem repentina do nosso mestre Ângelo. Com muito amor, durante 25 anos, ele trabalhou arduamente para sempre atender bem a todos que pela Cantina passaram. Que o Pai o receba de braços abertos e com todos carinho que ele merece! Aqui ficarão as boas risadas, os grandes ensinamentos e uma saudade enorme! Descanse em paz, Seu Ângelo”

A Associação Comercial também fez uma homenagem a Lazzurri em suas redes sociais, destacando a contribuição dele para o desenvolvimento de Mogi.

“Um grande empreendedor vai fazer falta na nossa cidade”, diz um dos comentários feitos na postagem por representantes da Brasmaq Equipamentos. Tem muitas declarações de apoio à família.

A página Arquivo Mogyano também homenageou o empresário e se solidarizou com a família.

Personagem da série Entrevista de Domingo, de O Diário, na edição de 16 de maio de 2004, Lazzuri contou sua história. Confira a íntegra da publicação:

De nacionalidade italiana, o comerciante Angelo Lazzurri, se considera brasileiro e mogiano de coração. Nascido em Lucca, com apenas nove meses ele veio para o Brasil, trazido pelos pais (Mário e Maria Lucone Lazzurri) que buscavam trabalho após as dificuldades enfrentadas na Itália durante o período após a 2ª Guerra Mundial. A família chegou em Mogi das Cruzes e foi refazendo a vida. Seguindo os passos do pai, aos 12 anos, Angelo, que é o filho mais velho (Mário Gentil e Carlos Roberto são brasileiros) começou a ajudá-lo no serviço de desmatamento e transporte de madeira para indústrias. A partir daí, se familiarizou com o comércio cuidando da contabilidade dos negócios do pai e passou a se dedicar à área, mas também foi office-boy no Banco América do Sul, montou sorveteria, pizzaria e lanchonete no Litoral, atuou na área de construção civil na Riviera de São Lourenço e montou dois restaurantes no Mogi Shopping (Auguri e Uai). Desde 1996 dedica-se exclusivamente à Cantina D’Angelo e em 2001 também passou a cuidar da chopperia que leva o mesmo nome - instaladas na Rua Capitão Manoel Rudge, na Vila Oliveira. Casado há 33 anos com Marli Peligrini Lazzurri, ele é pai de Angelo Lazzurri Júnior, Daniela e Karina e avô de Luna. Em entrevista a O Diário, Angelo lembra sua infância em Mogi, conta histórias vividas na Cidade e revela os prazeres da culinária italiana.

O Diário - Por que o senhor veio para o Brasil?
Angelo Lazzurri -
Meus pais vieram tentar a sorte no Brasil em 1949, quando eu tinha apenas nove meses, em busca de trabalho e também fugindo do terrível período pós-guerra. Viemos direto para Mogi das Cruzes, onde já morava meu tio, Anselmo. Além disso, uma boa parte de minha família, que tinha vindo antes da Itália, logo depois da 1ª Guerra Mundial, a partir de 1920, vivia em São Bernardo do Campo, para onde íamos sempre. Assim que chegamos, meu pai começou a trabalhar nas áreas de desmatamento, produção de carvão para siderúrgicas, principalmente a Cosim (Companhia Siderúrgica de Mogi das Cruzes) e outra indústria de Volta Redonda (Rio de Janeiro) e também na produção de lenha para a Cia. Suzano (de Papel e Celulose). 

O Diário - Como foi sua infância na Cidade?
Lazzurri -
Logo que chegamos da Itália, moramos na Rua Barão de Jaceguai, onde era a carvoaria. Depois meu pai começou a desenvolver seus negócios e fomos para uma casa da Rua Dr. Deodato Wertheimer e de lá para a Rua Brás de Pina, no Alto do Ipiranga, onde passei a maior parte da minha infância, brincando na rua com a garotada, jogando pião, bolinha de gude e soltando pipa. A tranqüilidade desta época, quando eu fazia o primário na escola Coronel Almeida, infelizmente não existe mais. 

O Diário - Qual seu primeiro emprego em Mogi?
Lazzurri -
Como era o filho mais velho, desde os 12 anos trabalhava com meu pai no serviço de desmatamento na zona rural e o ajudava na medição de madeira e no controle das notas fiscais, além de cuidar de toda a parte contábil. Depois fui office-boy no Banco América do Sul, mas voltei às atividades de desmatamento e transporte de madeira. Por isso, aos 16 anos comprei o primeiro caminhão e passei a fazer este serviço para a Cia. Suzano. Em 1973, junto com meu pai e meu irmão Mário, conhecido como Lili, montei o depósito de materiais Lazzurri & Filhos Ltda., na Avenida Francisco Ferreira Lopes, em Braz Cubas, com o qual ficamos até 1980. Em seguida, fui para Bertioga, onde tive sorveteria, pizzaria e lanchonete, mas novamente voltei a trabalhar com desmatamentos de ruas e lotes na Riviera de São Lourenço. Fazia a derrubada, retirada, transporte e fornecimento da madeira para indústrias e com isso viajava diariamente até que fiquei morando uma época no Litoral.

O Diário - Por que o senhor deixou este trabalho e passou a se somente ao comércio?
Lazzurri -
Em 1993 todos os desmatamentos na região do Litoral foram embargados e enquanto aguardava o retorno da liberação deste trabalho, construi algumas casas na Rivieira de São Lourenço e passei a atuar na área de empreendimentos imobiliários. Na época, meus filhos também começaram a fazer faculdade e em 1995 decidimos voltar para Mogi. 

O Diário - Como o senhor chegou à área de restaurantes? 
Lazzurri -
De volta a Mogi, iria retomar meu trabalho na área de construção civil, mas o mercado não estava propício, então resolvi colocar em prática a idéia que tinha desde os 14 anos de montar uma cantina italiana, inspirado no dom da minha mãe para este tipo de comida. Chegou o momento, mesmo porque, só não tinha feito isso antes porque a vida me levou para outros caminhos. Inaugurei a Cantina D’Angelo no final de 96 e, em seguida, também abri dois restaurantes no Mogi Shopping, o Auguri e Uai, mas como a cantina exige muito de mim, não dava para acompanhar tudo e em 2000 desfiz dos dois e um ano depois montei a Choperia D’Angelo, também na Rua Capitão Manoel Rudge. Como as duas casas ficam bem perto uma da outra, tenho condições de controlá-las. 

O Diário - O senhor gosta de cozinhar?
Lazzurri -
Minha mãe era uma ótima cozinheira e como filho mais velho de uma família italiana, tinha de ajudá-la. Lembro que ela fazia as massas com as mãos, sem o uso de máquinas, e todos adoravam os pratos preparados por ela, assim como por minhas tias que moravam em São Bernardo. Aliás, sinto muitas saudades dos almoços de domingo, das festas de Natal, Ano Novo e outras datas comemorativas, quando recebíamos estes parentes em Mogi ou íamos até a casa deles em São Bernardo para degustar pratos de todos os tipos e em farta quantidade, desde filé mignon à parmegiana, lasanha, raviolli, capelleti ao molho vermelho ou branco, além de coelho e cabrito. Estas reuniões também eram regadas a vinho, mas não gosto muito deste tipo de bebida porque, aos 10 anos, era encarregado pelo engarrafamento do vinho que meu pai comprava em tonéis em Porto Alegre. De tanto fazer este serviço, o gás do vinho me deixava tonto. Mas nesta época aprendi a gostar de cozinhar e minhas especialidades são as massas e molhos, mas na verdade gosto mesmo é de inventar. 

O Diário - Qual a proposta da cantina?
Lazzurri -
Como hoje em dia as mamas e nonas estão em extinção porque a correria da vida moderna tornou inviável que as mulheres continuassem a pilotar o fogão com tanta freqüência, procuramos manter a tradição da culinária italiana tipicamente caseira e isso me deixa muito realizado. Estou sempre por perto, mas conto com dois cozinheiros, Jaime e Genival, que vieram de boas cantinas de São Paulo e estão comigo desde o início da D’Angelo. Servimos os pratos italianos e também alguns adaptados ao gosto brasileiro, mesmo porque, aqui no Brasil temos uma grande fartura de produtos, principalmente tomate, que no inverno é bem escasso na Itália. Por isso, os molhos aqui são mais carregados e atraem o paladar dos brasileiros, que aliás aceitam muito bem todos os pratos do cardápio, sendo que os mais pedidos são filé à parmegiana, rondelli ao gratin e lasanha branca ou verde. 

O Diário - E a choperia?
Lazzurri -
Em Mogi não havia um lugar para as pessoas mais maduras freqüentarem porque a maioria dos bares atrai gente mais nova, que gosta de agito. Ou seja, o pessoal da segunda e terceira idade, que gosta de ambientes mais tranqüilos para bater papo enquanto bebe chope, tinha de ir para outras cidades como São Paulo e São José dos Campos, onde se vê homens e mulheres, tanto solteiros como casados, profissionais de toda as áreas, tomando um ou dois chopes e conversando descontraidamente com os amigos antes de irem para casa após o trabalho. Foi para atender este público que montei a choperia, que conta também uma mesa de frios e antepastos. 

O Diário - Como é manter um restaurante em Mogi?
Lazzurri -
É complicado assim como qualquer outro tipo de negócio porque primeiro precisamos formar uma equipe adequada para o trabalho, já que a manutenção de profissionais qualificados torna-se cada vez mais importante para que o paladar e o atendimento não sejam modificados. 

O Diário - Mogi já comporta grandes investimentos em gastronomia?
Lazzurri -
Não só em Mogi, mas em todo o País, não há condições favoráveis a grandes investimentos porque o pessoal não gasta mais muito dinheiro para comer fora. Se antes as famílias que têm este costume iam a restaurantes três vezes por semana, agora, saem apenas em um único dia. Hoje até as grandes redes, como o McDonald’s, estão reduzindo seus funcionários e unidades ao invés de anunciarem investimentos.

O Diário - Qual o perfil do consumidor mogiano?
Lazzurri -
É um consumidor exigente, que sabe distingüir o que é bom ou ruim. Além disso, o mogiano também gosta muito de estar atualizado e conhecer o paladar e atendimento oferecidos em várias casas. Aqui, recebo muitos amigos, gosto de ficar na mesa conversando com eles até que os pratos cheguem e então, os deixo à vontade e depois volto para continuarmos nossas histórias. Como fiquei 15 anos fora de Mogi, foi bom montar a cantina porque tive oportunidade de reencontrar os amigos, principalmente aqueles que não via desde os tempos do primário. Inevitavelmente sempre nos lembramos de boas passagens de nossas vidas.
 
O Diário - O senhor pode contar algumas destas histórias?
Lazzurri -
São muitas, mas lembro por exemplo, que a alegria da juventude da época era se reunir, após a saída da escola, no Dudu Lanches, na Rua Francisco Franco, ou no Michel Lanches, que ficava na Praça Firmina Santana, onde funcionava a antiga Rodoviária e o Cine Urupema. Estes eram os pontos de encontros dos estudantes, que passavam horas contando histórias. Também participávamos de rachas na Mogi-Guararema e Mogi-Salesópolis, mas naquela época não havia muitos carros e por isso, também não existia o perigo de acidentes. Hoje, isso seria impossível e com certeza, teríamos um acidente a cada quilômetro. Outra vantagem é que naquele tempo, a Cidade contava com apenas dois jeeps como viaturas da Polícia, mas como não havia aparelhagem de comunicação, eles ficavam sabendo dos nossos rachas bem depois, por alguns comentários. Uma das atividades tradicionais era ir ao Cine Avenida aos sábados e ao Urupema aos domingos. Sinto saudades de tudo isso e ao mesmo tempo, tenho dó da juventude de hoje. 

O Diário - Por quê?
Lazzurri -
Porque infelizmente, hoje não existe mais a tranqüilidade e a segurança daquela época, em que podíamos andar a qualquer hora, em qualquer lugar, sem preocupações. É claro que também tínhamos brigas entre os jovens, mas no outro dia, eles já voltavam a ser amigos. Ao contrário de hoje, quando só de olhar um para o outro já sai morte. Outra diferença é que havia aqueles que usavam drogas, mas eram um grupo pequeno e isolado.
 
O Diário - Quais seus planos?
Lazzurri -
Até o final do ano, pretendo voltar a morar na praia, em Bertioga, em busca de melhor qualidade de vida, mas continuarei com meus negócios em Mogi e viajarei todos os dias, mesmo porque já me acostumei a pegar a Mogi-Bertioga. 

O Diário - Qual seu hobby?
Lazzurri -
Meu serviço não permite muito tempo para o lazer, mas gosto de ir à praia, caminhar na areia e do clima do Litoral. Também adoro esportes de velocidade, como Fórmula-1, Indy e Sport Car, mas para mim perdeu um pouco a graça depois da morte do Ayrton Senna. No entanto, sempre que posso assisto às corridas pela TV. No futebol sou palmeirense, mas não daqueles torcedores fanáticos e sim pela tradição da minha família. Além disso, gosto das músicas antigas italianas, que são bem românticas. 

O Diário - Qual sua maior alegria?
Lazzurri -
Minha neta Luna, de 2 anos, porque sempre fui apaixonado por criança. Faço o que ela quer, brinco e fico até nervoso se passo dois dias sem vê-la. 

O Diário - E tristeza?
Lazzurri -
Tristeza para mim é ver a falta de união das pessoas causada pela correria e loucura do mundo moderno. Outra tristeza grande é confiar em algum amigo e depois descobrir que ele só esteve ao nosso lado por algum interesse. Isso me derruba. Porém, a maior tristeza que tive na vida foi a morte de minha mãe, que aos 47 anos sofreu um enfarte enquanto conversava comigo. Tinha 21 anos, era solteiro e isso me marcou demais.

O Diário - Como o senhor conheceu sua esposa?
Lazzurri -
Quando fazíamos o ginásio na OMEC (Organização Mogiana de Educação e Cultura) em 1968. Estudávamos em salas diferentes, mas nos encontramos na escola e quando nos olhamos foi amor à primeira vista. Namoramos até dia 18 de novembro de 1971, quando nos casamos e ela acabou ajudando a criar meu irmão mais novo, o Carlos Roberto, e colaborou muito cuidando da casa do meu pai porque éramos vizinhos.
 
O Diário - O senhor já viajou à Itália?
Lazzurri -
Não e nem pretendo ir para lá porque as lembranças que meus pais tinham da Itália eram de muito sofrimento durante e no período pós-guerra, por isso, quando tenho chances de viajar, prefiro conhecer o Brasil. Mas voltando a falar da Itália, na época do alistamento militar, quando fiz 18 anos, recebi uma carta do Consulado Italiano para comparecer ao país para servir o Exército. Pela euforia da idade, assinei o alistamento, mas meu pai me convenceu de que não seria brincadeira ficar nas montanhas durante o inverno e acabei não indo para lá, onde permaneceria 18 meses. Só que passei a ser desertor e se fosse à Itália antes dos 51 anos teria de servir o Exército. Tudo isso aconteceu porque na época em que sai de lá, não registraram minha saída da Itália. Então, uma noite, o Exército cercou a casa onde nasci e na qual ainda morava uma de minhas tias. Eles estavam me procurando e ela deu o meu endereço no Brasil. Foi quando em enviaram a correspondência.

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