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PATRIMÕNIO

Monumentos públicos são alvo de vandalismo e abandono

Da bandeira rasgada à obra de arte vandalizada, o descuido com o patrimônio público e histórico desafia a gestão municipal

Eliane JoséPublicado em 06/12/2020 às 09:01Atualizado em 07/12/2020 às 17:21
Eisner Soares
Eisner Soares

Um dos símbolos de Mogi das Cruzes, a bandeira da cidade instalada no centro da Praça Kazuo Kimura, no bairro Nova Mogilar, permaneceu desfiada durante vários dias, por um problema estratégico. Como ela tem um cumprimento maior, ao ser desfraldada pelo vento, ela se enrosca na própria estrutura do mastro e acaba rasgando.

Na entrada da cidade, entre os bairros do Jardim Aracy e a Ponte Grande, segue com a tinta vermelha em destaque, o monumento denominado O Bandeirante, que se tornou alvo de um protesto, em julho, assim como ocorreu com outras estátuas de lideranças mundiais que foram ao chão, como resultado do atual processo de revisão sobre o racismo e a escravidão.

Os homenageados estão sendo contestados publicamente, após séculos, por causa da participação que tiveram, em alguma medida, na promoção do trabalho escravo africano, acentuado pelos portugueses a partir do ano de 1.444.

Esses dois exemplos estão entre os desafios que a futura administração municipal irá enfrentar no campo do patrimônio público e histórico.

A falta de conservação desses bens públicos se reflete na perda da memória ainda preservada em alguns exemplares de casarios antigos encontrados no entorno das Igrejas das Ordens Primeira e Terceira do Carmo, tombadas como patrimônio históricos nacional.

Ao redor desse conjunto histórico, em tese, o cenário arquitetônico deveria ter as características preservadas para contar como Mogi das Cruzes chegou aos dias de hoje

A necessidade de se cuidar bandeira desfiada, em um ponto de grande passagem de pessoas, foi destacada pelo professor de história Glauco Ricciele, em suas redes sociais, há alguns dias.

Ele e a atriz Bruna Panegassi são os autores de um projeto para a cultura entregue ao prefeito eleito Caio Cunha (PODE), durante a campanha eleitoral. O documento apresenta propostas para temas como o patrimônio histórico e a descentralização e a oferta de espaços e atividades artísticas e culturais nos bairros.

Uma das ideias visa ampliar o poderio de fiscalização e da atuação técnica do Conselho Municpal de Preservação do Patrimônio Histórico Cultural, Artístico e Paisagístico (Comphap).

O órgão carece a reativação do departamento histórico para dar celeridade à análise dos projetos de tombamento histórico pendentes.

Além disso, o plano prevê a continuidade ao que foi iniciado e se perdeu, como o Pró-Memória, um conselho criado em 2018, por meio de decreto municipal, para aferir quais patrimônios materiais e imateriais Mogi deveria salvaguardar. O Pró-Memória realizou apenas uma reunião, como afirma Ricciele. 

 LIC

O programa de Caio Cunha prevê mudanças na LIC, a Lei de Incentivo Cultural, para atrair o patrocinador com descontos maiores no pagamento de impostos municipais.

Outro ponto é a descentralização dos palcos culturais, com a ida dos espetáculos e artistas aos bairros. Uma sugestão seria a abertura das escolas públicas, nos bairros, para este fim.

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Sobre as obras de arte e de história, o professor afirma que além da conservação e manutenção, como o caso da bandeira instalada na Praça Kazuo Kimura, conhecida por causa da lanchonete Habib's, o plano avança um pouco mais, ao indicar como importante explicar à população e ao visitante, o que elas significam para o mogiano, por meio da instalação de um QR Code, do inglês, Quick Response, que é um código de barras.

"Quem sabe o que diz a bandeira de Mogi? A nossa sugestão é manter uma estrutura com um QR Code, onde o visitante desses pontos possa acessar e ser direcionado a um site da Prefeitura, que explique o motivo de a cidade preservar esse símbolo". O professor cita o Aviador, instalado no canteiro central da rua Dr. Correa, quase em frente ao Santuário Senhor Bom Jesus, a popular igreja de São Benedito.

O Bandeirante

No caso de O Bandeirante, o professor afirma que apesar da validade da revisão histórica do papel de figuras como os bandeirantes, em São Paulo, ele é favorável à limpeza e manutenção da obra. "Há, sim, uma questão de atualização sobre o que foi a escravidão e o racismo estrutural (legado por ela), mas essa peça tem um valor artístico e uma memória sobre um momento em que a sociedade não tratava esse assunto dessa maneira. Na minha opinião, o melhor seria mantê-la e explicar às pessoas essas mudanças sociais, o que é racismo, porque não o apoiamos".

Desde que recebeu um jato de tinta vermelha, a obra do artista plástico Bellini Romano premanece manchada. A Prefeitura tentou limpar a superfície de aço inoxidável. Foram feitas algumas investidas, mas nada que retirasse a coloração.

O Bandeirante, instalado na rodovia Mogi-Dutra, foi doado pela empresa Aços Villares, que estava completando 40 anos de fundação.

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