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PERDA

Lourdes Martins, fundadora do restaurante O Berro, em Mogi, morre aos 92 anos

Ela estava internada em hospital da capital paulista e faleceu nesta sexta-feira (18); velório e sepultamento acontecerão em Mogi

Carla Olivo
18/03/2022 às 11:37.
Atualizado em 18/03/2022 às 20:33

Lourdes Martins, fundadora do restaurante O Berro, morreu nesta sexta-feira (18) (Reprodução - redes sociais)

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PERDA

Lourdes Martins, fundadora do restaurante O Berro, em Mogi, morre aos 92 anos

Ela estava internada em hospital da capital paulista e faleceu nesta sexta-feira (18); velório e sepultamento acontecerão em Mogi

Carla Olivo
18/03/2022 às 11:37.
Atualizado em 18/03/2022 às 20:33

Lourdes Martins, fundadora do restaurante O Berro, morreu nesta sexta-feira (18) (Reprodução - redes sociais)

Mogi das Cruzes perdeu, nesta sexta-feira (18), Lourdes Favinchi Martins, a fundadora do tradicional restaurante O Berro, em Mogi das Cruzes. Com problemas de saúde, ela estava internada em um hospital da capital paulista, onde morreu nesta manhã, aos 92 anos. A causa da morte não foi divulgada.

O corpo será velado no Velório Municipal Cristo Redentor, no Parque Monte Líbano, em Mogi das Cruzes, mas como ainda está em processo de remoção de São Paulo, não há previsão de início e nem horário agendado para o sepultamento, segundo informações da Funerária Coração de Jesus.  

Filha de imigrantes italianos, Lourdes herdou dos pais José Favinchi e Olímpia Rossi a garra para trabalhar e a habilidade na cozinha, dotes que trouxe em 1958 para Mogi das Cruzes. Nascida em São Roque, ela saiu com a família de lá aos 4 anos, passou a infância em Itu e a adolescência e juventude em Sorocaba, onde se casou com José Martins.

Morou em São Paulo e ainda voltou a Sorocaba - onde teve pizzaria e restaurante até o final da década de 50, quando o marido recebeu o convite da empresa Trevilato, na Capital. Foi lá que fez contato com a Huber Warco, em César de Souza, e veio para a cidade.

Como já trabalhava como costureira, Lourdes logo conquistou freguesia, principalmente durante os 20 anos em que morou na rua dos Alfaiates, no bairro dos Remédios - desde 1988 ela vivia na Vila Natal.

Adepta da culinária, foi em 1976 que começou a fazer salgados e a preparar pratos para o restaurante Berro D’Água, montado pelo filho José Antônio, na rua Dr. Ricardo Vilela, primeiramente no prédio hoje ocupado pelo Daruma. O nome é inspirado no livro ‘A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água’, do escritor Jorge Amado.

Dois anos depois, ela assumiu o estabelecimento comercial, que chamava carinhosamente de Berrinho, e conquistou o gosto de estudantes universitários servindo o trivial - arroz, feijão, salada, contrafilé, cação e bisteca de porco. Foi nesta época que o marido, que era carreteiro na Julio Simões, veio trabalhar com ela e, em 1982, o casal comprou a vila de casas que ficava em frente ao prédio e ali fez um grande galpão, onde o restaurante passou a funcionar, desde 1985, sob o comando do filho, José Carlos.

Denominado nos últimos anos de ‘O Berro’, o estabelecimento comercial mudou, em 2014, para a rua Major Pinheiro Franco, nas esquinas entre a Dr. Ricardo Vilela e Dr. Corrêa.

Personagem da série Entrevista de Domingo, de O Diário, no dia 15 de dezembro de 2013, Lourdes contou sua história aos leitores. Confira a íntegra da entrevista a seguir:

Como foi sua infância?
Meus pais são italianos e viajaram para o Brasil com suas famílias em busca de oportunidades de trabalho. O pessoal dele veio para a lavoura de café e o dela para a construção da Estrada de Ferro, em São Roque. Aqui se conheceram e se casaram. Quando nasci, eles moravam em um sítio, onde fiquei até os 4 anos. De lá, meu pai comprou uma fazenda em Itu, lá vivi até os 12 e nos mudamos para Sorocaba. Ali morei até me casar, aos 18 anos. Éramos em 12 filhos (Carmela, Orestes, Arceu, Luiza, João, Fábio, Domingos, Benedito, Marino – estes já falecidos – e Lourdes, Antônio e Maria Helena), mas não tivemos dificuldades na infância. Meu pai sempre trabalhou muito na lavoura, nós andávamos descalços, com roupas simples, a pé, mas éramos felizes. Ir à escola já era mais complicado, porque seguíamos por um longo caminho a pé e fiz somente até o quarto ano primário. Não havia mais escolas por perto para continuar os estudos. Eu ajudava meu pai na colheita de café e algodão e minha mãe a cuidar da casa e dos irmãos. Ela tinha uma habilidade muito grande para a cozinha e fui aprendendo desde cedo. Como não havia panetone, na época do Natal, ela preparava deliciosos pães doces para a dona da fazenda, que nos mandava grande quantidade de uva passa. Com elas, minha mãe fazia uma rosca de Natal para cada filho. Isso ficou na memória.

E depois do casamento?
Como meu marido era de São Paulo, fomos morar lá, mas voltamos a Sorocaba, onde tivemos restaurante e pizzaria e eu ficava na cozinha. Fazia de tudo para ajudar, vendia ovos e frangos ainda embrulhados em jornais. De volta à Capital, ele trabalhou na Trevilato, que fazia caçambas. Foi assim que ficou conhecendo a Huber Warco, de Mogi, que levava as carretas à empresa para fazer as pranchas do transporte de máquinas. Como estavam precisando de um motorista, indicaram meu marido e foi assim que, em 1958, chegamos a Mogi e moramos primeiramente em César de Souza. Ele foi entregar máquinas da Huber até na inauguração de Brasília, em 1960, onde elas ficaram expostas e, depois disso, o maquinário que até então era importado, começou a ser produzido aqui. Temos fotos desta época, com o Juscelino Kubitschek e sua mulher (Sarah), nesta cerimônia de Brasília.

Qual foi sua primeira impressão de Mogi?
Gostei muito da Cidade, porque tinha vindo da Casa Verde, em São Paulo, que já era um local bastante movimentado. Aqui, moramos em César de Souza, em uma casa com quintal e adorei a tranquilidade que se tinha aqui. Como não havia comércio por lá, precisávamos vir ao Centro para fazer compras e eu já costurava para fora, então, ia sempre a São Paulo buscar materiais, porque por aqui não havia. Ficamos seis meses em César de Souza, mas fiz vários vestidos e demais roupas para a freguesia de lá. Fomos morar no Bairro dos Remédios, na Travessa Brasil, que depois passou a se chamar Rua dos Alfaiates e os vizinhos brincavam que era em minha homenagem. Ali ficamos 20 anos e costurei vestidos de noiva, ternos e roupas para crianças, com os moldes Singer. Nesta época, as pessoas não tinham outra alternativa, porque eram poucas as lojas que vendidas peças prontas, então eu recebia encomendas durante o ano todo e, na época de bailes, como os de formatura, era uma correria.

Quando surgiu a ideia de abrir um restaurante?
Meu filho José Antônio trouxe a ideia de montar uma casa noturna para servir pratos baianos depois de passar uma temporada em Salvador. Em 1976, ele abriu o Berro D´Água, que tem este nome inspirado no personagem Quincas Berro D´Água, do livro do Jorge Amado. Ali ele servia moqueca e outros pratos preparados com peixe. Na época, Mogi não tinha muitas opções assim e até o cantor Belchior chegou a frequentar a casa. Eu o ajudava fazendo os salgadinhos e pratos como cupim. Depois de um tempo, ele foi trabalhar em São Paulo, passou o ponto para outra pessoa, mas acabou o retomando, reformou o local e, em 1978, me sugeriu que eu assumisse o restaurante. Aceitei porque já estava cansada de costurar para uma freguesia imensa.

Como foi este início de trabalho lá?
Comecei a servir arroz, feijão, salada, contrafilé, cação e bisteca de porco. O filé de frango veio depois. Lembro que três universitários que eram de Jundiaí e vieram para Mogi estudar chegaram pedindo lanche. Meu filho ofereceu o almoço, eles ficaram fregueses e no dia seguinte a casa já estava cheia. Assim fomos conquistando cada vez mais gente e meu filho convenceu meu marido, que trabalhava como carreteiro na Julio Simões, a deixar o caminhão e vir me ajudar no restaurante. Até então, eu trazia as louças e panelas de casa, mas a partir daí, compramos peças específicas. Além disso, costumava deixar uma tigela grande de feijão e a travessa de arroz no balcão, para que as pessoas se servissem à vontade, mas começamos a mudar isso e levar a comida em porções à mesa. Também contratamos um cozinheiro, que morava em frente, para nos ajudar, e tudo foi melhorando.

Então os estudantes tiveram papel importante neste início do restaurante...
Lembro que alguns universitários nos ajudavam quando o movimento era maior, soltando a bebida, os pratos e até fazendo a conta para os fregueses. Ali era reduto dos estudantes, que faziam suas refeições, os trabalhos em grupo e batiam papo. Eles me consideravam uma segunda mãe, vinham conversar, pedir conselhos e hoje encontro com vários deles que já são pais e até mesmo avós. Na época que começamos no comércio, as faculdades eram recentes e havia muita gente que vinha para cá estudar. No vestibular, só se via estudantes pela Cidade e muitos ficavam até acampados em frente ao campus, porque Mogi não tinha estrutura para recebê-los.

Quando foi a mudança para o atual endereço?
O restaurante cresceu tanto que embora tivéssemos ampliado mais um salão, compramos a vila de casas que havia em frente ao local, na própria Ricardo Vilela, derrubamos as residências e ali montamos, em 1982, um galpão, onde até hoje o restaurante funciona, de uns anos para cá, com o nome O Berro. Em volta do balcão havia bancos, mas novamente precisamos ampliar o salão. A demanda era tão grande que não dava nem tempo de levar a cerveja da parte da frente para o estoque, de tanta saída que a bebida tinha. A carne faltava por aqui, então, meu marido a buscava em grande quantidade na cidade de São José dos Campos. Era difícil e, em 1985, resolvemos vender o restaurante, mas um dia, eu estava no fogão e de lá vi meu filho José Carlos almoçar e depois retirar e arrumar a mesa. Percebi que ele tinha aptidão. Na época, ele trabalhava na Valmet (hoje Valtra), mas aceitou assumir o restaurante. Continuei na cozinha, acompanhando o preparo do trivial, além da bacalhoada, feijoada, rabada e lasanha. Todo o dia vou lá no horário do almoço e ainda preparo o pudim e a gelatina servidos como sobremesa.

Já minha filha Ereni faz as tortas. Quando comecei, tocava sozinho o restaurante e hoje são mais de 20 funcionários, de tanto que cresceu.

Desde 1988 a senhora mora na Vila Natal. Como era esta região da Cidade quando a senhora se mudou para lá?
Ainda não havia quase nada. Eram poucas casas, vários terrenos livres para construção e o asfalto estava chegando. Aliás, toda a Cidade cresceu demais. Lembro que, quando morava em César, uma vizinha me falou que um dia o Centro da Cidade iria se emendar ao nosso Bairro. Eu não acreditava, porque a rua ainda era de terra, a água vinha do poço e só havia mato para todos os lados. Lá, fomos à primeira família a ter televisão, então era comum os vizinhos irem à nossa casa assistir ao Clube dos Artistas e às lutas livres. Já na região dos Remédios, lembro que a água vinha da Serra do Itapeti e o Largo da Feira (Francisco Ribeiro Nogueira) sempre sofria com as enchentes. Meus filhos traziam os móveis dos amigos que moravam ali para serem guardados em nossa casa. Muitas famílias perdiam tudo o que tinham. Outra lembrança é que os funcionários da Dresser, antiga Huber Warco, como meu marido, ajudaram na construção da Maternidade Mãe Pobre. Nós também participávamos das festas da Capela Nossa Senhora dos Remédios e íamos à feira realizada no Largo todos os sábados, que era tradicional.

Ficaram outras lembranças da Mogi das Cruzes de antigamente?
Lembro do antigo Mercado Municipal, que tinha abertura no meio e era rodeado por bancas. Eu adorava comprar o cuscuz de lá, além de queijos, doces, principalmente a cocada branca, e compotas. Na Rua Senador Dantas, em frente ao Instituto Dona Placidina, também havia uma senhora que vendia doces deliciosos, como os de figo cristalizado. Ficaram saudades, ainda, da tranquilidade que tínhamos para andar pelas ruas a qualquer hora, a pé, sem qualquer perigo. Além disso, todos os anos, a imagem de Nossa Senhora Aparecida visitava as casas das famílias, que as esperavam de portas abertas aos vizinhos e até a desconhecidos.

Hoje, quais são as distrações da senhora?
Gosto de assistir às novelas das seis e das nove, de preparar o pudim e a gelatina para o restaurante e de ir até lá na hora do almoço. Se não fizer isso, meu dia não fica completo.

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