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Finalmente, padre Alessandro Campos chega à Catedral de Compostela

Os últimos 80 km da peregrinação serão cobertos durante a manhã de hoje (madrugada, no horário espanhol). O religioso visitará a igreja e dará por cumprida sua promessa

DARWIN VALENTEPublicado em 26/10/2021 às 23:32Atualizado há 1 mês

O tão esperado final feliz da aventura de Padre Alessandro Campos pelos caminhos de Santiago está marcado para o dia de hoje, quando ele chegará, finalmente, à Catedral de Compostela, encerrando uma caminhada de mais de 869 km, entre os arredores de Paris, na França, até o seu destino final, no noroeste da Espanha, região da Galícia.

Ontem, o padre e seus dois acompanhantes, Thiago Gomes e Claudio Silva, o “Zum”, pernoitaram numa cidade denominada Palas de Rei, a menos de 80 quilômetros de distância da imponente catedral que fica no centro da pequena localidade para onde convergem peregrinos de todo o mundo.

É lá que, segundo a tradição, se encontra o corpo de São Tiago, um dos apóstolos de Jesus Cristo, que teria sido martirizado em Jerusalém, no ano 44 da era cristã, antes de ser levado para a Península Ibérica para ser sepultado naquele local.

Contam os historiadores que a origem da cidade de Santiago de Compostela está diretamente vinculada à descoberta do túmulo que acreditam ser de São Tiago, ou Santiago, em espanhol. À época, toda a Península Ibérica estava tomada pelos mouros, situação que acabou por manter os católicos confinados no extremo Norte daquela região. Por conta da ameaça da expansão muçulmana, a devoção ao apóstolo acabou criando um ponto de referência para os católicos da Espanha e consagrou, portanto, a idéia de uma rota de peregrinação, algo que acontece até os dias atuais. 

Santiago de Compostela é um importante destino para os peregrinos cristãos, só superada em volume de visitantes pelas cidades de Roma e Jerusalém.

Logo depois de atravessar as cidades de Melide, Arzúa, Arca e o Monte do Gozo, padre Alessandro Campos e seus amigos finalmente poderão cumprir as derradeiras obrigações de todos os peregrinos, a principal delas, a visita ao túmulo de Santiago, marca do final da peregrinação.

O ritual final dos peregrinos inclui outras ações. Segundo visitantes que já experimentaram por mais de uma vez o final de uma maratona pelos caminhos que levam à Catedral de Santiago, se o peregrino tiver a sorte de entrar pela porta principal do templo – já que a igreja vem sendo restaurada e nem sempre isso é possível – ele irá se encontrar com o Pórtico da Glória, uma obra de arte do escultor espanhol, mestre Mateo, que representa a história da salvação.

Logo à esquerda, estão quatro profetas do Antigo Testamento, que simbolizam a vinda de Cristo, enquanto à direita, quatro apóstolos do Novo Testamento, significando o anúncio de Cristo. E, bem ao centro, imponente, está a imagem de Cristo, representando o templo, na condição de mediador entre Deus e os homens.

Na coluna central de quem ingressa na Catedral, está Santiago, conhecido com o apóstolo enviado de Cristo, que transmite a fé aos visitantes.

Uma das muitas tradições de quem visita a Catedral e justamente dar um abraço no apóstolo. Para isso, sobe-se numa pequena escada, do lado direito do altar-mor, onde, no alto, está a imagem de Santiago, que pode ser abraçada por trás. O peregrino desce, então, por outra escada, à esquerda do altar.

Depoimentos de peregrinos, existentes em abundância nas redes sociais, trazem algumas palavras que devem ser ditas durante o abraço à imagem de Santiago: “Obrigado amigo Santiago, irmão Santiago, por ajudar-me a chegar até aqui. Obrigado por tua pessoa, por tua companhia, por teu depoimento, por teu legado”.

Na sequência da permanência dentro da Catedral, visita-se o Sepulcro de Santiago, mas para isso é preciso descer até a parte inferior do altar principal, onde está a cripta, cujas paredes faziam parte da antiga tumba do santo. Lá estará a urna com os restos mortais de Santiago. 

Assistir à Missa do Peregrino, celebrada diariamente ao meio-dia, é outra “obrigação” de quem completa o Caminho de Compostela. Durante a celebração, é lida a lista dos romeiros que chegaram até ali nas últimas 24 horas.

A atual Catedral de Santiago foi construída a partir de 1078, consagrada em 1128 e concluída em 1211, quando teve sua fachada principal, considerada uma obra prima da arquitetura galega, construída em estilo barroco.

Cansaço

Ontem, ao chegar em Palas de Rei para dormir, o grupo continuava vivendo a rotina das últimas horas, dividida entre o cansaço, reflexões, emoções e risos. Tudo isso temperado com “a ansiedade pela chegada, que agora está mais perto”.

E enquanto os viajantes se preparam para mais uma noite no caminho para Compostela, no distrito de Braz Cubas, em Mogi das Cruzes, a família de padre Alessandro Campos vive momentos de semelhante expectativa e tensão:

“Ainda bem que eles já estão quase chegando”, afirma a irmã Daiane, mãe de pequena Rebeca, a sobrinha que levou o religioso a se enveredar pelo Caminho de Santiago, pagando uma promessa feita pela saúde dela, então com menos de 1 ano. 

A pequena Rebeca hoje está com 2 anos e 10 meses e já frequenta a pré-escola. E também entende quando a avó, Fátima, e os pais, Daiane e Alan, conversam, de vez em quando com o tio Alessandro, que ela não vê há muito tempo e só fala com ele ao telefone. “Os dois sempre foram muito grudados”, conta a família.

“Estamos todos ansiosos, aguardando notícias”, diz Daiane. Durante toda a viagem, padre Alessandro ligava para a família a cada dois dias, quando as condições permitiam. Ao longo do caminho, nem sempre há sinal de telefone ou internet disponível.

Daiane conta que seu irmão sempre reclamou muito do cansaço e do frio.

E, por fim, confirma uma notícia que chegou aos ouvidos do repórter por terceiros.

Por muito pouco, Daiane, Alan e a pequena Rebeca não deixaram Mogi das Cruzes diretamente para Santiago de Compostela para se encontrar com padre Alessandro, ao final da peregrinação. “Seria um final digno de um filme”, comenta um amigo da família.

O encontro só não foi possível porque o convite do religioso veio muito em cima da hora. Há cerca de uma semana, padre Alessandro fez a proposta para a irmã que, é claro, topou imediatamente. Ela só não contava com a burocracia exigida para quem precisa fazer uma viagem de última hora e ainda não dispunha, por exemplo, de passaporte. Bem que ela e o marido tentaram, mas não foi possível obter a documentação.

“Não deu tempo”, lamenta Daiane, que agora espera pela volta do irmão famoso. “A nossa expectativa é enorme para tê-lo conosco novamente”, garante ela, cheia de saudades.

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