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Ex-comerciante e conselheiro vitalício do União, Jamil Maksud morre aos 99 anos

Corpo está no Velório Municipal Cristo Redentor; velório será nesta quarta-feira (21), no Cemitério São Salvador

Carla Olivo
20/09/2022 às 19:48.
Atualizado em 20/09/2022 às 21:50

Jamil Maksud, ex-comerciante de Mogi e conselheiro vitalício do União, morreu nesta terça-feira (20), aos 99 anos

O corpo do ex-comerciante e conselheiro vitalício do União Futebol Clube, Jamil Maksud, será sepultado nesta quarta-feira (21), em horário ainda a ser definido pela família, no Cemitério São Salvador, em Mogi das Cruzes. Ele morreu hoje (20), mas a causa do óbito não foi divulgada. Familiares e amigos prestam as últimas homenagens, no Velório Municipal Cristo Redentor, no Parque Monte Líbano, até a meia-noite desta terça-feira e a partir das 6 horas de amanhã (21).  

Quem frequentou o antigo Cine Parque, na rua Dr. Ricardo Vilela, com certeza se lembra do garoto que na década de 30 trabalhava como baleiro todas as noites no saguão do cinema. Esta era uma das tarefas do mogiano Jamil Maksud, na época com 10 anos, para ajudar no sustento da família formada por oito filhos. À tarde, ele trabalhava no Mercado Municipal e pela manhã, fazia o primário no Grupo Escolar Coronel Almeida.

Ele era filho de imigrantes sírios - os pais (Sadek Maksud e Cafa Haddad Maksud) deixaram a Síria em 1919, com destino a Mogi das Cruzes, onde o patriarca da família passou a trabalhar como comerciante vendendo fazendas e armarinhos na rua Coronel Souza Franco, assim como a maioria dos árabes vindos para a cidade naquela época.

Jamil Maksud herdou do pai a habilidade para o comércio e de 1945 a 1988 comandou a Casa Record, que seguindo o padrão das lojas típicas de cidades interioranas, vendia um pouco de tudo, desde chapéus, sapatos, armarinhos a fazendas, na rua Dr. Deodato Wertheimer.

Dinâmico, Maksud foi presidente do União Futebol Clube e da Comissão de Carnaval da Prefeitura de Mogi das Cruzes, conselheiro do Clube Náutico Mogiano e do Itapeti Clube, além de exímio dançarino em bailes da cidade. 

Personagem da série Entrevista de Domingo, de O Diário, em 5 de fevereiro de 2006, ele compartilhou suas histórias com os leitores. Confira a íntegra da entrevista:

Por que seus pais deixaram a Síria para morar em Mogi?

Meus pais (Sadek Makssd e Cafa Haddad Maksud) saíram de Homs, na Síria, em 1919, já casados, para morar em Mogi das Cruzes. Havia um tio que vivia aqui e ele os convidou para vir trabalhar na Cidade. Meu pai era comerciante da rua Coronel Souza Franco, onde vendia desde fazendas a armarinhos, já que naquela época este tipo de comércio era comum às famílias árabes e muita gente comprava tecidos para fazer suas roupas em costureiras ou alfaiates. Outros imigrantes viviam como mascates, vendendo roupas de porta em porta. Nossa infância não foi fácil e éramos em oito irmãos, mas hoje há somente quatro vivos (Jamil, William, Roberto e Lourdes).

Quais as lembranças de sua infância na Cidade?
Quando nasci, meu pai já trabalhava no comércio, mas na fase em que eu estava na escola, ele já não tinha mais a loja. Fiz o primário no Grupo Escolar Coronel Almeida e havia uma curiosidade naquela época. A professora do primeiro ano, dona Enedina Freitas era casada com o professor do terceiro ano, Eurico Freitas. Da mesma forma, a professora do terceiro ano, dona Isabel Souza Melo, era mulher do professor do segundo ano, Francisco Souza Melo. Da infância, lembro que brincava nas proximidades do Cine Parque, que ficava na rua Dr. Ricardo Vilela, na área onde hoje funciona um estacionamento. Mas foi um tempo difícil porque meu pai não tinha sido feliz no comércio, a situação estava difícil e ele faleceu quando eu tinha apenas 13 anos, então, comecei a trabalhar desde menino. Fiz somente até a quarta série primária e não tive oportunidade de continuar estudando porque precisava trabalhar para ajudar a família.

Qual seu primeiro emprego?
Nesta época do Grupo Escolar, estudava pela manhã, trabalhava no Mercado Municipal à tarde e à noite, era baleiro no Cine Parque, onde fiquei durante muitos anos. Tinha 10 anos quando fui trabalhar com a Dona Cória, que era proprietária do bar do cinema.

Onde o senhor trabalhou dentro do Mercado Municipal?
Fui funcionário do Café Lourenço, que era da família Cupaiollo e depois de algum tempo, comecei a trabalhar na banca de cereais do seu Ramiro Estrela. Fiz muitas amizades no comércio e, principalmente neste tempo em que trabalhava no Mercado Municipal, que formava uma grande família. O Mercadão de Mogi também era referência em várias cidades e lembro que o pessoal vinha de subúrbio para cá comprar carnes e doces especializados.

Depois de lá, onde o senhor trabalhou na Cidade?
Do Mercado, o seu Ramiro abriu uma loja na rua Dr. Deodato (Wertheimer). A Casa Record ficava na esquina com a Senador Dantas, ao lado da Padaria Americana, mas como o Ramiro estava para se aposentar, me ofereceu uma grande oportunidade de ficar com a loja e fui pagando o que devia a ele com o próprio lucro do comércio. Já estava com meus 21 anos e não foi nada fácil, mas trabalhei muito e o esforço compensou.

Como era aquela região de Mogi na época?
A Padaria Americana, que ficava ao lado da Casa Record, era bastante freqüentada na época. A antiga Rodoviária, onde hoje é a Praça Firmina Santana, também ficava bem perto dali e estava sempre muito movimentada. Meus clientes eram, principalmente, as pessoas que moravam nos distritos de Capela do Ribeirão, Biritiba Ussu, entre outros pontos da cidade, que precisavam vir ao centro sempre que tinham de comprar algo. A Casa Record era uma das mais conceituadas da área central naquela época, principalmente porque as costureiras e alfaiates também compravam lá. A grande maioria das pessoas mandava fazer roupas sob encomenda porque não se comprava peças prontas com tanta facilidade como hoje. Além disso, vendíamos muitos chapéus porque era difícil encontrar um homem na rua sem este acessório, então, tínhamos vários modelos, em cores e tecidos diferentes.

O que a Casa Record vendia?
Vendíamos de tudo um pouco, desde fazendas, armarinhos, chapéus, sapatos, entre outros produtos. Tínhamos um estoque bem variado, assim como a maioria das lojas existentes em cidades do interior naquela época. De 1945 a 1965 fiquei naquele endereço e depois, a Casa Record foi para a mesma rua Dr. Deodato, 147, em frente ao jardim da Praça Oswaldo Cruz, onde em 1988 me aposentei e, então, passei a loja para meu irmão Oswaldo, hoje já falecido.

O senhor teve envolvimento com o futebol mogiano, não é mesmo?
Fui presidente do União durante oito anos, na década de 80, numa época áurea do time. Aquela área da Vila da Prata, onde tínhamos planos de fazer um grande clube, foi comprada no dia 8 de maio de 1965, na minha administração. O terreno tem 128 mil metros quadrados e precisava fazer renda para conseguir pagar as prestações, já que o preço era correspondente a R$ 50 mil hoje. Tínhamos dado o equivalente R$ 15 mil como entrada e durante três anos ficamos pagando 35 prestações que hoje seriam de R$ 1 mil ao mês.

Como o clube conseguiu pagar a área?
Conseguia pagar as prestações com a renda adquirida na realização de festas e bailes. Todos os sábados tínhamos a soirré e uma vez por mês havia um grande baile, que era sempre muito bem freqüentado. Também na minha administração conseguimos inaugurar a primeira iluminação, graças à campanha ‘Luzes para o Futebol Mogiano’, realizada por uma comissão formada pelo Tote (Tirreno Da San Biagio, fundador de O Diário), Netinho, Moura Santos e Michel Namura. Além de presidente da diretoria do União, fiz parte do conselho deliberativo, mas já era ligado ao clube desde os tempos da escola. Só que como trabalhava o dia todo, não tinha tempo para jogar bola e somente acompanhava as partidas como torcedor do União, que viveu bons momentos em 1947. Sempre estive presente e acompanhei todas as vitórias e também os dissabores do clube.

Como o senhor avalia a situação do União hoje?
É uma tristeza ver o clube que foi um expoente do futebol e da sociedade mogiana nesta situação desagradável. Sempre gostei e lutei pelo União, mas o futebol profissional do clube era deficitário e não havia arrecadação que cobrisse as despesas, por isso, o clube se afundou em dívidas geradas pelo grande volume de ações trabalhistas.

E os bailes de Carnaval do União?
Eram fantásticos. O União foi o rei do Carnaval não só de Mogi, mas de toda a região. Realizávamos quatro noites muito animadas, com salão lotado e tanto era assim que numa certa hora, tínhamos de encerrar a bilheteria porque não dava para entrar mais ninguém. Porém, o Carnaval do Itapeti Clube, assim como os bailes de formatura tradicionais por lá, também era muito freqüentado, principalmente pela alta sociedade mogiana. Na década de 80, na gestão do Waldemar (Costa Filho, ex-prefeito), fui presidente da Comissão de Carnaval da Prefeitura de Mogi e depois, com o fim de seu mandato, continuei este trabalho na gestão de seu sucessor, o Cascardo (Sebastião, ex-prefeito).

Como eram os desfiles do Carnaval de rua mogiano?
O Carnaval de rua mogiano era maravilhoso, muito animado e com desfiles bonitos, realizados principalmente por duas escolas que brigavam pela conquista do título de campeã. A rivalidade entre a São João e Comercial enriquecia o Carnaval mogiano porque as duas escolas primavam pela qualidade e preparavam ótimas apresentações, numa grande disputa. Na época, o patrono do São João era o Boy (ex-deputado Valdemar Costa Neto).

Além do União, o senhor teve envolvimento em algum outro clube da Cidade?
Fui conselheiro do Itapeti Clube e do Náutico, onde acompanhei as principais obras do Carlito (Carlos Augusto Ferreira Alves), que até hoje é presidente de lá. Desde 1966 deixei de atuar na administração do União, mas continuo como conselheiro do clube.  

O que o senhor passou a fazer depois da aposentadoria?
Sempre fui pé de valsa e junto com minha esposa, gosto de ir aos bailes da terceira idade promovidos pelo Wilson Cury, no Clube de Campo, e aos eventos do Náutico. Na juventude, também era bom dançarino e um dos meus pares era a Nevinha (Miller da Silveira), que também dançava muito bem.

Onde o senhor conheceu sua esposa?
Nós nos conhecemos na Casa Record. Ela morava em São Paulo, veio visitar sua família que era de Mogi e foi fazer compras na loja acompanhada por uma prima que já era nossa cliente. Namoramos pouco tempo, nos casamos e ela veio morar em Mogi.

Quando o senhor montou o Recanto Makssud?

Há 55 anos comprei aquela área, considerada zona rural da Cidade. Era um terreno bruto e fiz tudo o que existe lá hoje. Plantei cerca de 250 árvores, incluindo os pinheiros. Ali era o local de lazer da minha família e adorávamos passear no sítio aos finais de semana, fazer churrascos, festas e receber os parentes e amigos. Na época em que me aposentei, isso me ajudou a ocupar o tempo e não sentir tanta falta da rotina do trabalho no comércio. Com o tempo, Mogi foi crescendo tanto que aquela área passou a fazer parte da zona urbana e hoje já está quase no centro da cidade.

O local já foi cenário de muitas festas, não é mesmo?
A partir de 1985, a família começou a ter outros compromissos e foi perdendo o entusiasmo de freqüentar o sítio. Como passei a emprestá-lo sempre para as festas de amigos, com o tempo comecei a cobrar aluguel a fim de pagar as despesas necessárias à conservação do local, que são altas. Durante um tempo, o Recanto Maksud esteve arrendado para o Buffet Tropical, que ali fazia festas de todos tipos, desde confraternizações a aniversários e casamentos. Hoje é minha filha quem cuida da administração do local, muito alugado para eventos, mas diariamente gosto de ir até lá porque tenho um grande carinho por tudo que consegui fazer lá.

Qual a maior alegria de sua vida?
Sempre fui muito alegre, otimista em tudo e trabalhador. Graças ao apoio que recebi do Ramiro na época em que ele me passou a Casa Record e ao mesmo esforço para vencer na vida, consegui alcançar o que queria. Foi difícil, mas deu certo.

E tristeza?
A perda dos meus pais. Minha mãe faleceu aos 90 anos e sempre fomos muito apegados, mesmo porque, quando meu pai morreu tinha apenas 13 anos, então, vivemos juntos a fase mais complicada de nossas vidas.

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