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MOGI CONTRA A FOME

Em situação vulnerável, famílias de Mogi têm fome

O Diário joga luz a três histórias, que simbolizam como vive quase um terço da população local, que se encontra em situação de pobreza

Heitor HerrusoPublicado em 11/06/2021 às 12:51Atualizado há 2 meses
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Como O Diário mostrou recentemente, 27,1% dos moradores da cidade (ou exatos 122.228 mogianos) vivem em situação de pobreza. Mais alarmante ainda é outro índice: 79.633 pessoas se encontram em pobreza extrema. Os números traduzem um cenário triste, agravado pela pandemia em Mogi das Cruzes. Em outras palavras, muita, muita gente passa fome por aqui.

Existem, é claro, iniciativas para levar alimentos a quem precisa. Um exemplo é a arrecadação de alimentos nos pontos de vacinação, e outro a campanha Mogi Contra a Fome, da prefeitura, que “que visa diminuir e atenuar os impactos gerados pela pandemia durante a vigência do período de calamidade pública”. 

Se enquadraram neste projeto aqueles que têm renda familiar de até três salários mínimos e que estão cadastrados no sistema Cadastro Único. Esta, porém, é apenas uma das maneiras de ajudar quem precisa. Outras entidades, como igrejas e templos religiosos, vêm arrecadando alimentos, itens de higiene pessoal, roupas e brinquedos. É o caso das paróquias ligadas a Diocese e também da Igreja Manancial da Fé, do Mogilar.

Neste início de mês, a Festa do Divino, por exemplo, doou 8,3 toneladas de alimentos para 19 entidades. Essas instituições têm seus próprios cadastros de famílias em situação de vulnerabilidade, e, infelizmente, já não conseguem mais atender a todos.

Em determinados endereços, como na Associação Madre Esperança de Jesus, que atende o Jardim Piatã, a demanda é maior do que a oferta, e por isso é mantido um estoque de produtos para serem disponibilizados em caráter emergencial, a quem procura por ajuda batendo na porta.

Considerando este cenário, a reportagem de O Diário joga luz a três histórias emocionantes, que simbolizam o que passa quase um terço da população local. No já citado Jardim Piatã, a superação de uma família que  conseguiu erguer um lar de alvenaria, com recursos do auxílio emergencial federal.

Em Jundiapeba, uma casa em que moram nove pessoas, mas em que apenas três trabalham, sendo uma diarista e dois vendedores de água mineral, no semáforo. E na Vila Lavínia, um jovem casal que, demitido durante a pandemia, vive de doações para sustentar duas crianças pequenas.

 Famílias que resistem

No Piatã, Vila Lavínia, em Jundiapeba e outros bairros, mogianos enfrentam dificuldades

Embora sejam muito importantes, tanto o auxílio emergencial federal como o municipal não são suficientes para colocar comida na mesa dos mogianos. As histórias a seguir comprovam isso, já que as três famílias recebem cestas básicas complementares.

A assistente social Gisele Bitencourt Soares, 34, que atua no Jardim Piatã, confirma o aumento da demanda por alimentos. “No ano passado, atendíamos 70 crianças na Associação Madre Esperança de Jesus. Conseguimos aumentar para 110, mas já temos fila de espera de mais 70”, diz ela, que para oferecer ajuda a mais pessoas precisaria de um repasse maior.

Responsável por “filtrar vulnerabilidades das famílias, fazer atendimentos e encaminhá-las para serviços que fazem acolhimento”, Gisele detalha o cenário. “Durante a pandemia, tem sempre famílias batendo na porta para pedir alimentos. Então montamos kits emergenciais para atende-las”. 

Também desempenham papel importante neste momento, quando há a necessidade por assistência está elevada, as igrejas e templos religiosos. Porém, como conta o bispo diocesano, dom Pedro Luiz Stringhini, há momentos em que as paróquias, por exemplo, não têm alimentos para oferecer. 

E como afirma o pastor Marcio Marques, “com a pandemia a arrecadação foi comprometida”, forçando com que fossem criados novos métodos de doação, como os eventos em esquema de drive thru.

Muitas famílias, compostas por gente de todas as idades e de todas as perfis, contam com o repasse de entidades como estas para garantir a sobrevivência dos seus. Mesmo assim, continuam encontrando maneiras de manter o sorriso no rosto. Afinal, dizem elas, sempre há o que agradecer.

Aqui, além das histórias, o leitor encontra uma lista de pontos em que pode fazer doações, para ajudar a garantir as refeições de milhares de mogianos.

 No Jardim Piatã, auxílio é usado para construir casa de alvenaria

Quando chuvas fortes atingiram o Jardim Piatã, em Mogi, derrubando a morada de madeira do casal Valéria de Oliveira Luciana, 36, e David Alves Pereira, 35, eles não desistiram. Afinal, precisavam de um novo teto para abrigar os filhos, Arthur Alves Pereira, 14, Nara Alves Pereira, 12, que possui o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), e Sofia Alves Pereira, 8. 

Mesmo sem trabalho formal, a família conseguiu juntar recursos para erguer uma casa, simples, de alvenaria. Um lar, afinal, protegido da chuva, vento, sol. O dinheiro utilizado veio todo do auxílio emergencial do Governo Federal e também do Bolsa Família, já que Nara ainda aguarda a perícia para conseguir o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

A mãe, Valéria, também espera por uma perícia, já que convive com uma doença autoimune, que lhe provoca dores nas articulações e ossos. Portanto, a única renda extra é a de David, que faz “bicos” como capinador e ajudante de pedreiro.

Nos últimos meses, todos os recursos foram redirecionados para levantar as paredes e o telhado da casa, bem como adquirir alguns móveis para o imóvel, construído em terreno irregular, onde não há saneamento básico. 

Sendo assim, não sobra nada para comprar roupas, brinquedos ou alimentos. E é por isso que a família de Valéria, então, é assistida pela Associação Madre Esperança de Jesus, a única que atende o bairro. A entidade fornece uma cesta básica mensal, com verba enviada pela prefeitura. Não é o ideal, mas o suficiente para manter a alegria da família, que mesmo com dificuldades para enfrentar, continua sorrindo. 

 Em Jundiapeba, salário de R$ 660 e cesta básica sustentam nove pessoas 

Das nove pessoas que moram na casa de Tania da Silva, 51, em Jundiapeba, apenas três trabalham. Ela, avó de três netos, é diarista em um apartamento em São Paulo; e dois dos filhos vendem água mineral em um semáforo. Nas palavras de Tania, “Jesus sustenta a gente”.

Vivem com ela a filha Tatiane e os netos Rihanna Victoria, 7, e Rian Victor, 3; o filho Gabriel, 22, a esposa dele, Lidiane, que está grávida de três semanas; e os filhos Anderson e Alan; além do neto Igor. Com exceção de Tatiane, os filhos não concluíram os estudos.

Além dos ganhos com vendas no semáforo, a família vive com renda mensal de R$ 660, o que garante o pagamento das principais contas de consumo. Mas a comida na mesa vem de outra fonte: a “cesta do amor” fornecida pela Igreja Manancial da Fé, que fica no Mogilar.

O kit é, como Tania diz, “bem servido”, com “dois quilos de feijão, dois de açúcar, cinco de arroz, um óleo, produto de higiene”. É o que ajuda a manter a comida na mesa enquanto os filhos não conseguem emprego, mesmo que distribuam currículos.

Tania conheceu esta igreja há quase duas décadas, quando vivia na rua com os filhos, ainda pequenos. “Eles me acolheram muito bem”, agradece. Contudo, hoje, a renda é pouca para pagar água, luz, comprar gás, remédios e outros itens. Nem sempre dá para manter tudo isso.

“Às vezes acontece isso mesmo. Mas Deus arruma, prepara uma faxina, e dinheiro que pego já compro o gás. Está tudo caro. Óleo, feijão, arroz. E o pessoal não quer pagar o valor do trabalho”.

 Na Vila Lavínia, casal desempregado cria duas crianças, mesmo sem renda

Um casal jovem, com duas crianças pequenas. Todos com saúde, mas sem renda. Na Vila Lavínia, Caio César Correa, 33, e Anny da Silva Correa, 28, vivem de doações, enquanto distribuem currículos para tentar retornar ao mercado de trabalho. Ele ajudante de pintor e ela operadora de telemarketing: duas vítimas do desemprego durante a pandemia.

Caio César, que agradece pela cesta básica que recebe mensalmente da Igreja Manancial da Fé, diz que procura oportunidade em qualquer área, na verdade, mas que nada aparece, infelizmente. “No momento, não vou mentir. Estou à procura de alimento, e que eu puder fazer, farei. Peço ajuda para algumas pessoas, além de minha sogra, que me ajuda”.

“Aqui em casa, a única que recebe benefício é minha esposa”, lamenta ele,  que diz não ter conseguido participação nos programas de auxílio emergencial, tanto o federal como o municipal. “Tenho dívidas pendentes, que me preocupam bastante”. 

Com estoque baixo de “arroz, feijão e ovo”, Caio César diz que nem sempre há o que comer no dia seguinte, e não tem vergonha de dizer que hoje vive de ajuda, inclusive de doação de roupas e calçados. 

Mesmo assim, ele agradece pelo o que tem. Como uma televisão de tubo, que sintoniza apenas quatro canais. É o entretenimento da família,  composta também por Ana Lívia, 7, e Maria Luiza, 10. Juntos, os quatro encontram forças para continuar felizes. “Oramos todos os dias. Precisamos erguer a cabeça e seguir”. 

 Entidades recebem doações e repassam amor 

Grupos, como templos religiosos e associações de bairro, se desdobram para arrecadar alimentos e outros produtos, roupas, cobertores e itens de higiene pessoal

“A religião tem pelo menos duas funções. Uma é de socorrer, acolher, consolar, dar alívio, consolo. Outra função é abrir os olhos, conscientizar”. Para cumprir a primeira parte desta definição, dada pelo bispo diocesano dom Pedro Luiz Stringhini, todas as paróquias da Diocese de Mogi das Cruzes se desdobram para oferecer cestas básicas a todas as famílias cadastradas. Fazem o mesmo outras religiões, como a evangélica, a exemplo da Igreja Manancial da Fé, também instalada na cidade.

Para o bispo, não há dúvidas de que a crise sanitária aumentou os pedidos de ajuda. Mas ele oferece um olhar ainda mais crítico. “Certamente, sem a pandemia teria aumentado também, porque a conjuntura nacional também é diferente”. 

De acordo com dom Pedro, “muita gente procura assistência nas igrejas”, assim como nos projetos geridos pelo poder público. A demanda é tanta que, em determinados momentos, as paróquias ficam sem ter como atender.

“Mas vamos fazendo o cadastro e as visitas, e conseguindo alimentos, atendemos. Em geral eu penso que ninguém fica sem ser atendido, seja pelas entidades da igreja católica, seja pelas outras entidades”, avalia o bispo, para na sequência reconhecer: “é bom frisar que isso não é o ideal, e sim as pessoas terem emprego, trabalho, oportunidades. Isso é uma situação excepcional, de certa emergência, por isso a importância desse fundo emergencial do governo. Mas cadê esse fundo? Cadê os R$ 600,00?  As pessoas continuam precisando, a pandemia não acabou”.

Dom Pedro continua a reflexão. “As políticas públicas não podem ser só de socorro. Se existe um momento que a distribuição da renda se faz tão necessária, esse é o momento mais do que urgente”.

Quem reforça a importância do trabalho da assistência prestada por templos religiosos e outras entidades é o pastor Marcio Marques, 52, responsável pela Igreja Manancial da Fé, localizada no Mogilar. 

Ele, que tem capitaneado a campanha ‘Drive Thru Solidário’, gosta de chamar as doações de “cestas do amor”, ao invés de cestas básicas. Isso “porque no reino de Deus nada é básico. Trazemos a palavra para as pessoas e explicamos o envagelismo. Falamos do amor de Deus, de Jesus, e das pessoas”. 

Em um país com mais de 14 milhões de desempregados, o pastor celebra o fato de que há pessoas “que tiram da própria despensa, do próprio filho” para ajudar ao próximo. “É uma entrega de amor”, resume.

“A população está muito sensibilizada com a questão do desemprego. Com empresas fechadas e profissionais autônomos sem rendimento, aumentou muito essa necessidade (de doações). A gente vê em empresas, prefeituras, governos e também em comunidades, como a nossa comunidade de fé, que as pessoas estão abraçando muito forte esta causa”, finaliza Marcio, completando o pensamento.

  

Quer doar? O Diário separou algumas sugestões

Creche São José Operário

(11) 9.7285.4626 / 

(11) 4790.2063

Associação Beneficente “Onde Moras?” Abomoras 

(11) 4796-7904

Associação Beneficente ARCA

(11) 3996-8027

Associação Beneficente Seja Feliz Idade

(11) 9.9993-6005

Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Mogi das Cruzes

(11) 4728-4999

Associação de Renais Crônicos do Alto Tietê (Arcat)

(11) 9.5479.2442 /  

(11) 4738-1680

Associação Madre Esperança de Jesus 

(11) 4790-1174

Casa São Francisco de Assis 

(11) 4735-2015

Comunidade Missionária Nossa Senhora Rosa Mística

(11) 9.1039-4272

Comunidade São Francisco de Assis

(11) 9.9842.8665

Comunidade São Vicente de Paula

(11) 4799-8235

Diocese de Mogi das Cruzes / Paróquias

(11) 4724-9734

Fraternidade O Caminho

(11) 2610-5852

Fundo Social de Mogi das Cruzes

(11) 4798-5143

Igreja Manancial da Fé

(11) 9.8900-7602

Instituto Léa Campos

(11) 4724-2432

Instituto Pró+Vida São Sebastião

(11) 4723-7763

Instituto SOPA

(11) 97544-3444

Missão Intensidade

(11) 9.7657-9996

Núcleo Aprendiz do Futuro

(11) 2331-5136

ONG Jabuti Prema

(11) 4729.9573

ONG Recomeçar

(11) 9.9948-3695

Paróquia São Benedito

(11) 4792-5537

Projeto Pró Bem

(11) 9.5824-7312

Rede de Combate ao Câncer Guiomar Pinheiro Franco

(11) 4725-7756

Trupe Do Riso

(11) 9.8253-6867

  

  

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