O movimento de pessoas e automóveis é intenso por ali desde as primeiras horas do dia até tarde da noite. Mas o barulho dos motores e o falatório dos visitantes parecem não fazer qualquer diferença para o casal de corujas da espécie Buraqueira (Athene cunicularia) e seus dois filhotes, que se transformaram numa atração muito especial para os clientes de um supermercado atacadista localizado na avenida José Meloni, no bairro do Mogilar, em Mogi das Cruzes.

As duas aves escolheram uma parte do gramado existente ao lado do estacionamento para viver e lá se encontram há mais de um ano, sem serem incomodadas, a ponto procriarem ali mesmo. 

Sem incômodos? Vale lembrar que já houve até mesmo a tentativa de se fazer uma casinha para abrigar as corujas, mas a natureza falou mais alto e elas preferiram mesmo se acomodar em um buraco aberto por elas em meio à grama, quando não estão expostas ao sol sobre um pequeno poste ali existente, exibindo-se para os visitantes e fazendo a alegria principalmente das crianças que, invariavelmente, se apaixonam pelas aves de penas marrom cor de terra, em tons mais claros ou escuros.

A direção da loja atacadista não atendeu à reportagem para falar sobre as corujas, mas é certo que aprova a presença delas no interior do pátio interno. Tanto que algumas faixas com propagandas são colocadas, estrategicamente, nas grades externas, que se localizam logo atrás o local onde as aves habitam, e para onde são direcionados os olhares da maioria das pessoas, atraídas, é claro, pela beleza e graça das corujinhas.

“Será que elas fazem compra no supermercado?”- indagava, em tom de brincadeira, Maria de Fátima Reis, enquanto admirava as quatro aves, ao mesmo tempo em que tentava guardar suas compras no porta-malas de seu Fiat. “Elas são uma graça”, completou.

“As ‘buraqueiras’ são as corujas mais conhecidas por terem hábitos diurnos, viverem em buracos no solo ou em barrancos, se alimentando de insetos, pequenos roedores e répteis. Essas do Mogilar são nossas velhas conhecidas, pois até já se reproduziram por lá”, conta o veterinário Jeferson Leite, do Centro de Controle de Zoonoses de Mogi.

Experiente no trato com animais silvestres que habitam áreas urbanas da cidade, Jeferson confirma a história de que as corujinhas realmente rejeitaram a casa especialmente construída no gramado para elas.

“As pessoas se incomodam porque elas ficam expostas ao sol e até já tentaram colocar um aparato para fazer sombra, mas as aves sabem o que fazem e gostam de tomar sol, mesmo durante os dias mais quentes”, conta.

Segundo o veterinário, as corujas “buraqueiras” são muito tranquilas, “mas quando têm seus filhotes, podem ficar agressivas para defender a prole”.

As corujas do Mogilar não são as únicas a conviver com espaços movimentados da cidade. O veterinário é testemunha de um casal que adotou como seu lar o estacionamento do Banco Itaú, na área central de Mogi das Cruzes. E como se trata de um espaço impermeabilizado com concreto, as aves optaram por se esconder em um pequeno buraco existente junto ao sistema de escoamento de água do local.

E o que acontece em dias de chuva? Segundo Jeferson, elas ficam próximas da toca ou mesmo dentro dela. “Se for fraca, ficam na chuva mesmo”.

Coruja-buraqueira

As corujas da espécie Buraqueira são também conhecidas pelos nomes de caburé, caburé-de-cupim, caburé-do-campo, coruja-barata, coruja-do-campo, coruja-mineira, corujinha-buraqueira, corujinha-do-buraco, corujinha-do-campo, guedé, urucuera, urucureia, urucuriá, coruja-cupinzeira (algumas cidades de Goiás) e capotinha. Ganharam o nome científico cunicularia (“pequeno mineiro”), por cavarem buracos no solo.

As corujinhas são, geralmente, aves de pequeno porte, cujo tamanho médio alcança de 21,5 cm a 28,5 cm (machos) e de 22 cm a 25 cm (fêmeas). Pesam entre 110g e 285g (machos) e entre 150g a 265g (fêmeas). Possuem a cabeça redonda, sem penachos e os olhos estão dispostos lado a lado, num mesmo plano. As sobrancelhas são brancas e os olhos amarelos. A coloração é cor de terra, mimética, podendo apresentar plumagem em tons de ferrugem causados por solos de terra roxa (coloração adventícia), segundo o Wiki Aves. 

Ao contrário da maioria das corujas, o macho é ligeiramente maior que a fêmea e as fêmeas são normalmente mais escuras que os machos. Têm voo suave e silencioso. Elas costumam virar o pescoço para enxergar melhor, já que os grandes olhos estão num mesmo plano. Essa disposição frontal proporciona à coruja uma visão binocular (enxerga um objeto com ambos os olhos e ao mesmo tempo). Isso significa que a coruja pode ver objetos em três dimensões, ou seja, com altura, largura e profundidade.