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LUTO

Devota do Divino, Neide Cassola morre após 59 dias de luta contra a Covid-19

Ex-capitã de mastro faleceu aos 71 anos, após não resistir às complicações da doença, que também levou outros integrantes da Festa do Divino

Fábio PalodettePublicado em 17/10/2021 às 14:40Atualizado há 1 mês
Mogi se despede da ex-capitã de mastro da Festa do Divino, Neide Cassola da Silva / Foto: arquivo / O Diário
Mogi se despede da ex-capitã de mastro da Festa do Divino, Neide Cassola da Silva / Foto: arquivo / O Diário

Em um ano já marcado por duras e abruptas despedidas, a Festa do Divino de Mogi das Cruzes acaba de dar adeus a mais uma ilustre participante: a ex-capitã de mastro Neide Cassola da Silva, faleceu aos 71 anos, após 59 dias de luta, internada com a Covid-19, segundo confirmado pela família, a devota foi sepultada na manhã deste domingo (17), no cemitério Parque das Oliveiras. No local, o padre Romolo Avagliano fez as orações. Ela foi casada com Joel Francisco dos Santos - já falecido - com quem atuou por muitos anos na Festa, além dos filhos Jeferson, Josmar e Josiane. O envolvimento do casal com as atividades da Igreja Católica teve início em 1976, quando morava no Mogi Moderno e participava da Paróquia de Santo Antônio. Tratava-se de uma pessoa que carregava consigo memórias boas - apesar da infância difícil - da simplicidade e do sossego da época em que a maioria das pessoas de Mogi das Cruzes se conhecia. Neide defendia o envolvimento de jovens no Divino para que a tradição passassee de geração a geração. “A família Cassola tem uma importante participação na Festa do Divino. Devotos trabalham em nome da fé, servindo e louvando o Espírito Santo”, trouxe nota da Festa do Divino nas redes sociais. Neste ano, o mais tradicional evento religioso e folclórico da cidade também se despediu de Wilson Geraldo Rodrigues; Waltely Aquino de Oliveira Junior, o Tely; Marivaldo Nogueira Nunes, da Barraca do Afogado; José Benedito Lafuente Costa, o Zé Louco, entre outros.

Em 2018, Neide foi entrevistada para O Diário. Nas páginas do jornal, ela contou sua história de devoção. Relembre a entrevista na íntegra:

Devota e ex-capitã de mastro da Festa do Divino Espírito Santo, a mogiana Neide Cassola da Silva avalia que Mogi das Cruzes muda durante o tradicional evento religioso e folclórico, com as famílias envolvidas em orações, agradecimentos e pedidos de graças. Nascida no Mogilar, ela iniciou os estudos no antigo 2º Grupo Escolar Aprígio de Oliveira, fez o Exame de Admissão e, aprovada, ingressou no Ginásio do Estado, onde cursou até a sétima série porque precisava trabalhar para ajudar no orçamento da casa. Filha mais velha do açougueiro Ricardo Cassola Filho e da dona de casa Rita Azevedo Cassola, Neide trabalhou na loja Jardim Magazine, nas proximidades da Praça Oswaldo Cruz, que vendia roupas femininas, masculinas e infantis. Aos 18 anos, casou-se com Joel Francisco dos Santos, homenageado deste ano na Festa do Divino. O envolvimento do casal com as atividades da Igreja Católica teve início em 1976, quando morava no Mogi Moderno e participava da Paróquia de Santo Antônio. Lá, ela foi catequista e, assim como o marido, fez parte do grupo de ministros da Eucaristia. Depois, Joel começou a ajudar na barraca do afogado e no caixa da quermesse. Em 2002, quando Airton e Beth Nogueira foram festeiros, escolheram o casal para capitães de mastro. A partir daí, eles sempre estiveram envolvidos na organização do evento, principalmente quando os filhos Josmar e Jeferson foram festeiros, ao lado das respectivas esposas, Flávia e Maria Tereza. Os netos seguem os mesmos passos e participam da Entrada dos Palmitos e Procissão de Pentecostes. Na entrevista a O Diário, Neide – que é coordenadora da acolhida das novenas na Catedral de Santana – conta suas histórias:

Como foi o envolvimento com a Festa do Divino Espírito Santo?

Em 1976, quando morávamos no Mogi Moderno, eu e o Joel fizemos um encontro de casais e começamos a participar da Igreja de Santo Antônio, ajudando inclusive na construção. Fomos voluntários e ministros da Eucaristia; ele era tesoureiro e eu catequista. Depois, o Joel começou a ajudar na barraca do afogado da quermesse da Festa do Divino Espírito Santo, já que era amigo do Airton Nogueira, e também no caixa da quermesse.

E o convite para capitães de mastro?

Em 2002, quando o Airton foi festeiro ao lado da mulher, a Beth, nos escolheu como capitães de mastro. Foi uma grande surpresa quando fomos convidados, porque não tínhamos experiência na organização da festa, apenas participávamos como devotos. Mas trabalhamos bastante ao lado deles e deu tudo certo. Esta experiência foi maravilhosa e ficou marcada para sempre na nossa vida. A partir daí, o Joel viveu para a festa, ajudando em tudo o que fosse preciso, tanto que neste ano foi homenageado com sua fotografia no panfleto e muito lembrado na novena. Fiquei emocionada. Eu sempre o acompanhei e, há 10 anos, depois que ele morreu, continuei nesta missão.

Quando os filhos também se envolveram no evento?

Aconteceu de forma natural, porque como eu e meu marido participávamos, os filhos, noras, genro e netos foram seguindo este caminho. Depois que fomos capitães de mastro, continuei no caixa e o Joel foi tesoureiro na Associação Pró-Festa do Divino. Em 2009, meu filho Jeferson e a nora Flávia foram festeiros e escolheram o Josmar e a Maria Tereza para capitães. Em 2012, eles inverteram as funções, então, nestes dois momentos, toda da família ficou muito envolvida com a organização da festa novamente. E ainda participamos bastante. Minhas netas sempre saíam de anjos na Procissão de Pentecostes e agora, como estão moças, ajudam na organização. O Enzo, que é criança, foi o imperador na Entrada dos Palmitos, ontem, e hoje sairá também na Procissão de Pentecostes.

Hoje, quais as tarefas da senhora na Festa?

Desde 2010, sou coordenadora da acolhida das novenas na Catedral de Santana. Recebemos o público todas as noites, ajudamos a organizar os padrinhos que entram com os festeiros e capitães de mastro, colaboramos na coleta, entrega das lembranças para os padres e em tudo o que é necessário. Além disso, gosto de ir às alvoradas, participar da Folia do Divino e também ir à quermesse.

Como a senhora avalia o crescimento da Festa do Divino nos últimos anos em Mogi?

Mogi muda com a Festa do Divino, onde as pessoas se encontram, conversam, fazem orações, pedem graças e também agradecem tudo o que já receberam de bom. É muito emocionante. Em 2002, quando fomos capitães de mastro, não imaginávamos este crescimento todo que a festa vive hoje. Este foi o primeiro ano em que a TV Diário participou ativamente da cobertura e lembro que até ficamos preocupamos com a dimensão que a festa iria ganhar com a divulgação na TV, mas tudo correu bem. A partir daí, a festa só cresceu e passou a receber gente de vários lugares. Nas alvoradas, a fila dá volta na Catedral por causa do povo que fica para o café comunitário, no salão paroquial. Além disso, o número de pessoas participando das alvoradas aumentou bastante e chega a impressionar. Nas novenas, os padrinhos também são muitos. Hoje, temos cerca de 180 a 220 por noite. Isso dá muita importância à festa, que não pode e nem vai se perder na memória da Cidade, por isso é importante envolver os jovens, para que a tradição passe de geração para geração sempre.

A senhora já recebeu graças do Divino Espírito Santo?

Acho que por causa da fé que nós temos, somos atendidos em tudo o que pedimos, além da proteção que o Divino nos dá durante o ano todo. Em 2006, meu marido ficou muito doente por causa do enfisema pulmonar e permaneceu 17 dias na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Fizemos uma corrente para ajudá-lo a sair e ele teve alta. Depois, quando minha filha foi dar à luz o Felipo, estava indo para o hospital, em São Paulo, mas havia um protesto e o trânsito ficou muito complicado, a viagem demorou e meu neto nasceu no carro. Graças ao Divino, que encaminha tudo na nossa vida, eles conseguiram chegar bem ao hospital, apesar do parto improvisado no carro.

Quais as recordações da infância na Cidade?

Foi uma infância difícil, meu pai (Ricardo Cassola Filho) era açougueiro na Rua Cabo Diogo Oliver, que antes se chamava Rua Tietê, no Mogilar. Minha mãe (Rita Azevedo Cassola) cuidava da casa e dos filhos (Neide, Nelson e Inis). Como filha mais velha, a ajudava a tomar conta dos meus irmãos mais novos. Enfrentamos muita dificuldade, principalmente depois que meu pai ficou doente dos pulmões.

Onde a senhora estudou?

Fiz o primário no 2º Grupo Escolar Aprígio de Oliveira, que funcionava na esquina das ruas Capitão Manoel Rudge e Dr. Ricardo Vilela, no Centro, onde hoje está o Liceu Braz Cubas. De lá, me recordo da professora chamada Lobélia e do ensino, que era muito bom na rede pública, diferente dos dias de hoje. Depois, fiz o Exame de Admissão, passei e ingressei no Ginásio do Estado (atual Escola Estadual Dr. Washington Luís), onde tive oportunidade apenas de estudar até a sétima série. Não cheguei a conclui o ginasial porque precisava trabalhar e ajudar minha mãe em casa.

Qual foi seu primeiro emprego?

Trabalhei na loja Jardim Magazine, perto do jardim (Praça Oswaldo Cruz), que vendia roupas femininas, masculinas e infantis e pertencia a um grego chamado Basílio. Ali por perto havia as lojas de calçados Calcilar e Record, a Pizzaria Maracanã, a Rádio Marabá, o Cine Odeon, entre outros. Naquela época, esta era a região mais movimentada da Cidade e onde as famílias costumavam passear. No jardim, as mães ficavam sentadas conversando enquanto as crianças brincavam livremente no coreto e os filhos já jovens davam voltas com os amigos para o flerte. Mas havia horário para chegar em casa. Íamos para o jardim às 18 horas e às 21 já tínhamos que estar em casa. Foi ali que conheci o meu marido, começamos a namorar e nos casamos quando eu estava com 18 anos.

A senhora morou no Mogilar. Chegou a presenciar as enchentes que castigavam o Bairro?

Morei na Rua Antônio da Paz, perto do Clube Náutico (Mogiano) e muitas vezes tivemos que sair de casa e ficar na minha avó, na Casarejos, até a água reduzir, o que levava vários dias. Minha mãe já se adiantava e levava todos os móveis para lá nestes períodos para evitar que a água estragasse tudo, mas como era muito exigente e gostava de ver a casa brilhando, sofria com os tacos do chão, que após a enchente ficavam muito danificados. Era um sacrifício para consertá-los e deixá-los bonitos de novo. Lembro que enquanto subíamos para a casa da minha avó, havia muita gente que descia só para ver a enchente. Era impressionante como o pessoal gostava de ver a água nas ruas. Depois, já casada, morei 27 anos no Mogi Moderno e em 2002 vim para César de Souza. Meu marido estava aposentado. Quando jovem, ele trabalhou na Aços Anhanguera, depois na Elgin do São João e por 35 anos ficou na Corning.

Ficaram saudades da Mogi das Cruzes de antigamente?

Sinto saudades da simplicidade, do sossego e da época em que a maioria das pessoas da Cidade se conhecia. Costumava-se andar de bicicleta, brincar e andar nas ruas sem qualquer perigo a qualquer hora do dia ou da noite. Não havia crimes e nem maldades. Eram outros tempos. Mas gosto da modernidade de hoje porque graças à tecnologia temos contato com muita gente e consigo conversar, inclusive, com meu filho que está morando nos Estados Unidos. Houve uma reza do Divino em casa e ele participou de lá. Se não tivesse a Internet, não seria possível.

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