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REPORTAGEM ESPECIAL

Casos de Covid em crianças de Mogi despertam atenção de pais e médicos

Registros de contaminações pelo novo coronavírus e mortes causadas pela doença em crianças, ainda não contempladas com a vacina, e adolescentes chamam atenção

Carla OlivoPublicado em 22/10/2021 às 15:29Atualizado há 1 mês
Foto: Eisner Soares / O Diário
Foto: Eisner Soares / O Diário

De uma hora para a outra, a pequena Zoe Louise, 1 ano e 2 meses, passou a recusar a alimentação e apresentou febre. Os pais a levaram à Unidade Básica de Saúde da Ponte Grande e o médico pediu o teste para Covid-19. Louen Costa, 23 anos, e o marido Caique Lima, 24, se assustaram com o resultado positivo para a Covid-19 na filha. As atividades no berçário na Creche Santana, que Zoe frequenta desde os oito meses, foram suspensas por 14 dias. Ela é uma das pacientes da doença com idade abaixo de 18 anos na cidade.

“Foi difícil lidar com isso, porque não imaginávamos. Ela parou de comer, achamos que era por causa da garganta, mas levamos no médico e era Covid. Por causa da idade, não podia tomar medicamento e só mamou no peito neste período”, explicou Louen, que assim como o marido, se contaminou com o vírus.

“Eu e ele tivemos sintomas fortes, dor de cabeça, febre, vômito, diarreia, tosse e dor no corpo. Não dá para saber como pegamos a doença, mas um pouco antes, a bisavó, de 72 anos, teve a doença e tivemos contato com ela”, conta Louen.

A mesma surpresa tomou conta da família da cabeleireira Aline Lumi Yoshida Faria, 23, quando a filha dela, Manuela, 2 anos e 5 anos, testou positivo para a Covid, em dezembro do ano passado, com 1 ano e 7 meses, na época em que a vacinação contra a Covid ainda não havia começado na cidade.

“Eu, meu marido e minha mãe (Maria Aparecida Lima Yoshida, 61 anos, também cabeleireira tivemos a doença. Atendi uma cliente que falou que a mãe estava isolada por causa da Covid, mas que não estavam tendo contato com ela, apesar de morarem na mesma casa. Alguns dias depois, perdi o olfato, e logo em seguida, aconteceu o mesmo com minha mãe. Passou mais alguns dias e meu marido (Kaique de Oliveira Faria Matos, 26) ficou ruim. Fomos todos fazer o teste, inclusive da Manu. Como já havia passado alguns dias, eu e minha mãe testamos negativo, mas meu marido e a Manu deram positivos”, conta Aline.

A criança ficou assintomática e não perdeu o paladar, mas o pai teve febre, diarreia e falta de ar. “Ficamos isolados, fizemos consultas online e tomamos os medicamentos Azitromicina e Prednisona. Foi um grande”, conclui.

No início dos sintomas, a estudante Beatriz Carrião Portella, 17, também custou a aceitar que estava com a Covid-19, apesar dos pais, Rodnei e Salomé, terem testado positivo para a doença.

“Eu e minha irmã estávamos isoladas no quarto, mas quando eu soube que também estava com o vírus, passei a ficar na sala e ela continuou sozinha no quarto. Fazíamos nossas refeições em horários diferentes, ficávamos de máscara o dia todo e mudou a rotina da casa. Foram 20 dias horríveis. Eu já tinha voltado à escola, precisei ficar novamente no ensino online, e apesar de gostar de comer, não conseguia sentir cheiro e gosto de nada”, relata.

Além disso, Beatriz testou positivo para a Covid na semana em que receberia a vacina contra a doença, então, precisou esperar mais um mês, após o término dos sintomas, para ser imunizada. “Além da falta de olfato e paladar, tive muito cansaço e tosse e até agora meu olfato não voltou totalmente”, conta, acrescentando que o período de distanciamento dos amigos, desde o início da pandemia, também foi sofrido. “Precisamos de gente, então, é complicado ficar distante”, diz.

Na casa da frentista Regina Ribeiro Costa, 31, a situação também ficou difícil depois que o filho, Kevin, 13, testou positivo para a doença, assim como ela e o marido, Fernando do Prado Graciolli, 41, encarregador 

“Achamos que meu marido pegou no trabalho e acabamos ficando doentes também. Meu filho não teve sintomas fortes, apenas febre em uma noite e até achamos que era gripe, mas depois ele começou a reclamar dos pés pesados e de dor de cabeça. Levamos no Hospital Ipiranga, ele fez o exame e deu positivo. Meu marido ficou ruim uma semana antes dele e eu, fiquei na sequência”, narra.

2.249 crianças e adolescentes contaminados

Com a população adulta e idosa imunizada com as duas doses da vacina contra a Covid-19 e os adolescentes de 12 a 17 anos também com pelo menos uma etapa do imunizante, os casos positivos em crianças chamam a atenção.

Em Mogi das Cruzes, dos 40.966 registros da doença, 2.249 correspondem à faixa etária de 0 a 17 anos, sendo que entre as 1.695 mortes, quatro foram de menores de 18 anos (1 de 13 anos, 1 de 15 e dois de 16 anos).

Segundo a pediatra Paula Russo, as crianças já apresentavam quadros de Covid, mas agora estas ocorrências são mais visualizadas devido à vacinação completa dos outros grupos. Mas a maioria não apresenta sintomas graves e, algumas vezes, eles não são percebidos.

“Os casos aumentaram quando as creches e escolas voltaram. Além disso, as crianças têm contato com os pais, que deixaram o home office e voltaram a seus locais de trabalho. Normalmente, elas pegam o vírus dos próprios adultos, que acreditam que podem relaxar com os cuidados, como o uso de máscaras, higienização das mãos e uso de álcool gel, já que estão vacinados. Mas os adultos também ainda estão sendo infectados, apesar dos casos mais leves agora”, conta.

Geralmente, segundo a pediatra, os sintomas mais comuns da Covid-19 em crianças são nariz escorrendo, tosse e dores no corpo, sendo que 70% têm febre e outros apresentam manchas. “Na maioria das vezes, elas vêm com um histórico de contato com com outra criança na creche ou adulto e familiar com suspeita de Covid”, explica.

Na avaliação de Paula, os adultos, como já estão vacinados, podem adquirir o vírus no ambiente de trabalho, apresentarem a forma assintomática da doença e levarem a doença para os filhos. “Mas há casos de contaminação em creches, porque agora já começam a aglomerar, dormem juntos e acabam pegando o vírus, mesmo com todos os cuidados, até porque, abaixo de 2 anos de idade não se usa máscara, então, fica mais difícil prevenir e evitar a contaminação”, destaca.

No entanto, a profissional reforça que não tem visto comprometimentos graves de Covid em crianças, hospitalização e mortes. “O que temos são pacientes desta faixa etária internados por causa do vírus sincicial respiratório (VSR) e bronquiolite”, conta Paula.

Caso a criança teste positivo para a Covid-19, a orintação é fazer o isolamento social, mesmo que esteja assintomática, porque pode transmitir o vírus a outras pessoas. “O teste para o diagnóstico deve ser feito a partir do quinto dia do aparecimento de febre, coriza ou dor no corpo, e não no início, porque senão, pode dar um falso resultado”, considera.

A pediatra também conclui que a volta presencial às aulas, mantendo os protocolos sanitários de prevenção à doença, é necessária neste momento. “Houve uma perda do controle para manter as crianças em casa, porque os pais saíram do home office e voltaram à rotina diária. É bem complicado evitar que elas não voltem a frequentar a escola presencialmente porque já ficaram muito tempo afastadas e surgem outros problemas, como ansiedade, estresse, e até psiquiátricos, com quadros depressivos, por isso é bom voltar, mas tomando todos os cuidados necessários. É importante lembrar que a pandemia ainda não acabou e as crianças estão sem a vacina”, conclui. 

A Secretaria Municipal de Saúde alerta que os principais sintomas da Covid-19 em crianças e adolescentes são os mesmos de outras faixas etárias, como febre, tosse e dificuldade para respirar, porém, as crianças podem não apresentar nenhum ou sinais diversos, como nariz entupido ou escorrendo, dor de garganta e, até mesmo, ter problemas gastrointestinais, como dor de barriga, diarreia e vômitos. “Em bebês é importante verificar febre, vômito, tosse e dificuldade respiratória. Os pais ou responsáveis devem procurar um serviço de saúde o mais rápido para avaliação médica”, trouxe a nota enviada a O Diário.

Mogi tem 4 óbitos de menores de 18 anos

Desde o início da pandemia, Mogi registrou quatro óbitos em vítimas menores de 18 anos: 1 adolescente de 13 anos e 1 de 15 anos, ambos com doença cardiovascular, 1 de 16 anos com doença neurológica crônica e mais 1 de 16 anos com autismo, doença neurológica e obesidade. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, nenhuma criança foi a óbito em Mogi devido à doença até o momento.

Região: 12 mortes até 17 anos

As 10 cidades da região do Alto Tietê registraram 12 mortes de crianças e adolescentes de 0 a 17 anos por complicações da Covid-19 desde o início da pandemia, em março do ano passado, até o último dia 13 de outubro. 

O levantamento do Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê (Condemat) aponta que Arujá e Guararema tiveram uma morte cada de crianças de 0 a 5 anos causadas pelo novo coronavírus. Na faixa etária de 10 a 15 anos foram 2 vítimas fatal em Mogi das Cruzes e 1 em Salesópolis. Já de 15 a 19 anos houve 2 ocorrências em Mogi, 2 em Ferraz de Vasconcelos, 1 em Itaquaquecetuba, 1 em Poá e 1 em Suzano.

Segundo a coordenadora da Câmara Técnica de Saúde do grupo, Adriana Martins, os cuidados para prevenção da disseminação do vírus são os mesmos para todas as idades.

“Uso de máscara facial, higienização das mãos, respeito aos protocolos de segurança e distanciamento de pelo menos um metro entre as pessoas devem ser cumpridos. No caso de adolescentes que estão inclusos no Plano Estadual de Imunização, a vacinação é essencial”, alerta a coordenadora.

Segundo ela, não é possível determinar um prazo para que a região conclua a imunização do público adolescente, com a aplicação da 2ª dose contra a Covid-19 porque os municípios dependem do envio das vacinas por parte do Governo do Estado para conclusão dos grupos de vacinação, bem como do comparecimento dos munícipes para completar o esquema vacinal. “Até o momento não temos informações de quando a totalidade das doses serão enviadas”, explica.

Com a diminuição dos índices de internação de pacientes com Covid-19 em leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), instalados em hospitais públicos do Alto Tietê para atendimento a esta população, Adriana destaca que o Condemat segue realizando gestão política junto ao Governo do Estado para manter estes leitos em funcionamento. “Ao mesmo tempo, reconhecemos que eles são necessários para o tratamento de outras enfermidades, inclusive, para o pós-Covid”, conclui. 

Cuidados para prevenção da Covid-19 em crianças:

- tirar uniforme da escola ou roupa usada na creche ao chegar em casa e tomar banho;

- higienizar mochilas e lancheiras todos os dias;

- higienizar narinas pelo menos 5 vezes ao dia;

- lavar constantemente as mãos com água e sabão e, quando não for possível, higienizá-las com alcool em gel;

- uso de máscaras cobrindo corretamente nariz e boca para crianças acima de 2 anos

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