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A Viagem

Burgos é uma lição de história no roteiro de padre Alessandro Campos

E o religioso de Mogi das Cruzes voltou a concelebrar uma missa; desta vez, na catedral de Burgos, uma das mais famosas e imponentes de todo o mundo

DARWIN VALENTE Publicado em 18/10/2021 às 00:19Atualizado há 2 meses

O final de semana encontrou padre Alessandro Campos a caminho de Burgos, uma parada obrigatória para quem faz o Caminho de Santiago de Compostela. Ele chegou à cidade no final da manhã de sexta-feira e aproveitou para descansar do esforço da derradeira arrancada após a saída de Logroño, que o levou a passar por Nájera, Santo Domingo de la Calzada, Belorado e San Juan de Ortega, numa distância de cerca de 100 km.

Na cidade, uma oportunidade para colocar a correspondência em dia e, principalmente, alinhavar alguns capítulos do livro que está produzindo, durante a caminhada, para a Editora Globo, onde deverá contar toda a experiência vivida ao longo do Caminho de Santiago. Este livro deverá ser lançado em janeiro do próximo ano. “Nele, eu vou contar com detalhes tudo o que a gente tem vivido, tudo o que a gente tem aprendido”, antecipou padre Alessandro, em depoimento gravado com exclusividade para este jornal e publicado na edição impressa do último sábado (16) e, neste domingo (17), em forma de podcast, na edição digital de O Diário.

Neste depoimento, ele também revelou que a editora já está com outro livro de sua autoria praticamente pronto para ser  lançado, logo que ele chegar ao Brasil, na volta da maratona por terras francesas e espanholas.

Mas não foi apenas pela oportunidade de descansar e avaliar tudo que já foi enfrentado na primeira semana de caminhada que Burgos ganhou importância especial no roteiro de padre Alessandro Campos. 

A cidade está intimamente ligada ao passado histórico da Igreja Católica, já que foi fundada em 884 com objetivo de preencher um espaço estratégico entre o Reino de Navarra e os domínios árabes. Burgos cresceria como a capital do Reino de Castillla y León, nos agitados séculos seguintes, de muitas guerras e combates sangrentos.

Vale lembrar que bem perto dali, em Vivar, foi onde nasceu uma das figuras mais míticas da história espanhola, El Cid, o guerreiro mercenário que comandou a reconquista de Valência para os cristãos no século XI, drama retratado no cinema por Charlton Heston e Sophia Loren, que tem um final apoteótico em que o grande guerreiro, já morto por uma flecha inimiga, é amarrado sobre seu cavalo, como forma de impressionar os adversários na vitoriosa batalha final da retomada do território valenciano. Coisa de cinema mesmo. A história real conta que ao contrário da morte heróica no campo de batalha, Rodrigo Diaz de Vivar, também chamado de “Campeador”, ou “El Cid”, morreu numa cama, em seu castelo, em Valência, no dia 10 de junho de 1099.

Além do passado histórico de grande importância para os espanhóis, Burgos, a capital da província do mesmo nome, guarda alguns dos mais belos exemplares da arquitetura gótica espanhola em seu centro medieval, incluindo sua bela catedral, considerada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

E foi justamente em meio à suntuosidade daquele templo histórico que padre Alessandro Campos participou da celebração de uma missa, a segunda durante a atual viagem. Com máscara no rosto, exigência também cumprida pelos demais participantes da celebração numa igreja que conserva beleza de tirar o fôlego de quem nela ingressa pela primeira vez. 

Durante a celebração foi possível notar um padre Alessandro visivelmente emocionado, fisionomia circunspecta, especialmente durante o rito da comunhão acompanhado por uma música sacra executada por um coral com acompanhamento de um órgão sacro. Sério, sisudo mesmo, a certa altura da cerimônia, o religioso sentou-se em grande banco de madeira, ao lado do altar, fechou os olhos e ficou em silêncio durante algum tempo, como quem estivesse prestando atenção na missa rezada em espanhol por dois outros padres, ou, quem sabe, fazendo uma avaliação de tudo que ocorreu em sua vida nos últimos anos de profundas mudanças.

 Depois de deixarem, juntos, o altar da celebração, padre Alessandro e os outros párocos da igreja se reuniram para uma troca de experiências. Conhecer a centenária igreja por dentro, ciceroneado por padres conhecedores profundos de sua história, é um privilégio que poucos conseguem alcançar. No encontro, o grupo falou sobre o trabalho religioso no Brasil, a peregrinação pelo Caminho de Santiago e outros detalhes da vida em Burgos. 

Afinal, as belezas daquele pedaço da Espanha não se limitam unicamente aos pináculos góticos da Catedral que constrastam com o horizonte. Lá existem ainda o Teatro Principal, o Museu e o Arco de Santa Maria. No alto de uma colina está o medieval Castelo de Burgo.  Mas há ainda o Mosteiro de Santa Maria la Real de Las Huelgas. A maioria desses lugares possuem fortes raízes religiosas, como a Colegia de Santa Maria em Valpuesta, onde teriam sido achados os Cartularios de Valpuesta, apontados como os mais antigos documentos conhecidos em espanhol.

O padre e seus acompanhantes, Tiago e Claudio, não tiveram tempo para ver tudo isso, mas conseguiram caminhar pela cidade e se divertiram posando para fotos ao lado de estátuas de guardas de transito ou policiais, esculpidas em bronze, em tamanho natural e colocadas em calçadas e praças públicas.

Ao deixarem para trás Burgos e seu histórico passado, a volta à estrada deverá conduzir nossos viajantes até a próxima parada, 25 km adiante: a cidade de Arroyo Sambol e, mais 11 km à frente, até Castrojeriz. A maratona continua.

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