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PANDEMIA CONTINUA

Aumento de casos de Covid-19 é resultado do relaxamento no fim do ano, avalia Téo Cusatis

Para entender a curva crescente de casos da doença em Mogi das Cruzes, O Diário entrevista o biomédico e ex-gestor municipal de Saúde, que reforça: "Temos que usar máscara, álcool gel e evitar aglomerações"

Heitor HerrusoPublicado em 11/01/2022 às 18:01Atualizado há 5 dias
Eisner Soares
Eisner Soares

Enquanto se discute uma “quinta onda” da Covid-19 no exterior, o Brasil – e inclusive Mogi das Cruzes – registra um considerável aumento nos casos da doença provocada pelo coronavírus. Exemplos disso são os fatos de que pelo menos três prefeitos da região, incluindo Caio Cunha (PODE), de Mogi, testaram positivo nos últimos dias e que cinco agências bancárias já fecharam na região pelo mesmo motivo.

Na avaliação de Marcello Delascio Cusatis, mais conhecido como Téo, biomédico, ex-secretário municipal de saúde e atual diretor do Hospital Santa Maria, de Suzano, não se trata, porém, de “ondas”. As forças da Covid-19 foram renovadas pelo “relaxamento”, afirma ele, que acredita que, praticamente dois anos após o início da pandemia, é possível inferir que tudo seja “muito físico e matemático”.

Para Téo, os números atuais são resultados de liberações precoces de medidas restritivas. “Quando falaram que o Governo do Estado ia tirar as máscaras, eu sempre falei que isso era precoce, que não havia necessidade. Precisamos ser mais comedidos, mais conservadores e mais prudentes. A lição de dois anos está aí: o vírus muda”.

Aqui, o biomédico explica que, “provavelmente, as novas variantes” – como a ômicron – “sejam oriundas do relaxamento e da cobertura vacinal não perfeita”, o que “faz com que o vírus seja transmitido entre pessoas não vacinadas e mute”.

Contudo, ele deixa claro que as mutações fazem parte do processo, e continuarão acontecendo sempre. Mas, com índices de vacinação a partir de 80% a nível nacional, elas tendem a diminuir.

“Apesar do Brasil ter cobertura vacinal interessante quando comparado a outros países, a gente não sabe quanto tempo dura a vacina. Todo relaxamento de aglomerações ou de cuidados pessoais vão fazer os casos acontecerem. A gente já viu isso na gripe, em menor proporção. E a vacina da gripe está no nosso calendário anual desde 2009”.

Neste ponto, Téo cita a “gripe suína”, ou H1N1, que na época atingiu cerca de 70 países. Desde então, anualmente as pessoas se vacinam. “E elas até pegam gripe, mas não tão grave”, comenta ele, que já viu o país registrar 95% de sucesso na adesão ao imunizante contra a gripe, o que ainda não é uma realidade com a Covid-19.

Mas as mutações sim, são reais em ambos os casos. A relação é a seguinte: aconteceu com o coronavírus, uma “doença nova e de proporções intercontinentais”, e aconteceu com a gripe, agora, novamente. Está aí a H2N3, que combinada à Covid-19, causa o que vem sendo chamado de “flurona”, e na semana passada já havia quatro casos em Mogi.

Aliás, aponta Téo, a H3N2, também chamada de variante “Darwin”, surpreendeu por ter aparecido “antes da hora”. “Alguns estudiosos apontam que, como ninguém saia de casa, houve pouca adesão à vacina, o que pode ter antecipado a mutação". Por isso, é preciso entender: “o vírus muda”.

 Carnaval é uma preocupação

Por mais que Mogi das Cruzes tenha cancelado o Carnaval de 2022, assim como fez a Prefeitura de São Paulo, o evento comemorado este ano no final de fevereiro – preocupa o biomédico Téo Cusatis, que faz uma avaliação baseada em números

“Ontem, salvo engano, foram 36 mil casos novos detectados no Brasil. Deve ser muito mais. Nos Estados Unidos, foram 2 milhões em um dia só. Já devemos estar em curva ascendente, e o pronto atendimento está ‘bombando’”, analisa.

Também gestor, Téo traz um exemplo real, do hospital em que trabalha, o Santa Maria, de Suzano. “No comecinho de dezembro, a estatística de casos confirmados era de 6% sobre os suspeitos. Ou seja, a cada 100 pessoas que procuravam, apenas seis testavam positivo para Covid, tanto que estávamos decidindo fechar o pronto atendimento respiratório, pois esta quantidade entra na rotina de uma doença comum”.

Mas, “no dia 10 de janeiro de 2022, 60,5% dos casos foram confirmados”, continua ele. Isso quer dizer que “a cada 100 casos suspeitos, 60 testaram positivo”.

“É o final do ano, não tem outra explicação. E não acho que nos próximos 10 dias possa cair muito. Temos que torcer para diminuir nos próximos 30 dias, porque a preocupação é o Carnaval, em não fazer aumentar os casos em abril”.

 Cuidados

Na visão do biomédico Téo Cusatis, contribuiu para o tal relaxamento e o consequente aumento de casos de Covid-19 a “ansiedade” em deixar de usar a máscara de proteção facial. Mas, mesmo em um futuro distante, quando este equipamento já não for mais necessário, ele acredita que os brasileiros terão de fazer como os povos ocidentais, que “colocam máscara assim que espirram”.

“Talvez isso a gente tenha que incorporar”, avalia ele, que recentemente visitou uma empresa, fora de Mogi das Cruzes, em que todos os colaboradores já se sentiam totalmente à vontade para não proteger mais a região da boca e do nariz.

“Infelizmente, com os números de informações de dados, com o aumento de casos, com a cobertura vacinal que não é perfeita ainda, temos que usar máscara, álcool gel e evitar aglomerações. Não dá para voltar a ficar dentro de casa, mas as pessoas perderam isso, esses cuidados. No fim do ano afrouxamos, relaxamos, e a conta está aí”.

 E o confinamento?

“Não dá pra fazer reunião com 10 pessoas em sala pequena; tem que continuar usando máscara, os restaurantes tem que manter distanciamento e um potinho de álcool gel nas mesas. Coisas muito simples ajudariam a controlar a situação, para que não se perca a vida normal, para que não voltemos ao confinamento”, avalia Téo.

Analisando os números desta terça-feira (11), ele diz que “não é preciso voltar” para esta etapa, mas sim é preciso retroceder no controle sanitário.

“Não dá para ter fila de espera em restaurante, não dá para ter hotel com 100% de ocupação. Se voltarmos a fazer as coisas com cautela, respeitando militarmente os cuidados, não precisaremos pensar nisso”, reforça.

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