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Memória

Agora com 108 anos, dona Mariquinha contou sua história a O Diário em 2018

Maria de Jesus Siqueira foi destaque na série "Entrevista de Domingo" e falou sobre a chegada a Mogi das Cruzes e a receita da longevidade

Carla OlivoPublicado em 20/02/2021 às 12:09Atualizado em 21/02/2021 às 15:44
Eisner Soares
Eisner Soares

Uma das centenárias já vacinadas contra a Covid-19 em Mogi das Cruzes,https://www.odiariodemogi.net.br/idosa-de-108-anos-%C3%A9-vacinada-em-mogi-que-imunizou-3-4-mil-pessoas-acima-de-85-anos-1.9984, a dona Mariquinha, foi tema de uma das reportagens da Série "Entrevistas de Domingo", publicada pelo jornal O Diário, em agosto de 2018. Confira a íntegra da entrevista concedida à repórter Carla Olivo: 

Dona Mariquinha conta suas histórias

Baiana de Monte Alto, a centenária Maria de Jesus Siqueira, a Mariquinha, é dona de uma memória invejável. Atenta a tudo, do alto de seus 106 anos, comemorados no último dia 25 de maio, ela traz na lembrança datas importantes, como o nascimento dos filhos, a saída de sua terra natal e a chegada a Mogi das Cruzes, após a passagem pela lavoura de várias cidades, além de inúmeros fatos. Filha do lavrador Bibiano Gonçalves Pereira e de Eudóxia Maria de Jesus, que fazia goma para passar roupa, ela viveu a infância humilde ao lado dos oito irmãos. Aos 16 anos, conheceu Antonio Odorico de Lima, criado pela família do político Antônio Carlos Magalhães (1927-2007) e, após o casamento, foi morar no sítio do marido. Mas a seca castigou a plantação, levou os animais à morte e fez a família sair a pé da Bahia com destino a Minas Gerais, onde trabalhou em uma fazenda até conseguir dinheiro para seguir viagem rumo a São Paulo. Após a passagem por cidades como Piratininga, Garça, Bauru, Tupã e Brasília, todas no Interior do Estado, ela, o marido e os filhos chegaram à antiga Capela do Ribeirão, hoje Taiaçupeba, onde ficaram 10 anos. De lá, foram trabalhar na Fazenda do Chá, da família do ex-prefeito Junji Abe, onde ficaram por quatro décadas. Viúva do primeiro marido e analfabeta, Mariquinha deixou o sítio com os filhos em 1962, quando se casou com Paulino Inácio Nunes de Siqueira - falecido em 1991 - e foi morar no recém-formado Bairro Porteira Preta, onde ainda reside. Na entrevista a O Diário, esta ‘corintiana da gema’, como se autodenomina, conta suas histórias e o segredo para chegar aos 106 anos sem tomar remédios e esbanjando saúde:

Ficaram lembranças da infância?

Nasci no dia 5 de maio de 1912, na cidade de Monte Alto, na Bahia. Com os irmãos José, Manoel, Francisca, Antonio, Joaquim, Jovelino e Júlia, tive uma infância humilde, porém com muito amor dos meus pais (Bibiano Gonçalves Pereira e Eudóxia Maria de Jesus). Brincava e subia em árvores desde muito pequena. Aliás, continuei pequena, porque tenho menos de um metro e meio (risos.) Também trabalhei desde cedo para ajudar a família, fazia farinha, costurava e lavava roupas. Era uma época difícil, meu pai trabalhava na roça e minha mãe fazia goma para passar roupa. Tudo ficava muito longe do sítio. Para fazer compras, meu pai viajava com tropa. Não havia nem sal para preparar a comida. Um rapaz nadador era quem atravessava o rio para ir buscar. Também andávamos três léguas para pegar água de beber, mas como ela era barrenta, precisávamos coar antes de tomar. O fogão era à lenha.

Quando a senhora conheceu o primeiro marido?

os 16 anos, conheci meu marido (Antonio Odorico de Lima), que era cinco anos mais velho que eu. Ele teve febre amarela, na época chamada de varicela, e foi salvo pela dona Hercilia Magalhães, casada com o coronel Necotonio Magalhães, avô do político Antônio Carlos Magalhães. Ele passou a morar com a família, que era rica, considerada milionária para a época. No dia do casamento, marcado na casa da dona Hercília, o juiz cobrou 10 contos de réis e disse: ‘Vou cobrar 10 contos porque é o mesmo peso do noivo’.

E depois do casamento?

Minha família toda foi morar na casa do Odorico, que era bem maior, e suas terras eram muitas, chegando a 200 alqueires. Depois de dois abortos espontâneos, minha primeira filha, Teresa, nasceu em 1934. Dois anos depois, veio o Francisco e, em 1938, os gêmeos Gerson e Gersolino. A minha primeira grande perda foi a morte do Gerson, com 2 anos de idade, depois de um mal súbito. Chorei um mês sem sair da cama, até que em um sonho, o Gerson apareceu e disse: “Mãe, não chore mais”, torcendo as roupas e dizendo ser minhas lágrimas.

Por que a família veio para São Paulo?

Em 1939, a seca toma conta da região toda e levávamos um dia para buscar água no rio mais próximo. Era uma tristeza só. Os animais morriam de sede e fome e a oficina de farinha parou. A maioria do que era plantado não nascia e o que brotava morria. Carregava a roupa na cabeça uma légua e meia para lavar no rio. Saía de casa de manhã e só voltava à noite, com tudo seco. Não havia mais esperança. Meu pai, autoridade, respeitado e temido por todos, tomou a decisão e com minha mãe, os filhos José, eu, Manoel, Antonio e Julia, meu marido e meus filhos Teresa, Francisco, Gersolino e Gerson, na época ainda vivo, levantou a cabeça e saiu em busca de uma vida melhor. Deixamos tudo para trás e viemos para São Paulo. Primeiramente, seguimos para Minas Gerais, a pé, dormindo ao relento, na rua, debaixo de árvores. Levamos coisas para comer e algum dinheiro, mas quando isso acabou, paramos na Fazenda Vaca Brava, em Espinosa, próximo de Belo Horizonte, que era do senhor José Benvindo, amigo do meu pai. Ali nos deram casa, comida e trabalho. Formamos uma lavoura de algodão e oito meses depois, a mando do meu pai, que não parava em lugar nenhum, juntamos tudo novamente e seguimos viagem para São Paulo, mas desta vez, de trem. Neste período perdi mais uma filha, que nasceu morta.

Para onde a família foi?

Chegamos na Fazenda Laranja Azeda, já em São Paulo, e trabalhamos no corte de lenha. Durante três anos continuamos viajando e passamos por Piratininga, Garça, Bauru, Tupã e Brasília, ainda no Estado de São Paulo. Eu trabalhava na lavoura de café e como costureira e rendeira. Meu pai, homem autoritário, quando resolvia mudar não se importava com nada e não ouvia ninguém, deixava lavouras prontas para trás e simplesmente dizia: ‘Arrumem tudo, estamos nos mudando’. Chegou até a tentar o suicídio, tomando veneno, quando foi contrariado. E não aceitava que apenas parte da família o seguisse. Queria todos juntos sempre. Finalmente, chegamos a Mogi das Cruzes, onde primeiramente moramos na casa do meu irmão Joaquim e da mulher dele, a Ema, que já estavam aqui, em um sítio na Capela do Ribeirão, que agora é Taiaçupeba. Ficamos 10 anos morando todos lá, em uma casa pequena, mas muito bem acolhidos por eles.

E depois?

Minha família foi convidada para trabalhar na Fazenda do Chá, no Km 15, em Biritiba Ussu, de propriedade de Izumi Abe, pai do Junji Abe (ex-prefeito de Mogi), que na época era uma das mais importantes da região. No dia 22 de junho de 1944, mudamos para lá e a partir daí decidimos não mais sair de Mogi. Minha filha Teresa se casou com Benedito, que também 

Por que a família deixou a Fazenda do Chá?

A vida seguiu até que em agosto de 1961, meu marido morreu por causa de um câncer de próstata. Em abril do ano seguinte, me casei novamente, com Paulino (Inácio Nunes de Siqueira), que era viúvo e tinha quatro filhos ( O r l a n d o , B e n e d i t o , Isaura e Aparecida). D e c i d i m o s então sair da Fazenda do Chá e fomos parar na Olaria do João Pavaneli, no km 12 da Rodovia MogiBertioga. Meses depois, mudamos para o km 8. Compramos um terreno no Bairro da Porteira Preta, que ainda estava se formando, e construímos uma casa de barro, em 1964. Por aqui só havia alguns sítios e nada de casas. A rua era de terra, não tinha iluminação e a água vinha do poço do fundo do quintal. Para fazer compras no Centro da Cidade, pegávamos a jardineira, que passava apenas em dois horários. Era uma para ir e outra para voltar. Meu segundo marido morreu em 1991, após parada respiratória.

Há mais lembranças desta época?

Quando chegava o final do ano, íamos todos para Aparecida, sentados em bancos de madeira montados na parte de trás de um caminhão, como se fosse um pau de arara. Outro caminhão levava feixes de lenha para cozinharmos onde parávamos, cobertores, esteiras para colocar no chão e dormir, além de panelas, alimentos e outras coisas para passarmos os dias na estrada ou em Aparecida, onde alugávamos quartinhos para ficar de três a quatro noites. Eu costurava os ternos dos homens e os vestidos das mulheres para estas ocasiões. Outra lembrança gostosa era dos casamentos. Quando alguém da fazenda ia se casar, nós ficávamos a semana inteira preparando as coisas da festa, todos juntos. E também me lembro que como não havia maquinários como hoje, tudo era feito na mão, como por exemplo, a escolha das batatas, que eram separadas uma por uma. Mas a fazenda ficava bem longe do Centro da Cidade e sempre que precisávamos de compras, era preciso ir a pé até o armazém do Jorge Salomão, perto da antiga rodoviária (Praça Firmina Santana), pela Estrada Velha. Ficamos morando na fazenda uns 40 anos.

A senhora está com 106 anos, lúcida e com saúde. Qual o segredo?

Acho que não tem segredo. É por Deus. Sou muita religiosa, sempre tive oratório em casa e sou devota de vários santos, mas principalmente de Nossa Senhora Aparecida. Não tomo remédios, adoro comer arroz, feijão, carne e batata e não gosto de frutas, verduras e legumes. Sou corintiana da gema, por isso meu aniversário de 100 anos foi todo com a decoração do Corinthians. Para falar a verdade, não esperava chegar onde cheguei, mas há pouco tempo fiz exames e o médico disse que não tenho nenhuma doença e estou bem de saúde. Então, dou graças a Deus.

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