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Juntos na jornada

A importância dos amigos no caminho de Compostela; conheça Thiago e Zum

Padre Alessandro chegou a pensar a fazer a viagem sozinho, mas os conselhos de amigos e de suas “velhinhas” fizeram com que ele mudasse de ideia

Darwin ValentePublicado em 22/10/2021 às 10:53Atualizado há 2 meses

“Bora, padre Alessandro... faltam só dois quilômetros...” A voz de Thiago Gomes, o baterista que acompanha o religioso em sua caminhada rumo a Santiago de Compostela, já se tornou inconfundível. A cada parada em que o padre, exausto, aproveita para tirar um cochilo, é Thiago quem o desperta, chamando para o retorno à caminhada. Afinal, nas palavras do companheiro de viagem, a nova parada está sempre próxima, geralmente só alguns quilômetros. Nem sempre isso é verdadeiro, mas padre Alessandro já se acostumou às pequenas “inverdades” ditas também por Claudio Silva, o “Zum”, para incentivar a continuidade da caminhada. Afinal, o próximo destino está logo ali na frente, mesmo que demorem mais que uma hora para chegar até lá. 

É Thiago quem também se encarrega das filmagens e fotos, registros importantes da viagem que os leitores e internautas deste jornal já se acostumaram a ver e ouvir no decorrer dos últimos dias.

O padre Alessandro, que a princípio pensava em fazer a viagem sozinho, a essa altura do caminho deve estar bendizendo todos aqueles que o aconselharam a levar acompanhantes porque não existem somente flores e uvas no Caminho de Santiago. Há também muitos morros, com estradas cheias de pedras, difíceis de serem ultrapassadas, além de outras dificuldades naturais que complicam muito a vida dos que se mostram decididos a enfrentar tais desafios.

Bem que suas “velhinhas” e alguns amigos o aconselharam a não se arriscar sozinho pelo desconhecido caminho, onde as surpresas nem sempre são boas, como encontrar conterrâneos do Brasil e poder dividir com eles uma roda de prosa, ou até de violão, como aconteceu em Los Arcos, logo no começo da longa aventura.

E é justamente na hora das dificuldades que a presença de amigos torna-se fundamental para impedir que o viajante desista e tenha com quem dividir suas dores, machucados e outras dificuldades, conversando na mesma língua, em um lugar onde é possível se deparar com uma verdadeira Torre de Babel, tantas são as diferentes nacionalidades das pessoas com quem se encontra ao longo do caminho.

Em seu depoimento do último sábado, o padre confessou que as brincadeiras de “Zum”, sempre com uma tirada na ponta da língua para qualquer situação menos rotineira, ajudam a superar as complicações do dia a dia. Mas é Thiago quem sempre puxa alguma música para ser acompanhado pelo padre, geralmente imitando Zé Rico, o falecido ícone sertanejo que cantava com uma das mãos junto ao ouvido, e que fez dupla com Milionário, ambos especialistas em gravar canções que lembram dor de cotovelo ou algo bem pior que isso.

É ele quem dá início ao trecho da canção entoada em dueto, durante um passeio pelas ruas de León.

Ao comentar sobre a viagem,num de seus depoimentos, padre Alessandro falava das dificuldades do Caminho de Santiago, mas que a viagem também não era só sofrimento. Ao contrário, tinha seus momentos de descontração. E foi aí que ele falou de “Zum”:

“O  ‘Zum’ é um palhaço! Realmente é um palhaço que, de repente,solta umas assim, do nada que a gente não aguenta. Ontem mesmo ele falou : ‘Padre, eu tenho certeza de que se eu cometi muitos pecados na vida, já estou pagando tudo nesse caminho aqui. Eu estou com medo até de morrer por aqui, padre...”

E conta outra: “Aí, a gente está caminhando, todo mundo em silêncio e, de repente, ele chega e solta suas pérolas, do nada... E fala sério, mas a gente não aguenta... E ele diz: ‘Ô padre, quem foi que inventou esse caminho aqui? Foi Santiago quem inventou esse caminho? Eu não acredito. Acho que ele inventou isso para a gente pagar os pecados, por que não é possível!’. E tem uma hora em que ele diz:’Padre, eu não aguento mais, padre... eu vou morrer aqui!’ São tiradas que nos ajudam a enfrentar as dificuldades do dia a dia na estrada”, contou o religioso em seu depoimento.

Mas entre uma tirada e outra, uma mentira ou outra, contada para animar a viagem, os três companheiros passaram por León onde padre Alessandro, mais uma vez, se encantou com uma das igrejas do lugar, construída alguns séculos atrás, verdadeiro marco na história: a Catedral de León, do século XIII, de estilo gótico, como se pode verificar nas fotos, com torres e os chamados arcobotantes. 

Mas afinal, o que são os tais “arcobotantes?” Segundo os engenheiros, são construções em forma de meio arco, erguidas na parte exterior dos edifícios, na arquitetura gótica, para apoiar as paredes e repartir o peso das paredes e colunas. Foi graças a essa invenção de muitos séculos atrás que se conseguiu aumentar as alturas das edificações, dando forma e função com a técnica da época. 

Mesmo sem tempo para visitar todas elas, o padre certamente também gostaria de ter admirado a Basílica de Santo Isidoro, construída no século X, em estilo românico e que é conhecida pelos seus afrescos e pelos túmulos reais ainda preservados em seu interior.

Mas, vale lembrar, León já ficou para trás e os três seguiram em frente buscando reduzir ao máximo a distância que os separa da Catedral de Compostela, última e tão esperada etapa da longa viagem.

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