ARTIGO

Centrão, centro e centrinhos

Gaudêncio Torquato

Ao sair do Centrão, bloco até então com 221 deputados, MDB e DEM se tornam os pesos da balança a pender para situação ou oposição ao governo. Permanecer no meio, brandindo independência, é conversa fiada. Uma eventual base governista continuará sendo uma incerteza, pois o que vale é o pragmatismo. O governo conseguirá uma sólida e duradoura articulação com o Congresso?

Os dois partidos avaliarão o governo pelo crivo da sociedade e seus resultados dependem da economia. Se o Brasil voltar a impulsionar a confiança de investidores, a taxa do PIB, o produto nacional da felicidade bruta, poderá voltar a enxergar Bolsonaro como principal protagonista para 2022.

Na sombra do medo, a política tende a receber um voto mais crítico nas eleições deste ano e na de 2022. Os partidos olham com lupa o estado d’alma da sociedade. Mais pistas: o governo deve reforçar o cobertor social com o programa Renda Brasil para as margens, a partir do Nordeste.

Digamos que se repartam os recursos do Programa entre as classes sociais. Como agirão as periferias das grandes cidades? Só o Estado de São Paulo tem 46 milhões de eleitores. Como atenderá a essas massas? Outro elemento decisivo, as classes médias. Lembremos a imagem da pedra jogada no meio do lago: as marolas correm até a beira. As classes C, D e E poderão ser influenciadas.

Portanto, os centristas terão importância fundamenta. Além disso, por descrédito na política, uma intensa organicidade se desenvolve. As pessoas procuram centros de referência – associações, sindicatos, movimentos, grupos de ação. Milhares de centrinhos sociais se formam em novos polos de poder.

Infere-se então que o fisiológico Centrão, agora com 160 deputados, não terá tanta força de voto no centro da pirâmide e nos centrinhos pelo país. A nova ordem tira a força de negociatas que tratam de quarentenas para juízes. No caso, enxerga-se uma quarentena de 8 anos para uma eventual candidatura do juiz Sérgio Moro à Presidência da República. Ora, o eleitor que decida.

Se o Centrão formar ao lado do presidente, o governo ganhará desenvoltura no Congresso para evitar fantasmas que o assombram? A certeza é: precisará redobrar esforços para afastar horizontes sombrios que ameaçam a elevação do Brasil no concerto das Nações.

Gaudêncio Torquato é jornalista e professor titular da USP


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